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A magia dos Fordinhos

Uma volta no tempo: alguns modelos impecáveis dos anos 1930 estarão disponíveis à visitação no encontro de carros antigos na Pedra Branca

84e341b90dba5ae31034e695a2364126.JPG Foto: LUCIANO SMANIOTO

Uma das atrações do 9º Encontro de Veículos Antigos da Grande Florianópolis e do 22º Encontro do Veteran Car Club de Florianópolis, que acontecerão simultaneamente entre os dias 13 e 15 de abril, na Pedra Branca, serão os chamados “Fordinhos” – veículos da Ford, em especial os Modelos A, fabricados entre 1927 e 1932.

Basta avistar um desses carros, mesmo em uma garagem, para entender por que atraem tantos apaixonados por veículos antigos. E a oportunidade de conversar com os membros do Veteran Car Club, fundado em 1986, é ao mesmo tempo uma aula de história e um exemplo de dedicação aos detalhes.

Encontramos alguns desses colecionadores na garagem mantida caprichosamente pelo comandante Müller, na região continental da Capital. O próprio comandante, que tem 73 anos e durante 38 anos foi aviador comercial, possui dois Fordinhos, ano 1929. O primeiro foi comprado em 1966. Encomendado originalmente por um pastor batista, o carro veio dos Estados Unidos de navio, e foi descarregado na Baía da Babitonga, no Norte do estado. Mais tarde, o pastor acabou dando o carro para um morador de Florianópolis, que o vendeu para o comandante em 1966, por 1,5 mil dólares.

O outro carro, ele mesmo montou. “Esse aqui só teve um dono, porque fui eu que fiz. Montei este carro sozinho, na minha casa”, revela o colecionador, que entrou para o Veteran por volta de 2004. O comandante revela que levou 14 anos para concluir a montagem do carro. Todos os detalhes foram cuidadosamente observados, conforme constava no manual de fabricação, para que o automóvel ficasse exatamente igual ao original. O detalhismo impressiona. Parafusos de aço inoxidável, porcas de calota, tapetes, espelhos, tudo pode passar despercebido aos olhos leigos, já suficientemente maravilhados com o “conjunto da obra”, um carro antigo que brilha como novo e tem um design que cheira a história. Mas para um colecionador de respeito, esses detalhes fazem toda a diferença. “Isso aqui, por exemplo, chama-se unha, e ninguém sabe”, explica o comandante, apontando para uma pequena peça metálica.

Diante de tamanha excelência na recriação e na conservação de um modelo original de um Ford de 1929, não é de estranhar que cada pessoa que passava pela rua naquele momento em que a garagem estava aberta, e os carros, expostos, pedia licença para entrar e saborear por um breve momento os encantos daquele relicário quase mágico. A rigor, é a única oportunidade para vislumbrar os carros do comandante Müller, porque ele não costuma desfilar com eles nas ruas, tampouco os leva aos encontros. Seria uma grata – e enriquecedora – surpresa se os dois Fordinhos azuis aparecessem entre os carros expostos no encontro na Pedra Branca!

Lá, ele faria perfeita companhia a outros Fordinhos dos colecionadores do Veteran Car Club. Como o Cabriolet 1932 do seu Walter, um simpático – e impressionantemente ativo – senhor de “80 e muitos anos”. Ele não revela a idade, mas conta com orgulho do ano em que comprou seu primeiro Fordinho (hoje já tem outro, ainda mais antigo, ano 1930). Foi em 1986, estimulado pela criação do Veteran Car Club. O automóvel foi originalmente comprado por um funcionário do Banco do Brasil em Joinville, em 1932, e também veio dos Estados Unidos de navio e desembarcou no Porto de Paranaguá. O carro rodou em Joinville até ser vendido e ir parar em São Bento do Sul, onde começou a participar de “corridas de calhambeque”.

Seu último destino antes das mãos zelosas de seu Walter foi um galpão em Jaraguá do Sul, onde o colecionador foi resgatá-lo. Estava abandonado e havia virado “casa de galinhas”. A primeira providência do novo dono foi oferecer à relíquia um belo de um banho! Aí iniciou o minucioso trabalho de restauração, e o resultado é impecável. O Cabriolet bege de seu Walter é hoje o único 4 cilindros de Santa Catarina. “É tudo original, tudo como era na época, não tem nada diferente”, comenta o proprietário.

A riqueza de detalhes é um bálsamo até para os espectadores mais exigentes. Até um baú na parte de trás estampa o prestigiado selo: “Official Licensed Product - Ford Motor Company”, ou seja, “Produto Oficial Licenciado pela Ford Motor Company”. À frente do baú, uma peculiaridade: o “banco da sogra”. “Este porta-malas tu nunca viu”, diverte-se seu Walter, enquanto abre uma portinhola e revela o “banco da sogra”. “Na frente, ia o marido a mulher e o bebê; e aqui atrás iam o sogro e a sogra”, detalha.

Outra curiosidade envolve o Cabriolet 1932: era o carro usado pela famosa dupla de foras da lei dos Estados Unidos Bonnie e Clyde, que aterrorizaram as autoridades nos anos 1930. Bonnie Parker e seu namorado Clyde Barrow cometeram inúmeros assaltos pelo interior norte-americano até serem mortos pela polícia em 1934. Mas não foi fácil pegá-los. Com um motor de 50 cavalos, aquele modelo de carro era mais potente do que os outros veículos da época, que tinham no máximo 30 cavalos de potência (inclusive os da polícia), e isso facilitava as fugas. Seu Walter assistiu a um filme que contava a história do famoso casal de assaltantes e logo reconheceu seu carro. Ficou tão maravilhado com aquilo que mandou buscar um material impresso nos Estados Unidos contando a história de Bonnie, Clyde e o Cabriolet 1932.

Uma história a mais para chamar a atenção para o Fordinho do seu Walter – como se precisasse: onde quer que ele ande com seu carro antigo, uma legião de curiosos aparece para acenar, tirar fotos e pronunciar elogios. É destaque até nos desfiles de Sete de Setembro! Para os palhocenses, a identificação é ainda maior: a placa preta do carro é de Palhoça. É que seu Walter morou durante cerca de 15 anos no município, onde mantinha uma academia e dava aulas de artes marciais. Muito provavelmente por isso esteja em uma forma física tão invejável para quem caminha rumo aos 90 anos de vida. Cuida da própria saúde com o mesmo esmero com que cuida das joias de quatro rodas.

E ainda dirige seus Fordinhos por aí. O que não é tarefa fácil. São carros manhosos. “Você não pode pegar um carro antigo e imprimir a mesma rotina que você tem num carro atual. Você tem quase que aprender a sentir o carro e respeitar suas particularidades”, explica o professor universitário Antônio Augusto Ulson de Souza, do curso de Engenharia Química da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O freio do seu Town Sedan ano 1931, por exemplo, é “a varão”, muito rudimentar em relação aos sistemas modernos de frenagem. “Você tem que saber o tempo do carro para poder fazer com que a tua administração de velocidade ocorra 100%”, ensina.

E o carro do Prof. Augusto tem mais uma peculiaridade para complicar a dirigibilidade: como o veículo originalmente veio da Inglaterra, a direção fica do lado invertido. O professor comprou o Town Sedan em Campinas (SP), há 10 anos, e levou quatro anos para reformá-lo. “É meu primeiro e único. As peças são todas importadas, então é muito difícil”, comenta. “Quando peguei ele, era tudo original, mas tinha muito o que fazer, por causa do desgaste das peças”, justifica. O colecionador desmontou todas as peças (inclusive abriu o motor inteirinho), comprou um catálogo de peças da loja de departamentos Macy’s, estudou as engrenagens e foi trocando tudo, até chegar ao estágio atual, um carro impecável.

Um dos momentos complicados da restauração foi encontrar quem entendesse de madeira, porque o carro tem 200kg de madeira. Optou pela garapeira, uma madeira amarela, com alta resistência à umidade e com rejeição ao cupim.
O professor Augusto diz que sempre foi apaixonado pelos Fordinhos, desde criança, e tinha uma meta: “Um dia vou comprar um, vou restaurar e deixar exatamente igual a pegar um na loja na época”. Sonho realizado a cada acelerada. “Tenho uma verdadeira paixão pelo ronco do carro. É um coração batendo. Isso faz com que a pessoa se apaixone pela vibração que o carro tem”, expressa.

Os Fordinhos do seu Walter e do professor Augusto estarão no encontro de carros antigos da Pedra Branca – com muita sorte, quem sabe, acompanhados pelos carros do comandante Müller. E os apaixonados por história, por um bom papo e pelas preciosidades em quatro rodas terão a oportunidade de interagir com eles em Palhoça entre os dias 13 e 15 de abril.

 

 

Encontro de Veículos Antigos

Além de ter várias bandas e centenas de carros em exposição, o 9º Encontro de Veículos Antigos da Grande Florianópolis promete ser um sucesso também na área gastronômica.

Em uma parceria do jornal Palhocense, Veteran Car Club de Florianópolis e Acip, através do Núcleo Gastronômico, foram selecionados vários food trucks que estarão no evento com muitas delícias.

Esse delicioso evento acontece nos dias 13, 14 e 15 de abril, no Passeio Pedra Branca. O Food Park estará aberto no sábado e no domingo, a partir das 11h.

 

Operações confirmadas

Don taco tex-mex
Monareta Food Bike
Sunset Gourmet
Cometa Food Truck
Dega Food Truck
DLM Food Truck
Capitão Sorvetes
Mansão Luchi



Galeria de fotos: 9 fotos
Créditos: LUCIANO SMANIOTO LUCIANO SMANIOTO LUCIANO SMANIOTO LUCIANO SMANIOTO LUCIANO SMANIOTO LUCIANO SMANIOTO LUCIANO SMANIOTO LUCIANO SMANIOTO LUCIANO SMANIOTO
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