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O alienista sou eu

 

O alienista sou eu!

 

Tudo começou quando bateu o sinal e precisamos trocar de aula. A sirene soou com aquele eco característico de colégio público, que mais parece um aviso de evacuação do que um chamado para a troca de saberes. Avisei os alunos da importância de refazerem a atividade e me despedi com um sonoro e animado...
 – ah, sem animação não seria eu – “Até mais, meus queridos!”
O dia estava perfeito. O sol entrava pelas janelas de vidro fosco do corredor, refletindo nas paredes brancas, e a brisa leve fazia dançar as folhas da jaqueira do pátio. Estava tão bom que até desconfiei. Afinal, a vida de um professor tem tantos desafios que é preciso esperar chegar em casa para ter certeza de que não houve uma catástrofe pedagógica. Corria tudo perfeitamente bem até que, na troca de professores, notei que minha colega ainda discursava na sala. O ambiente era aquele típico da escola: ar-condicionado fazendo mais barulho do que efeito, ventiladores desligados porque "ninguém aguenta vento na cabeça", e os alunos atentos, quase hipnotizados, diante dos gestos teatrais da professora. Ela falava com paixão, e os olhos dos alunos brilhavam como se estivessem assistindo a um TED Talk ao vivo. Mas já tinham passado mais de cinco minutos e – bom, quem conhece minha “insana” personalidade sabe: saindo qualquer coisinha fora do planejado, eu já começo uma pequena crise de ansiedade.  Eu espiava pela janelinha da porta, meio escondido entre as cartolinas penduradas do mural, na esperança de que minha presença fosse notada. A cada segundo, a ansiedade crescia, e eu já começava a repensar minha carreira e considerar abrir um Sebo de livros usados.
Coitada, a colega só estava trabalhando, mas eu sou um pouco exagerado – na verdade, MUITO! – Quando ela finalmente me notou, fez sinal para que eu entrasse. Olha só, normalmente eu declinaria e esperaria, mas na minha percepção eu estava MUITO atrasado – então, entrei...
Mas ela continuou falando. E eu ali, feito um NPC esperando minha vez no jogo. Então – Um instante, enquanto releio este texto, penso se haverá necessidade de aumentar a dose do meu remedinho... kkkkkkk – no meio do discurso da colega, ela comentou algo sobre atividade física e treinamento, e eu, com minha mente criativa, viajei...
Sem pensar, comecei a fazer flexões ali mesmo, no cantinho entre a lousa e a mesa com os pincéis apagados. Ela me olhou. Um misto de susto e pena tomou conta do olhar dela. Deve ser difícil trabalhar comigo..., mas ao menos ela compreendeu minha ansiedade, e, finalmente, terminou sua aula. Eu me preparei para assumir a cena. Mas calma, ainda não consegui introduzir o assunto da aula porque, quando disse meu típico “Bom dia, turma!” – entrou outra professora! Sim, uma terceira figura educacional apareceu, e, acredite, a sala já estava mais movimentada que pátio em dia de jogo da escola. Com a presença das duas colegas, iniciei uma pequena dança no meio da sala. Saltava, abaixava, girava como se estivesse em Olinda, em pleno carnaval. Passos de frevo, sorrisos e braços para o alto. Era eu, o espetáculo do turno matutino. Acho que assustei as colegas... pois ambas saíram da sala rapidamente. Talvez tenha sido o frevo. Talvez eu mesmo.
Finalmente, consegui o protagonismo! Mas, definitivamente, o dia não estava normal.
Durante a minha exposição sobre a importância da reescrita da redação, um aluno, do nada, se levantou e anunciou:
— Parabéns, professor! Hoje é o Dia da Conscientização do Autista!
Naquele instante, travei. As luzes da sala pareciam mais fortes, o ar-condicionado gelou minha espinha, e o chão de cerâmica branca se tornou uma passarela de vergonha. Eu só queria falar sobre coesão e coerência. Mas o universo conspirava para o caos. Então, um dos alunos, que também divide o autismo comigo, soltou:
— Tá explicado...
Me pareceu uma brincadeira, e no impulso, disparei:
— Oras, eu já te ouvi, seu tanso!
Ai, por quê??? Por qual motivo eu disse isso?
Agora já era... O aluno se levanta, fecha o caderno, me olha fixamente e, com voz decidida, diz:
— Agora chega, professor. Vou lá na coordenação reclamar!
Quem me conhece sabe que essa atitude foi como um temporal na minha mente. Imaginei um furacão categoria 5 passando por dentro da escola. Trovões, raios, árvores caindo (inclusive em cima de mim). A biblioteca desabando e os livros me soterrando com manuais do Enem. Menos de três minutos depois, pedi licença à turma e saí em disparada pelos corredores, que pareciam mais longos do que nunca. Passei pelos armários de ferro, pelas cartinhas de agradecimento coladas nas paredes e pela cantina fechada – a escola inteira parecia me julgar. Cheguei à coordenação. Lá estava ele. Sentado. Sereno. E eu, em modo confissão da Inquisição:
— Me desculpa! Fui eu! Eu chamei o aluno de tanso! Mas juro que foi sem querer, é que eu... eu... eu...
A coordenadora, atrás da mesa de madeira, com uma prancheta e uma caneca de café com o nome “Rainha da Escola” (juro!), se controlava para não rir. Eu vomitava palavras como se minha vida dependesse disso. Era um verdadeiro testamento. Um chorando, o outro ofendido. Eu pronto para pedir aposentadoria por invalidez emocional. A coordenadora, com paciência de monja tibetana, respirou fundo, sorriu e disse:
— Tá tudo bem. Amanhã resolvemos com calma.
Saí da sala e andei pelos corredores como quem caminha para o cadafalso. O mural do mês da leitura parecia zombar de mim com uma frase: “Palavras têm poder”.
Passei pela cantina e ouvi um pacote de salgadinho cochichar: “Tanso foi pouco...”
Cheguei até a sala dos professores e desabei na cadeira, olhando pro nada, refletindo sobre minha carreira e considerando mudar de profissão. Quem sabe florista? Vendedor de pipoca na praia? Ou guia turístico em Marte — lá talvez me entendessem.
E então pensei:
— Será que se eu pedir um segundo professor (para MIM), consigo evitar a demissão? 
Pior... talvez eu devesse ser internado por mim mesmo — num gesto absolutamente machadiano — e passar uns tempos na Casa Verde, sob os cuidados do Dr. Simão Bacamarte. Vai ver o problema não é o sistema. Sou eu.
E, como diria o mestre Machado: “A loucura, enfim, é uma questão de ponto de vista.”

 



Publicado em 05/03/2026 - por Daniel Camargo Thomaz

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