Polêmica reabre debate sobre animais de rua

Protetora cuida de cães abandonados e vida dos vizinhos vira um caos. Como harmonizar? Moradora da Praia do Sonho tem projeto que pode ajudar a resolver a equação

19073374e5b3efce2c7248d43aabe48c.JPG Foto: NORBERTO MACHADO E ISONYANE IRIS

Sem uma intervenção enérgica e resolutiva do Poder Público municipal, o problema dos animais abandonados pelas ruas do município continua provocando dores de cabeça em muitos palhocenses. Há cuidadores de animais que tentam, por conta própria, amenizar a situação com ações emergenciais, que nem sempre são bem vistas pela vizinhança. É preciso encontrar uma solução permanente, com uma estrutura viável, que atenda às necessidades dos animais sem prejudicar o cotidiano dos seres humanos.
Na Guarda do Cubatão, um caso emblemático: a iniciativa de uma protetora de animais em construir um abrigo em uma área residencial está sendo denunciada por vizinhos. O desconforto entre os moradores não é pelo trabalho da protetora, mas sim, pelos problemas provocados pela presença dos cães, como latido e mau cheiro. Os vizinhos relatam que o abrigo acabou com a tranquilidade de quem vive próximo ao local. 
Há dois meses, o terreno, que estava vazio, começou a ter movimento de construção. Os vizinhos contam que chegaram a perguntar para os pedreiros o que seria construído ali, mas nunca lhes davam uma informação consistente. “Nos disseram que era um viveiro de pássaros, depois uma estufa de plantas nativas, até baia de cavalos chegamos a suspeitar. Até que colocaram as cercas, foi quando tivemos certeza que era para animais”, relembra um dos vizinhos.
Passadas algumas semanas, os cachorros começaram a chegar. Logo, os vizinhos começaram a ficar assustados com a quantidade, principalmente pelo fato de que eles ficariam sozinhos no terreno, pois o que tinha sido construído era apenas casinhas para os animais. “Na hora eu pensei que era loucura. Como uma pessoa poderia construir um lugar para colocar cachorros sem ninguém para cuidar, simplesmente deixaria para que a gente convivesse com o barulho e o mau cheiro”, pensou outra moradora próxima. “No dia que os animais começaram a ser trazidos pela protetora, eu lembro que perguntei para ela por que ela estava fazendo isso no meio de um monte de casas. Como poderíamos conviver com mais de 20 cachorros sozinhos o dia inteiro?”, relembra outro morador, indignado com a situação.
Os vizinhos afirmam que entendem o trabalho feito pela protetora, elogiam as casinhas que foram feitas, acham um gesto muito bonito, mas não entendem como é possível um abrigo ser instalado entre residências, sem nenhuma supervisão. “Ela vem todos os dias pela manhã, limpa os canis e alimenta, mas mesmo assim é o dia inteiro que aguentamos o mau cheiro das fezes e os latidos, que não nos deixam dormir, assistir à televisão, nem mesmo conversar. O que nós queremos é que ela entenda que um abrigo desses deve ser montado afastado de residências, não entre pessoas que trabalham e precisam dormir”, desabafa outra vizinha.
Depois de algumas tentativas de conversa sem sucesso com a protetora e também de gravações feitas na madrugada que comprovam os latidos dos cães, os moradores registram um Boletim de Ocorrência e formalizaram denúncia na Prefeitura, na Vigilância Sanitária e na 4ª Promotoria da Comarca de Palhoça. “Já que ela não quis entender o nosso lado, afinal trabalhamos, temos filhos, pessoas doentes, que precisamos dormir e descansar, então fomos buscar os nossos direitos. Queremos saber até onde é permitido ter um abrigo entre residências, se esses animais podem ficar sozinhos e se não existe nada que nos ajude a voltar a ter paz”, questiona outra vizinha.
Segundo informações extraoficiais colhidas pela reportagem, mesmo o canil estando padronizado e bem construído, a protetora não poderia ter mais de 10 cachorros no local. Para isso, seria necessária uma autorização e um alvará da Vigilância Sanitária. O terreno precisa estar no nome da dona do abrigo, pois também seria preciso que o proprietário do terreno tenha conhecimento e dê autorização para que fosse feito o canil. Até o fechamento desta edição, a equipe de reportagem não conseguiu confirmar a informação oficialmente com a Vigilância Sanitária e com a Prefeitura. 

A visão da protetora
A protetora contou à equipe de reportagem que há 15 anos, quando mudou para Palhoça, começou a alimentar e a cuidar de cães abandonados. “A cada dia, mais ninhadas são abandonadas, inclusive alguns animais adultos em situação de risco. São esses que habitam o imóvel que foi recentemente adquirido e que agora é alvo de denúncias pelos vizinhos, que reclamam que os cães latem, mas isso é normal, os cães da vizinhança também latem”, comenta, sobre as reclamações.
A protetora destacou ainda que a manutenção de todos é custeada por ela, seu marido e algumas contribuições de amigos e familiares mais próximos. “Os animais são castrados e encontram-se gozando de plena saúde, visto que um veterinário acompanha mensalmente. As vacinas estão sempre em dia. Os canis são limpos diariamente, logo pela manhã, com sabão em pó, água sanitária e desinfetante de centro cirúrgico. Além disso, abrigo dos cães não é atividade que pode ser considerada potencialmente poluidora. Essa situação começou e se manteve, pois estamos fazendo um trabalho que deveria ser da Prefeitura, com políticas públicas de controle de zoonoses, recolha e acolhimento de animais de rua”, pontua.
Segundo a protetora, o imóvel, com mais de 2 mil metros quadrados, é próprio e conta com instalações adequadas e com sistema particular de tratamento de esgoto, onde atualmente abriga cerca de 20 animais, alguns com perfil de adoção. “A população ali é flutuante, pois tratam-se de cães recolhidos, castrados, que serão doados. Eu sempre participo de feiras de doação de cães, em shoppings e outros estabelecimentos comerciais. Um serviço silencioso que é feito sem alarde, pois os protetores evitam que a população fique sabendo, para que não abandonem animais nas proximidades de nossas casas”, explica.
A protetora afirma ainda que recentemente houve uma vistoria do corpo técnico da Prefeitura que comprovou que não existe no local qualquer atividade lucrativa acontecendo. “Esta não é uma atividade ilegal ou ilícita. Já que o imóvel é uma propriedade particular a os recursos para manutenção são próprios, e já que não existe qualquer auxílio do Poder Público e por não depender de manutenção e ajuda de outros, também não se admite que fiquem dando palpite ou até jogando pedras nos bichinhos. Cada um é senhor de seu imóvel e nele desenvolve a atividade que quer, desde que não seja ilegal, ilícita ou poluente”, acredita a protetora, que preferiu não se identificar.
Feita a representação pelos moradores vizinhos ao abrigo, a 4ª Promotoria da Comarca de Palhoça instaurou o respectivo procedimento e encaminhou ofício à Prefeitura e à Fundação do Meio Ambiente (IMA), mas até o fechamento da edição, nenhuma resposta teria sido dada ao Palhocense pelos órgãos competentes. 

Moradora da Praia do Sonho desenvolve projeto Cidadão de Luz
Rafaela Bianchi veio de Presidente Prudente (SP) para Palhoça há cerca de oito anos, e se estabeleceu na Praia do Sonho. Ela tem um projeto chamado Cidadão de Luz, para lidar com a questão do abandono de animais de uma forma sistemática. Enquanto não consegue apoio do Poder Público para mover as correntes e colocar sua proposta em ação, ela atua como pode para ajudar a reduzir o problema do abandono de animais em Palhoça – estimativas indicam que existam 8 mil animais de rua no município.
O Cidadão de Luz é baseado na educação e a intenção é a de que seja implantado na rede municipal. Busca trazer ensinamento para a população sobre como se deve tratar um animal doméstico (especialmente cachorros e gatos, mas também vai abordar os cavalos, pela questão dos maus tratos, que é um problema muito sério em Palhoça). “Quero implantar um dia de atividades na escola, uma gincana, onde você vai ter, em um primeiro momento, a questão de palestras, com material impresso em material ecológico, reciclado”, conta Rafaela. O programa vai envolver outras questões ambientais, como a da reciclagem, com uma parceria com o programa Ecopet.
Além de ir até as escolas do município, o projeto prevê também a construção de um espaço para abrigar os animais. “Queremos criar uma estrutura para que o projeto tenha continuidade, para que esse tipo de ação seja feito pelo menos semestralmente, porque eles se reproduzem a cada seis meses”, conta Rafaela.
Enquanto o projeto ainda não está sendo executado, a protetora aproveita seus dias de folga para promover ações voluntárias isoladas. Uma dessas ações é a feira de adoção que ela está organizando junto ao Abrigo de Carinho Marta Lorenzetti, referência no acolhimento de animais de rua no Morretes – aliás, é lá que a protetora espera instalar a estrutura de acolhimento do projeto Cidadão de Luz. O abrigo conta, hoje, com 150 cães, e nunca foi envolvido em uma ação como uma feira de adoção. A feira ainda não tem data nem local definidos. Isso porque, primeiro, será feito um trabalho de adestramento de 20 cães que serão doados nesta primeira ação. Para isso, será necessário construir um canil especial para o adestramento, e a organizadora pede a colaboração da comunidade para a doação de tela soldada, 20 casinhas e 20 coleiras. Depois que os cães forem devidamente socializados é que serão colocados à disposição para adoção na feira.
Além disso, Rafaela é engajada em outras ações voluntárias. Diariamente, ela leva animais para o Centro de Bem-Estar Animal do município, para a realização de castrações. “Agora a gente já está com um trabalho bem forte de castração. Mas não adianta, o negócio tem que ser a educação. Se não ensinar para as crianças, serão adultos que vão continuar fazendo essas barbaridades que a gente vê”, pondera a protetora.
Quem quiser ajudar neste trabalho, pode entrar em contato com a Rafaela pelo telefone 99850-6922. 



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Créditos: NORBERTO MACHADO E ISONYANE IRIS NORBERTO MACHADO E ISONYANE IRIS
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