
De mãos dadas com o medo
Feriado maravilhoso. Afinal, é aniversário de Palhoça, o município que escolhi como moradia, esse lar aconchegante onde recarrego as energias ao simplesmente caminhar pela orla da Praia de Fora, com os pés afundando na areia morna e o olhar perdido entre o mar, o Cambirela e as nuvens, que insistem em brincar de formas, como se soubessem que adultos também precisam de imaginação para não endurecer por dentro.
Feriado é sempre bem-vindo. Não apenas pela pausa que, convenhamos, o brasileiro aprende a valorizar quase como um patrimônio imaterial, mas pela oportunidade de estar com meu filho. Meu pequeno companheiro, que em breve crescerá o suficiente para, inevitavelmente, sentir aquele constrangimento social ao andar ao lado de um “coroa”. Ainda não chegamos lá. Por ora, sou herói ou algo entre um atleta aposentado e um comentarista técnico da vida.
Animado, decidi levá-lo ao campinho de grama sintética da Associação de Moradores uma dessas raras obras públicas que não servem apenas para fotografia eleitoral. O espaço, diga-se, é agradável, cercado por risadas, pequenas disputas territoriais infantis e aquela energia caótica típica de qualquer ambiente onde há bola e ego em formação.
Chegamos, e o cenário já estava armado; havia crianças correndo sem direção tática alguma, jovens tentando parecer profissionais e alguns veteranos fingindo que o joelho ainda responde aos comandos do cérebro. Eu e meu filho começamos a brincar, trocando passes despretensiosos, enquanto ele, com os olhos brilhando, perguntou se apareceríamos na TV. Para ele, aquelas linhas brancas e a iluminação simples já eram suficientes para transformar o campinho em um estádio internacional. A imaginação infantil, felizmente, ainda não conhece orçamento público.
Joguei algumas partidas. Confesso que aproveitei a oportunidade para exibir uma versão levemente romantizada da minha habilidade futebolística. Meu filho, do lado de fora, vibrava a cada toque na bola como se estivesse assistindo a uma final de Copa do Mundo, e não a um pai tentando não passar vergonha diante de adolescentes impiedosos. Foi, sem dúvida, um momento genuinamente feliz.
Ao sairmos, decidimos esticar o passeio até a praia. A ideia era simples: prolongar a sensação de leveza. Mas a realidade, como costuma acontecer, resolveu dar sua opinião.
Alguns dos meninos que jogaram conosco seguiram na mesma direção. Foi então que avistei três rapazes, daqueles cuja expressão parece carregar um currículo criminal invisível. Estavam fumando algo que definitivamente não constava na lista de substâncias recreativas legais. Entre uma tragada e outra, provocavam os garotos.
E aqui entra um detalhe importante sobre mim: tenho uma tendência incômoda e pouco prática de não tolerar injustiças com a elegância passiva que a vida adulta exige. Talvez seja traço do meu autismo, talvez resquício do TDAH, ou talvez apenas um defeito de fábrica, visto que meu cérebro não negocia bem com incoerências morais. Então, sem muito cálculo estratégico, ou nenhum, disse:
— Ô, rapaziada, deixa os meninos em paz e vão fumar isso na casa de vocês!
Silêncio breve. Daqueles que antecedem tanto o bom senso quanto a tragédia.
Um dos garotos veio rapidamente até mim, em tom quase suplicante:
— Tá de boa, professor… deixa quieto. Esses caras são pesados. Não mexe com eles.
Olhei para meu filho. Naquele instante, a coragem encontrou a responsabilidade e, como costuma acontecer, a segunda venceu. Decidi abortar o passeio. Não por concordar, mas por entender o custo de insistir.
Voltamos.
No caminho, minha mente fez o que sabe fazer de melhor: conectou o episódio a uma variante maior de indignações. Lembrei-me de um caso em Angra dos Reis, onde o policial civil Elber Fares foi assassinado ao sair de uma igreja, diante do próprio filho. As imagens frias, objetivas, quase burocráticas mostravam o desespero do menino tentando puxar o corpo do pai. Uma cena que nenhum argumento jurídico consegue suavizar.
— Pai, aqueles tios eram do mal?
A pergunta me puxou de volta. Mas, antes de responder, outra lembrança se impôs. Lembrei de um acontecimento mais recente em Duque de Caxias, onde o policial militar Alex Dias da Silva foi morto a tiros. O filho, testemunha da execução, reagiu, pegou a arma do pai e atirou contra os criminosos. Resultado? Preso. A justificativa foi o perigo à sociedade. Os assassinos? Soltos.
Há ironias que não precisam de esforço literário.
Já estávamos em frente de casa quando veio a segunda pergunta:
— Pai, por que existem pessoas do mal?
Respirei. Não era uma pergunta infantil. Era uma pergunta estrutural. Respondi:
— Porque, meu filho, a maioria das pessoas boas decide não fazer nada.
A frase ecoa o pensamento atribuído a Edmund Burke: “Para que o mal triunfe, basta que os bons não façam nada.” Uma ideia simples, quase óbvia e, ainda assim, sistematicamente ignorada na prática.
Mas há um dilema que me inquieta: como agir quando o próprio sistema parece desestimular a ação? Quando decisões judiciais, aos olhos do cidadão comum, parecem inverter a lógica entre vítima e agressor?
Nesses momentos, lembro-me de Albert Camus e de sua obra A Peste. Na cidade de Orã, o mal começa pequeno, quase invisível e cresce justamente porque muitos preferem não se envolver. A omissão, ali, não é neutra: é combustível.
Se estamos vivendo algo semelhante, ainda que em escala e forma diferentes, resta uma escolha pessoal. Prefiro me alinhar ao Dr. Rieux, protagonista do livro, não por heroísmo, mas por coerência. Ele luta contra o mal não porque acredita na vitória, mas porque entende que é o único comportamento moralmente aceitável. E talvez seja esse o ponto mais desconfortável de todos:
Não é sobre vencer. É sobre não se tornar cúmplice pelo silêncio.
Meu filho me olhou e disse:
— Pai, você é do bem, né?
Peguei-o no colo e fomos brincar no pátio de casa.
Publicado em 30/04/2026 - por Daniel Camargo Thomaz