
Texto: Mariana Cardoso
Implantado à sombra dos colonizadores açorianos, negros e alemães, o Município de Palhoça acumula histórias de sobrevivência e diversidade cultural. Uma das cidades mais extensas de Santa Catarina, com 394,66 quilômetros quadrados de área, Palhoça comemora sua liberdade mais um ano, com a passagem do seu aniversário de emancipação político administrativo. Há exatos 112 anos, no dia 24 de abril, Palhoça tornou-se Comarca Municipal (Município) e desmembrou-se das amarras político-administrativas do município de São José. O Decreto de Emancipação nº 184, de 1864, assinado pelo então governador Antônio Moreira César, dizia: “é elevada à cattegoria de Villa a Freguesia de Palhoça, que fica desmembrada do Município de São José, para formar com as Freguesias de Santo Amaro de Cubatão, Enseada de Brito e os districtos de Theresopolis, de Santa Izabel da Capivary e Colonia Militar de Santa Thereza, um município com a denominação de Palhoça (...)”. Antes de pertencer a São José, Palhoça pertenceu à antiga Nossa Senhora do Desterro (hoje Florianópolis) até o ano de 1833. No momento da emancipação seu território totalizava 3.180 km2. A partir de 1922, perdeu os territórios correspondentes aos atuais municípios de Santo Amaro da Imperatriz, Garopaba, Paulo Lopes, Rancho Queimado e São Bonifácio). Antes de o homem branco ocupar as terras palhocenses, um grande número de índios tupi-guaranis já habitavam a região, segundo as comprovações obtidas a partir dos sítios arqueológicos existentes em Palhoça. A partir do século 16, com a vinda de europeus para diversas regiões do Brasil, os portugueses açorianos (oriundos das Ilhas do arquipélago dos Açores, em Portugal) começaram a chegar, aumento conseqüentemente, o desaparecimento indígena. Mais de seis mil açorianos aportaram no Sul do Brasil entre os anos 1748 e 1756. Em Palhoça, 476 açorianos aportaram na atual Enseada de Brito, fundada como “freguesia de Nossa Senhora do Rosário de Enseada de Brito” em 1750, anos antes da fundação de Palhoça, que se deu somente em 1793. Tais imigrantes produziram diferentes culturas naquela região, como mandioca, milho e feijão. Com a emancipação de Palhoça a Enseada de Brito passou a integrar o Município. Palhoça permaneceu como arraial até 1873, quando foi elevada a condição de Distrito Policial. Mais tarde, em 1882, passou então à condição de Freguesia e em 1886, à Distrito de Paz. Como conta a história, Palhoça nasceu da necessidade de se estabelecer um refúgio no Continente para o caso de ataques inimigos, como o ocorrido em 1777 à Ilha do Desterro, invadida pelos espanhóis. Outra causa teria sido a intenção de criar povoados no caminho em direção a Lages. Acredita-se que o nome do Município tenha originado em referência a um armazém de palha (uma ‘palhoça’), construído às margens do rio Imaruim pelo português Caetano Silveira de Mattos para abastecer as embarcações. Mattos era proprietário de diversas terras e escravos em Palhoça no final do século 18 e é considerado o fundador do Município, o que para alguns autores, pode ser um equívoco. Outra versão para o nome é que por ocasião da fundação havia grande quantidade de casas de pau-a-pique cobertas de palha, usadas como residência ou como ranchos para abrigar as canoas dos pescadores. De acordo com o professor Vilson Francisco de Farias, no ano de 1892, pouco antes da sua emancipação, a Freguesia de Palhoça tinha um comércio bastante equilibrado, com a presença de diferentes etnias, porém com destaque para a luso-açoriana. “Palhoça era uma freguesia próspera no contexto regional. A elevação à categoria de município, em 1894, (...) o transforma num populoso e próspero município” (Dos Açores ao Brasil Meridional – uma viagem no tempo 500 anos do litoral catarinense, 2000: 241). Segundo o professor Farias, o ato de criação de transformar a freguesia de Palhoça em município foi uma vingança contra os monarquistas que controlavam o município de São José, ligados aos responsáveis pela instituição de governo na ilha de Santa Catarina. “Vingança ou não, a criação do município de Palhoça reduziu em 60% a população e o território de São José, reduzindo impostos e levando o município à estagnação (...)”, conta o autor. (Palhoça, Natureza, História e Cultura, 2004: 96). Depois de emancipado, o Município passou a reger sozinho também as questões ligadas ao judiciário e avançou no crescimento econômico. “O crescimento da Vila (Município) de Palhoça foi bastante rápido, tendo como eixo o comércio realizado com o planalto catarinense, que era feito através de seus portos, junto a vila e Barra do Aririu e as atividades agrícolas e olarias existentes por todo o município. Tal prosperidade foi premiada com a sua elevação à categoria de cidade, ocorrida em 22 de agosto de 1919”, complementa o professor. (Idem: 98) Em 1922 Palhoça começou a ser desmembrada, perdendo boa parte do seu território. A primeira perda foi com o distrito de Santa Tereza, hoje município de Bom Retiro. Anos mais tarde, novas perdas aconteceram para integrar os municípios de Santo Amaro da Imperatriz (em 1958), Paulo Lopes (em 1961) e Garopaba (em 1961).