
Cântico à velha Palhoça
Vivo a lembrar minha infância
Em Palhoça, nasci e me criei
É o melhor lugar do mundo
Dela muitas histórias contei
Ainda que eu viva cem anos
Vou gastá-los só contando
As muitas histórias que sei.
Os carros motorizados
Contava-se nos dedos da mão
Alguns veículos pequenos
E uma dezena de caminhão
Que desbravavam picadas
E iam abrindo as estradas
Dando vazão à produção.
Aos domingos de manhã
A mesma cena se repete:
Íamos à missa na Matriz
Assistir à missa das sete.
A criançada fazia graça
Ao desembarcar na Praça
De carroça ou de charrete.
Depois de assistir à missa
Os homens iam beber “tatuzinho”
Mas papai pedia uma média
E para nós, uns biscoitinhos.
Acabava-se o jejum da exaltação
Imposta pela comunhão
Lá no bar do seu Dorinho.
Então, íamos para o jardim
Que cheirava a alfazema
Ver o Tavinho e o Ireno
Alheios a todo o sistema.
Dois cidadãos de quilate
O Ireno, “grande engraxate”
O Tavinho, “dono do cinema”.
Enquanto no jardim corríamos
Atropelando os pedestres
Éramos observados de perto
Por entre os pés de ciprestes.
Era o seu Flor e o seu Néca
Que mesmo recebendo merreca
Em jardinagem eram mestres.
E caminhando pelo Centro
Já com pressa nessa altura
Papai ia comprar remédio
Pra dor de cabeça e gastura.
Entrava na Farmácia do Chico
Que receitava “salamoníaco”
E comprimidos de Alicura.
Sentado no banco da Praça
Via-se o Coca passar
Com uma carroça de lenha
Para em Florianópolis entregar.
Orgulhoso com seu ganho
Instigava o cavalo Zanho
Para mais rápido lá chegar.
Era na rua do Mercado
Que batíamos fotografia
O Gedalvo fotografava
A Palhoça do dia a dia.
Fosse foto três por quatro
Ou da família um retrato
Era ele quem batia.
Foi o Colégio Ivo Silveira
Que uma educação me deu
Entre tantos mestres queridos
Dona Cléia e seu Amadeu.
Outro mestre de valor
Foi seu Febrônio, o diretor
Que linda história escreveu.
Nas quartas e fim de semana
A diversão não era problema
Entre o Cine Pax e o Cine Sharf
O filme a escolher era o dilema.
Para não dormir de touca
Íamos beijar na boca
No escurinho do cinema.
Domingo à noite era sagrado
Obedecíamos ao mesmo cântico
Todos os caminhos nos levavam
Pra Barra, no Clube Atlântico.
Correndo o risco de apanhar
Se com uma moça namorar
E com ela não ser romântico.
Na política, a barra era pesada
A oposição não se criava
Enfrentar a tropa de choque
Bem pouca gente enfrentava.
Palhoça tinha um senhor
Como tinha sido governador
Era doutor Ivo quem mandava.
O progresso foi chegando
Foram abrindo loteamentos
Prédios aqui foram erguidos
E muitos jardins de cimento
A cidade viu, surpresa
A devastação da natureza
E muitos alagamentos.
Anunciaram muitos jardins
Mas inverteram os valores
Eucaliptos, Aquárius, Eldorado
Plantavam gente, não flores
Sem preocupação com o futuro
O que era um porto seguro
Virou um jardim de horrores.
O manguezal foi invadido
Um santuário a se acabar
Uma cerca morta de prédios
Não o deixa mais respirar
Com rios e córregos aterrados
Deixamos o mangue isolado
As águas não chegam ao mar.
Hoje, procuro na Praça Sete
O sorriso de dona Vergulina
Seu Ari Silveira com seu carro
Sem tirar a mão da buzina
Procuro os velhos cinemas
O cheiro bom de alfazema
O velho telégrafo da esquina.
Procuro a loja do Casemiro
O seu Zequinha e a padaria
A casa da Professora Isaura
Onde “roubar” goiaba eu ia
Procuro o Campo do Isoladão
Onde sem camisa e só de calção
A moçada da Praça se divertia.
Hoje não a reconheço mais
Rostos são todos estranhos
Nos acotovelamos na Praça
Numa desorganização sem tamanho
Às vezes me refugio na roça
Fugindo desta Nova Palhoça
Como gado sem rebanho.
Nestes teus 132 anos
Desejo-te paz e felicidade
Que os valores do passado
Voltem a fazer parte da realidade
E que Deus pra sempre possa
Abençoar esta “Nova Palhoça”
E que da “Velha” eu não morra de saudade.
Publicado em 23/04/2026 - por Beltrano