Fotógrafo tem que ter sensibilidade

Na semana do Dia Mundial da Fotografia, fotojornalista Roberto Scola fala sobre a profissão

c1a0c5ba12599bea56b11d5d61a09716.jpg Foto: ROBERTO SCOLA/ARQUIVO PESSOAL

O Dia Mundial da Fotografia é celebrado em 19 de agosto, em alusão à data em que a França apresentou ao mundo o daguerreótipo, primeiro processo fotográfico a ser comercializado no mundo. Isso em 1839, dois séculos atrás. De lá para cá, a fotografia evoluiu absurdamente. O fotógrafo Roberto Scola, de 59 anos, morador da Pedra Branca, viveu uma etapa significativa dessa transformação, atuando como fotojornalista em jornais como Pioneiro, em Caxias do Sul (RS), e Diário Catarinense (DC), em Florianópolis.

Mas quase que o mundo das imagens perdeu um de seus expoentes para a nobre profissão de salvar vidas. Roberto Scola é formado em Enfermagem e Obstetrícia. “Sempre que eu menciono isso, eu digo: como é que os caras vão me dar crédito como fotógrafo, uma coisa não tem nada a ver com a outra”, brinca o gaúcho de Caxias do Sul. Foi lá, na Serra Gaúcha, que registrou as primeiras poses, ainda durante a faculdade, na Universidade de Caxias do Sul (UCS). “Na faculdade, tinha uns livros legais de fotografia. Coincidentemente, eu estava nos corredores e olhei um monte desses livros de fotografia. Comecei a folhear e disse: é isso que eu quero fazer”, relembra.

Santo encontro! Apaixonado por imagens, fã do cinema, Scola acabou escolhendo a fotografia como carreira profissional, e ganhou um incentivo da mãe, que deu a ele a primeira câmera, uma Olympus Trip, que ele guarda até hoje. Em 1984, ingressou no jornal Pioneiro. Quatro anos depois, desembarcava em Florianópolis, para trabalhar no DC, onde permaneceu atuando até 2016. Pouco depois do lançamento dos primeiros empreendimentos na Pedra Branca, vendeu o apartamento onde morava, comprou um terreno e construiu seu lar no bairro-cidade palhocense. “É uma vida tranquila aqui, eu gosto”, diz Scola.

Porém, como todo fotojornalista que se preze, deve sentir falta das grandes coberturas que os jornais costumavam fazer. Uma das coberturas mais impactantes que vivenciou foi quando acompanhou o repórter Humberto Trezzi em uma viagem à Colômbia, onde registraram a movimentação dos militares na caça aos integrantes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (Farc). “A gente ficava de plantão, esperando, até que num dia de Halloween, os militares ligaram dizendo que tinham pegado um grupo e matado todo mundo num confronto”, recorda. Depois de uma longa espera, os dois embarcaram em um helicóptero e, acompanhados por militares pintados e camuflados, voaram até uma cidade interiorana, com menos de 5 mil habitantes. “Eles nos levaram para uma praça, onde tinha uns 30 cadáveres espalhados. Tinha cadáver sem braço, sem cabeça... Eu estava fotografando de cima e levei um empurrão de um militar, porque eles não queriam que eu fotografasse muito de perto para não mostrar que eles estavam em pedaços, que tinham sido executados. Foi um esquema muito forte”, narra o fotojornalista.

Scola explica que os militares levavam os corpos dos guerrilheiros para a praça para mostrar aos jovens da cidade o que acontecia com quem se unia às Farc. E havia, de fato, a sensação de que, em meio aos curiosos que se aproximavam da praça para observar a cena, estavam, mesmo, membros da organização, disfarçados. Por isso mesmo o fotógrafo temeu pela vida quando descobriu que precisariam passar uma noite na cidade e, apesar da promessa de que dormiriam em um quartel, não puderam se abrigar sob a guarda dos militares. Dormiram em uma hospedagem, temendo pelo pior. Ou melhor, nem todos estavam com medo. “Eu estava preocupado, o Trezzi já estava até pensando em se infiltrar na mata para procurar os caras”, relembra. Mas era perigoso, de fato. Naquela época, não era incomum as Farc sequestrarem jornalistas. Uma das reféns mais “famosas”, a ativista política Ingrid Betancourt, ainda estava em poder da guerrilha. Quando amanheceu, depois de uma noite sem sustos, deixaram o hotel e viram familiares vindos de vários lugares da região com os caixões para levar os mortos para casa e realizar o sepultamento.

A saga na Colômbia foi uma entre tantas coberturas especiais que ficarão registradas na memória. Outro exemplo mencionado foi o enterro do jovem Vitor Isaías, de 14 anos, uma das promessas do Flamengo que morreu queimado no fatídico incêndio no Centro de Treinamento do Ninho do Urubu, no início do ano. “Essa matéria me marcou bastante, porque a família era muito simples. Quando enterraram ele, era uma caixinha, num chão batido. Dava para ver que apostavam muito no guri. Eu senti, assim, talvez pelo fato de eu ter passado por uma situação difícil, fiz um transplante (de fígado) e isso eu acho que me fez ver de uma forma diferente a vida. Eu já tinha feito outras coberturas marcantes, como a de cinco crianças que morreram afogadas, mas essa me marcou bastante, por uma série de coisas”, descreve o fotojornalista, que cobriu o sepultamento do jovem jogador, em Biguaçu, para o grupo O Globo.

São raras as oportunidades como essa, de desempenhar um trabalho profissional e de impacto dentro do jornalismo atual, o que entristece o profissional. “É uma pena que isso está se perdendo, os jornais ficaram pequenos”, lamenta Roberto Scola, que viveu uma época de dinamismo no jornalismo, com coberturas em diferentes áreas, da moda ao esporte, da política à polícia. Aliás, era esse dinamismo que motivava o fotógrafo a ir para o trabalho todos os dias. “O fotojornalismo me dava muita liberdade para trabalhar, não era uma coisa engessada, é uma diversidade bastante grande de assuntos”, destaca, saudoso.

Só não tem saudade dos perrengues da profissão na era “pré-digital”. Scola lembra do tempo em que precisavam trocar os filmes em cores e em preto e branco nas máquinas (e era uma frustração quando a melhor foto era colorida e a página do jornal era em preto e branco, por exemplo); do tempo em que levavam tambores com os químicos e faziam a “revelação” das fotos dentro do carro ou em banheiros de hotéis, em coberturas longas. E viveu a transição para a era digital e toda a comodidade que ela trouxe. “Isso foi uma revolução, facilitou a vida do fotógrafo, deu mais tempo para fotografar”, pontua.
Seja qual for o momento histórico que você apontar nessa trajetória da fotografia, dentro ou fora do jornalismo, uma verdade é imutável: por mais espetacular que 
seja a tecnologia, é como grão ao vento sem o talento de um bom fotógrafo. “Antes de ter a parte técnica do equipamento, o fotógrafo tem que ter a sensibilidade. Com o tempo, tu vai dominando o equipamento e vai se aperfeiçoando, mas é a sensibilidade que faz a diferença, para entender o que tu quer fazer, a proposta e a finalidade daquela foto, porque ela tem que marcar, tem que passar uma informação. Uma foto, todo mundo pode fazer, mas a proposta de passar uma mensagem, isso é a sensibilidade do fotógrafo”, ensina. 



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Créditos: ROBERTO SCOLA/ARQUIVO PESSOAL ROBERTO SCOLA/ARQUIVO PESSOAL ROBERTO SCOLA/ARQUIVO PESSOAL
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