
Quando o abandono vira rotina: a portinha que meu filho não viu
Nesta sexta-feira, fomos, eu, minha esposa e meu filho, até um dos bairros com a maior densidade de famílias em situação de vulnerabilidade. Precisávamos entregar a cesta de Páscoa organizada pelo nosso Centro Espírita, uma iniciativa criada para arrecadar fundos destinados à manutenção da Casa de Caridade. Para isso, contamos com a ajuda de uma de nossas parceiras, uma seareira ativa e profundamente comprometida com a comunidade, que nos indicou o local exato onde deveríamos ir.
Seguimos juntos para visitar a família escolhida e, no caminho, percebemos situações que nos obrigam a refletir sobre quem somos enquanto sociedade ou, talvez, enquanto seres humanos.
Ao chegarmos à entrada da comunidade, fomos advertidos de que seria obrigatório manter os vidros do carro abertos e dirigir muito devagar. Havia uma espécie de “regulamentação” informal, imposta por aqueles que decidem quem pode ou não entrar. Mesmo com meu hiperfoco em questões sociais e no controle que facções exercem sobre territórios vulneráveis, respirei fundo. Eu sabia por que estava ali e o desejo era levar esperança às crianças, incentivando-as a acreditar na possibilidade de um mundo melhor.
Andamos alguns metros até que se tornou impossível continuar de carro. Descemos e seguimos a pé, num clima de alegria e expectativa. Meu filho estava radiante, pois havia separado alguns brinquedos para doar e, após poucos passos, perguntou:
— Pai, eu posso brincar com elas quando elas pegarem os brinquedos?
Para ele, era apenas mais um dia, mais amigos, mais brincadeiras. Para nós, era a chance de colocar em prática aquilo que tanto incentivamos nas palestras do Centro Espírita: a caridade.
O caminho, no entanto, apesar de parecer fascinante aos olhos do meu filho, era quase um paradoxo. Pessoas bebiam em frente às casas, algumas dançavam, enquanto crianças corriam sem supervisão de um lado para o outro. O chão estava tomado por lixo. Eram fraldas abertas, sapatos velhos, copos plásticos amassados, garrafas de refrigerante de todas as marcas, além de entulhos espalhados por toda parte. A música alta, misturada às risadas e cantorias, criava uma antítese perturbadora, uma espécie de festa construída sobre ruínas, lama e sombras.
Continuamos caminhando até sermos recebidos pela família com quem já havíamos conversado por WhatsApp. Ao entrar no pátio, vimos crianças que nos observavam com um brilho de esperança nos olhos, enquanto os pais nos olhavam com desconfiança. O espaço era pequeno, tomado por sujeira, e meu filho, com seus cinco anos, só pensava em brincar.
Logo na entrada, um bebê de dois meses, coberto de moscas, estava sozinho em um carrinho. Assim que nos aproximamos, a menina de dez anos o pegou no colo, como se já estivesse acostumada a assumir responsabilidades que não deveriam ser suas.
A recepção foi fria, mas estávamos ali pelas crianças, desejávamos oferecer um pouco de esperança e a vontade sincera de ajudar. A casa não tinha luz elétrica, nem água, nem banheiro. Se não fosse trágico, a situação lembraria a música que diz: “não tinha teto, não tinha nada, ninguém podia fazer xixi, porque penico não tinha ali”.
Ali, de fato, as necessidades eram feitas em baldes, e o banho parecia ser um luxo distante.
Respiramos fundo, abraçamos as crianças e entregamos a cesta de Páscoa. Antes disso, perguntei se sabiam ler e ofereci um dos meus livros, “Caco em Busca da Felicidade”, para que tivessem acesso a um pouco de boa literatura. A menina de dez anos pegou o livro e começou a ler imediatamente. As crianças sorriam com uma alegria indescritível. Meu filho sentou-se no chão, ao lado de restos de comida, copos plásticos e moscas e brincou com elas como se nada daquilo importasse. E, para as crianças, realmente não importava. Abriram a cesta, comeram bolachas de Páscoa e brincaram enquanto conversávamos com os pais.
Depois de algum tempo, agradecemos a hospitalidade e nos despedimos. Enquanto caminhávamos de volta ao carro, lembrei da conversa com o patriarca da família. Ele me disse:
— Sabe, eu queria poder ter um negócio, ganhar meu dinheiro e sustentar melhor minha família, mas tudo é tão caro...
Recordei a pesquisa “Sonhos da Favela 2026”, realizada pelo Data Favela, que revela que 38% dos moradores desejam ter um negócio próprio. Olhei ao redor e vi que a festa continuava. Todos dançavam, bebiam e cantavam. Talvez o álcool entorpecesse a tristeza, mas será que não poderia ser diferente? No caminho de volta para casa, meu filho perguntou:
— Pai, a casa deles não tinha cama. Onde eles dormem?
Pensei por um instante e respondi que o quarto ficava ao lado, numa portinha que ele não tinha visto. Ele retrucou:
— Ué, mas do lado tinha outra casinha com pessoas dançando. Ali era o quarto?
Mudei de assunto, mas saí de lá com uma lembrança incômoda. Em minhas leituras, nos grandes clássicos, a miséria nunca é apenas cenário, ela é o teste definitivo do que chamamos de civilização. Em Os Miseráveis, um único gesto de misericórdia é capaz de reabrir uma vida ao futuro. Talvez essa seja a parte mais dura do nosso tempo, que é perceber que o contrário da caridade não é a falta de dinheiro, mas a naturalização do abandono.
Se um simples encontro pode devolver dignidade a alguém, então também é verdade que um país inteiro pode escolher não “mudar de assunto” quando olha para suas crianças. Mas até quando seguiremos desviando o olhar? Até quando aceitaremos que, no Brasil, estruturas políticas e econômicas desperdiçam recursos que nós financiamos? Até quando acreditaremos em discursos populistas que não resolvem o essencial?
Publicado em 10/04/2026 - por Daniel Camargo Thomaz