Mesmo na timidez dos números, há esperança

Economia do país teve uma ligeira recuperação em junho. Em Palhoça, saldo entre admissões e demissões foi positivo

e545bf6339d70106103866f83ffe1e86.png Foto: REPRODUÇÃO/INTERNET

Em meio à escalada da pandemia, a esperança da recuperação econômica: o mercado de trabalho formal no país teve melhora em junho, quando comparado ao mês de maio. Palhoça seguiu essa tendência. Os números constam no balanço do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) de 2020, divulgado nesta terça-feira (28) pelo Ministério da Economia.

No país, de uma forma geral, o saldo de junho ainda foi negativo (-10.984 vagas), mas a tendência é de recuperação, em comparação a maio – em que o saldo negativo entre admissões e demissões foi de 350.303 vagas. Em Palhoça, esta balança pende para o lado da esperança: com 1.522 admissões e 1.141 demissões, o saldo no município foi positivo em 381 vagas. O crescimento ainda é tímido, mas qualquer indicativo de crescimento, neste momento de pandemia, precisa ser comemorado. 

O ano começou promissor, com 2.852 contratações formalizadas e um saldo de 1.075 vagas (confira na tabela ao lado). Em fevereiro, este saldo caiu para 309 vagas. A situação começou a se complicar em março, com o início da quarentena imposta pelo governo do estado. Abril foi o “mês negro”: nem tanto pelo número absoluto de vagas perdidas (2.291 postos de trabalho foram extintos), que não apresentou um salto tão significativo em relação a fevereiro e março, mas principalmente pelo recorde negativo de 1.716 vagas no balanço entre demissões e admissões (apenas 575 vagas formais foram preenchidas em abril).

Entre março e junho, no olho do furacão da pandemia de Covid-19, a economia de Palhoça registrou 5.089 admissões, contra 7.240 demissões – um saldo negativo de 2.151 vagas. “Neste momento delicado, com incertezas na área econômica, em virtude da pandemia do coronavírus, é extremamente importante uma tomada de posição do Poder Público. Por isso, a Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Palhoça está projetando algumas iniciativas, como o programa Salto, que inclusive será pauta de uma reunião nesta quinta-feira (30), na Prefeitura; a criação de um Fundo de Recuperação Econômica (que ainda é um nome provisório); e o programa Minha Empresa Ativa. São programas que visam alavancar o desenvolvimento do município, auxiliando os empresários na estabilização da economia e na manutenção do nível de emprego”, comenta a secretária de Desenvolvimento Econômico de Palhoça, Anna Paula Heiderschedt.

Para a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Palhoça, o momento ainda é de tensão. A avaliação é a de que a pandemia tem desestruturado economias no mundo todo, mas, em países mais pobres, suas consequências são ainda mais devastadoras. Na avaliação da CDL, a recessão está apenas se iniciando no Brasil e “pode ser um evento sem precedentes”. Os dirigentes avaliam que a quebra brusca na produção de bens e serviços no país tem imposto a perda de empregos e renda e a diminuição acentuada do capital circulante – e, consequentemente, a quebra de muitas empresas.

Desde o início do ano, só na área do comércio, já houve um saldo de desempregados de quase 500 chefes de família, em Palhoça. São desligamentos obrigatórios, onde os estabelecimentos comerciais empregadores não tiveram alternativas para diminuir custos e buscar de todas as formas, simplesmente, sobreviver. “Os efeitos do distanciamento e isolamento social têm sido terríveis para a grande maioria dos comerciantes de Palhoça. A diminuição de renda dos trabalhadores, causada pelo desemprego, tem reduzido as vendas das lojas a níveis ínfimos, incapazes até para manter o próprio negócio aberto. Muitas lojas, infelizmente, não conseguirão sobreviver a essa crise. A CDL tem se desdobrado para auxiliar seus estabelecimentos associados nesse momento difícil. Mas, as perspectivas são cruéis. Estamos tendo todos que nos reinventar”, reflete o presidente da CDL de Palhoça, Almir Anísio Rosa.

Para o presidente da Associação Empresarial de Palhoça (Acip), Ivan Cadore, os dados divulgados pelo Caged podem estar espelhando uma fotografia parcial do que acontece na economia do município no momento. “Temos muitas empresas com os contratos suspensos, os trabalhadores estão em casa, mas não estão ativos. O que está chegando na entidade é diferente: muitas demissões e fechamentos de empresas, indicativos que possivelmente ainda não foram homologados e não tenham sido captados pela pesquisa. Gostaríamos muito de comemorar uma retomada firme da economia, mas, no momento, a realidade que o setor empresarial nos apresenta ainda não é esta”, afirma o dirigente.


Em recuperação

A recuperação iniciou em maio e se consolidou em junho, primeiro período da pandemia em que a balança foi favorável em Palhoça. No Brasil, o cenário é de otimismo, ainda que tímido. Segundo o secretário especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia, Bruno Bianco, os resultados de junho demonstram uma reação importante do mercado de trabalho. “É uma melhora muito significativa, expressiva, que demonstra uma reação clara do mercado de trabalho”, disse. “O Brasil, de fato, com as políticas públicas que foram feitas tem conseguido êxito no seu objetivo de preservar postos de trabalho, de preservar a renda dos brasileiros”, completou Bianco.

O desempenho de Palhoça em junho acompanha as estatísticas da região Sul, em que o saldo também foi positivo: 1.699 mais admissões em relação às demissões. Em Santa Catarina, a diferença é ainda maior: foram criadas 59.980 novas vagas, contra 56.259 desligamentos, com saldo de 3.721 vagas no mês passado.
 

Otimismo em SC

Levantamento realizado por Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc), Federação do Comércio, Serviços e Turismo (Fecomércio/SC) e Serviço de Apoio Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae/SC) mostra que o setor empresarial está buscando recursos para investir em novos projetos. 
Apesar das perdas de faturamento acumuladas nos últimos quatro meses por causa da redução da atividade econômica e da possibilidade de que os efeitos da crise sanitária se estendam por mais tempo, uma em cada cinco empresas do estado pretende realizar investimentos ainda durante a pandemia. Esta é uma das conclusões da quarta edição da pesquisa “Impacto do coronavírus nos negócios de Santa Catarina”, divulgada nesta quarta-feira (29). “Os dados sinalizam a volta do otimismo, que se confirma em outros estudos que realizamos, os quais mostram que abril foi o pior mês do ano para a economia catarinense”, destaca o presidente da Fiesc, Mario Cezar de Aguiar. “O fato de um em cada cinco empresários buscar recursos para novos projetos mostra a disposição de investir e isso é um dos aspectos mais importantes para que a retomada do crescimento seja sustentável”, destaca Aguiar.

A pesquisa mostra o retorno das atividades econômicas. Um indicador disso é que, com adaptações, 87,5% das empresas já retomaram as atividades, embora de maneira desigual entre os portes, visto que o micro e pequeno negócio apresentam maiores dificuldades. O levantamento mostra que 25% das empresas estão com o funcionamento normalizado, 40,5% se readaptaram e 21,8% estão com produção reduzida. No outro lado, 11% estão fechadas temporariamente e 1,5%, definitivamente.

Em linha com os dados divulgados nesta semana pelo Ministério da Economia, o estudo realizado por Fiesc, Fecomércio e Sebrae registra um movimento de retomada do emprego. Caiu o número de empresas que reduziram o quadro e aumentou a quantidade daquelas que geraram mais postos de trabalho. Na primeira edição da pesquisa, três em cada quatro (76,8%) empresas catarinenses mostraram ter reduzido a quantidade de trabalhadores contratados. Na atual medição, esse índice caiu praticamente pela metade, e agora são 36,9%. Na outra ponta, 10,1% das empresas dizem ter aumentado seus quadros. Trata-se de um volume significativamente maior do que o de 1,6% registrado na terceira edição e que já representava o dobro dos levantamentos anteriores.

As medidas previstas na Medida Provisória 936/2020 são determinantes para a manutenção de emprego e renda, consideram os entrevistados da pesquisa. O acesso ao crédito é crucial para a manutenção ou retomada das atividades, no entanto, apenas uma em cada três empresas que buscaram, obtiveram empréstimo, ainda que o número de financiamentos obtidos desde maio tenha aumentado 2,3 pontos percentuais. No total, 45,1% das empresas consultadas disseram ter procurado financiamento e somente 16,6% do total o obtiveram. Os entrevistados consideram que o acesso ao crédito poderia ter evitado as falências registradas durante a pandemia – e que são estimadas em 1,5% das empresas. O levantamento indagou os motivos dessas falências e as respostas indicam que 48% foram motivadas pela pandemia (redução de faturamento). Das demais, 12% são atribuídas a outros problemas não relacionados à pandemia e 40% pelo fato de as empresas já estarem em situação delicada, agravada durante a ocorrência da Covid-19. Neste contexto, 36% das entrevistadas afirmam que as falências poderiam ter sido evitadas caso houvesse acesso ao crédito.

Além do objetivo de realizar novos investimentos e projetos, os principais motivos para a busca de crédito são para fluxo de caixa (58%), pagamento de custos fixos (32,4%) e pagamento da folha e salários (20,3%).


Micro e pequena empresa

Em relação aos pequenos negócios, as atividades mais prejudicadas são dos segmentos da economia criativa, como atividades culturais e artísticas, transportes escolares e turísticos, e eventos. Nesses ramos, seis em cada dez empresas seguem fechadas. O diretor técnico do Sebrae/SC, Luc Pinheiro, destaca que a situação dessas empresas é a mais dramática. “Sabemos que os segmentos devem ser os últimos a voltar com atuação completa e, consequentemente, os últimos a se recuperarem economicamente. Por isso é importante olharmos para esses negócios e buscarmos auxiliar na criação de soluções inovadoras que os ajudem a passar por esse período de crise”, comenta. 

O estudo revela também a primeira recuperação de empregos nas micro e pequenas empresas desde o início da pandemia – o percentual de empresas que estão demitindo caiu de 37,7% para 21,8%, enquanto 4% têm saldo positivo de empregados. O segmento também se valeu das prerrogativas da MP 936/2020. No faturamento diário, os pequenos negócios tiveram uma queda de 77% até o dia 12 de abril, período em que as restrições de isolamento social eram mais intensas. A partir daí, as pequenas empresas vêm se recuperando com a volta gradual do funcionamento das atividades, tendo acumulado 58,1% de aumento no período até junho. Da mesma forma, a pesquisa mostrou ainda que o acesso ao crédito vem aumentando com uma maior taxa de sucesso na obtenção de empréstimos na rede bancária, sendo que um a cada três pequenos negócios conseguiram empréstimo, incremento de 13% na taxa de sucesso. “Esses números são fundamentais para mostrar que, apesar das dificuldades, as políticas públicas adotadas até o momento estão surtindo efeito e apoiando os empresários. O caminho ainda é longo, mas as medidas de apoio aos pequenos negócios já começam a mostrar resultados”, comenta o diretor superintendente do Sebrae/SC, Carlos Henrique Ramos Fonseca.


Comércio e serviços

“Com a leve recuperação do comércio e a contínua dificuldade dos serviços, os dados demonstram a necessidade de elaborar alternativas para a retomada segura da economia”, analisa o presidente da Fecomércio, Bruno Breithaupt. “A pesquisa também atua como instrumento para a construção de uma gestão estratégica e de políticas integradas para essa retomada segura das atividades, observando as questões econômicas, sociais e de saúde pública. Identificando pontos críticos e áreas mais sensíveis, permitindo o direcionamento assertivo dos esforços para os setores mais fragilizados”, adiciona.

O superintendente da Fecomércio/SC, Renato Barcellos, destaca as medidas anunciadas pelo governo federal no início da crise sanitária. "Importante essa atuação do governo de prorrogar a medida provisória por períodos menores, o que permite a avaliação da economia em cada estágio da pandemia, permitindo que os setores consigam se adaptar. O empresário quer contratar e esses mecanismos, que permitem a preservação do emprego, são essenciais", avalia. 


Indústria

O levantamento ouviu 445 indústrias e mostra que cerca de 32% dos estabelecimentos do setor realizaram algum tipo de adaptação no processo produtivo para a retomada das atividades. Cerca de 40% do segmento está com redução na produção, um percentual bem inferior aos 68% da edição anterior. 

Há uma queda estimada em 19,9% na produção industrial desde 17 de março, com retração de R$ 8,6 bilhões na produção industrial, sendo R$ 7,7 bilhões nas vendas ao mercado interno e R$ 790 milhões nas exportações. Quanto ao acesso ao crédito, em torno de metade das empresas do setor entrevistadas disse não ter buscado financiamento. Entre as demais, uma a cada duas empresas não obteve sucesso.

Conforme a análise, a indústria foi a que mais utilizou as prerrogativas da Medida Provisória 936/2020, afetando 40% dos empregos do setor. Segundo os resultados do levantamento, 40% das indústrias suspenderam contratos de trabalho no período. Já a redução de jornada e de salário foi adotada por 42% das empresas do setor, ou seja, 24,3% dos trabalhadores. “A pesquisa mostra uma tendência à retomada da economia”, acrescenta o presidente da Fiesc. “Se em abril se cogitava uma redução do PIB superior a 10%, hoje as estimativas são de uma queda bem inferior”, complementa.

Foram ouvidas 1,6 mil empresas de 6 a 12 de julho e a margem de erro da pesquisa geral é de 2,9%.


Números em Palhoça

Janeiro
Admitidos: 2.852
Desligados: 1.777

Fevereiro
Admitidos: 2.453
Desligados: 2.144

Março
Admitidos: 1.897
Desligados: 2.270

Abril
Admitidos: 575
Desligados: 2.291

Maio
Admitidos: 1.095
Desligados: 1.538

Junho
Admitidos: 1.522
Desligados: 1.141

Total de admissões em 2020: 5.089
Total de demissões em 2020: 7.240
Saldo: -2.151

 

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