
Lolita saiu da literatura, o intolerável ganha rodapé acadêmico
Imagine um mundo em que especialistas discutem, com a serenidade de quem debate a classificação de borboletas, a possibilidade de incluir pedófilos como mais um “gênero” no vasto catálogo das identidades sexuais. Um mundo em que a palavra “complexidade” funciona como detergente moral, diluindo, suavizando, neutralizando.
Já imaginaram esse mundo? Ele existe e esse debate está acontecendo agora!
Agradeço, pois a cena me encontra sempre na minha trincheira favorita; uma poltrona, uma estante carregada, livros empilhados em ordem que só eu compreendo (ou que finjo compreender). O ambiente é silencioso, mas não pacífico, um café amargo e uma barra de chocolate. Há algo de inquietante quando a teoria começa a se aproximar demais da prática. Entre um café forte e outro, folheio romances distópicos com a incômoda sensação de que eles deixaram de ser ficção científica para se tornarem crônicas do noticiário.
Recordo-me de que uma discussão semelhante acontecia com naturalidade perturbadora antes das “leis que impunham ordem” no romance de Aldous Huxley. Naquele universo, crianças são estimuladas, desde cedo, a atividades sexuais como parte da “educação”. Nada de escândalo. Tudo científico. Tudo higienizado pelo discurso técnico.
Mas ali não se trata de libertação. Trata-se de desumanização.
O Estado, naquela ficção, não deseja afetos profundos. Vínculos familiares são perigosos. Intimidade real é subversiva. Autonomia emocional é quase um crime contra a estabilidade coletiva. A sexualidade precoce não é emancipação; é engenharia social. Uma sociedade sem laços é uma sociedade dócil.
Fecho o livro e penso; será ficção? Ou um manual em fase experimental?
O desconforto aumenta quando a discussão deixa de ser literária. O ano de 2026 mal começou e já nos deparamos com decisões judiciais que parecem saídas de um laboratório sociológico. Uma vez que a Justiça de Minas Gerais absolveu um homem de 35 anos acusado de estupro de vulnerável contra uma menina de 12 anos. O desembargador relator, Magid Nauef Láuar, entendeu que havia um “vínculo afetivo consensual” entre réu e vítima, revertendo a sentença de primeira instância que o condenara a nove anos e quatro meses de prisão.
Grito sem abrir os lábios: “vínculo afetivo consensual?!” A expressão é elegante. Quase poética. Cabe bem em artigos acadêmicos. O problema é quando começa a caber em decisões que envolvem uma criança de 12 anos.
E aqui meu estado psicológico oscila entre o espanto e o sarcasmo. Talvez eu seja antiquado. Talvez ainda acredite que maturidade não se presume pela retórica de um adulto. Talvez eu tenha perdido o último seminário onde redefiniram a palavra “vulnerável”.
Mas não é só Huxley que me vem à mente. Recordo também de Vladimir Nabokov e seu perturbador Humbert Humbert.
Em Lolita, temos um narrador culto, eloquente, sofisticado — desses que poderiam facilmente dar aula em universidade. Ele seduz o leitor antes de seduzir a vítima. Justifica-se. Sofistica o crime. E, com habilidade literária, tenta inverter a culpa.
O recurso é antigo: vestir o desejo com vocabulário erudito. Transformar transgressão em estética. Converter abuso em narrativa de amor impossível.
A literatura nos alerta. O problema começa quando a sociedade começa a achar o narrador convincente demais.
E aos que acreditam que tais debates são delírios marginais, lembro que, na França de 1977 e 1979, nomes consagrados do pensamento contemporâneo circularam abaixo-assinados pedindo revisão de leis que criminalizavam relações sexuais entre adultos e menores de 15 anos. Entre eles estavam os famosos Michel Foucault, Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre. Sim, os mesmos frequentemente citados em teses, dissertações e artigos científicos universitários. A mesma tríade que muitos repetem com reverência quase litúrgica ou até mesmo dogmática.
É desconfortável lembrar disso. Afinal, preferimos a versão higienizada dos ícones intelectuais. Mas a história é menos dócil do que as citações de rodapé. Vivemos, por vezes, a sensação de que a sociedade caminha sonâmbula para uma espécie de distopia sofisticada — não aquela imposta por botas militares, mas por discursos polidos, decisões técnicas e termos cuidadosamente escolhidos.
Os guardiões da Constituição parecem, às vezes, habitar um universo paralelo onde palavras redefinem realidades biológicas. Onde “consentimento” pode ser sugerido a quem ainda não completou sequer o próprio desenvolvimento emocional.
E então me pergunto:
— Será que estamos exagerando?
Ou será que aprendemos a chamar erosão moral de “debate acadêmico”?
Bom, talvez eu esteja apenas preso aos meus livros, desconfiado demais, irritado demais. Quem sabe enlouquecendo como Don Quixote, mergulhando em demasia na análise literária. Mas algo me diz que, quando a ficção começa a parecer moderada diante da realidade, não é o romance que está radical.
É o mundo que perdeu o senso do aceitável.
Publicado em 26/02/2026 - por Daniel Camargo Thomaz