Falando Sério - Edição 646

 

Folha em branco 

Luiz era um cara de 50 anos, boa vida, nasceu classe média mas vivia como rico. Sempre gastou mais do que ganhava, por isso, quem sustentava a família era a esposa, que tinha um bom emprego. Ele sempre trabalhou com o pai, que era médio empresário e lhe pagava quatro salários por mês, mais um percentual como sócio da empresa. 

Luiz tinha um complexo de rico, gostava de beber, todo dia da semana fazia festa com os amigos num clube social da cidade. Os amigos também eram irresponsáveis como ele, todos se achando ricos e que gastavam seus salários em bebida e jogos de azar, desses jogos que ninguém tem lucro.

O pai dele estava com 70 anos e dirigia a empresa com mão de ferro, sempre dizendo ao filho que ele seria seu herdeiro, pois, como filho único, em caso da morte do pai, seria ele quem comandaria a empresa. A esposa e os dois filhos menores pouco desfrutavam do salário do pai, já que ele jogava tudo fora.

Certa noite, vindo de uma festa com os amigos, tinha bebido demais e estava se sentindo muito cansado. Chegando em casa, não quis nem tomar um cafezinho, não tomou banho e atirou-se na cama. A esposa conta que ele passou a noite toda falando sozinho, como se estivesse meio louco. 

No dia seguinte, ele contou o que aconteceu: sonhou que tinha morrido e que seu espírito fui parar no purgatório - naquele tempo, o purgatório ainda existia. O administrador do purgatório, que era quem fazia a escolha dos merecedores do céu e do inferno, pediu-lhe que apresentasse o currículo da sua vida, mostrando o que ele havia jeito de bom enquanto vivia.

Ele não sabia o que dizer, porque até morrer ele só tinha sido um gozador e se aproveitado das coisas boas deixadas pelos outros. De bom, mesmo, para a sociedade e a coletividade, ele nunca fez nada, apenas aproveitou-se do dinheiro do pai e de tudo o que os outros fizeram indiretamente em seu benefício. 

O administrador do purgatório mandou que ele lesse os livros dos grandes filósofos da humanidade: Sócrates, Sêneca, Cícero e todos os outros, que oferecem cultura e o verdadeiro entendimento da vida. Faz o que Sêneca ensinou: “Começa a fazer contra ti próprio o papel de acusador; depois o de juiz; só em seguida o de advogado de defesa. Uma vez por outra, aplica uma pena a ti mesmo”.

De repente, ele acordou. Abriu os olhos e entendeu que estava vivo, acompanhado de sua família. Prometeu mudar de vida, trabalhar, dar bons exemplos, ser útil e pregar a honestidade. 

Chorando, agradeceu ao pai, à esposa e aos filhos, pela compreensão e amor que lhe dedicaram: prometeu que sua vida não seria mais uma folha em branco.



Publicado em 05/07/2018 - por Juarez Nahas

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