
Depois do adeus, o amor permanece
Cheguei em casa na sexta-feira com a sensação de que algo estava faltando. E, de certa forma, estava mesmo — embora meu pai não morasse comigo, o vazio era tão presente que parecia gritar em cada canto da casa. Nada fazia muito sentido. Havia um silêncio estranho, não aquele silêncio comum de uma tarde qualquer, mas um silêncio que pesa, que oprime, que parece carregar ausências.
Acordei depois de uma noite repleta de pesadelos e sonhos que beiravam o transcendental. Ainda atordoado, tentei retomar a rotina. Passei o café, pois o vício não se limita aos dias de trabalho. Na maioria das vezes, o café — ou o mate amargo — são as companhias mais fiéis: não opinam, não julgam, apenas ouvem em silêncio.
Fui até o pátio. A vida continua, dizem. E, de certo modo, continua mesmo, porque as britas estavam cobertas de folhas, o canil precisava ser limpo e a Mel, nossa cachorrinha fofa e destruidora oficial de móveis e sapatos, merecia um espaço digno. A cada passo, eu tentava convencer a mim mesmo de que tudo seguiria seu curso natural.
Mas então, ao olhar para a parede do quintal, onde meses antes meu pai rolava no chão com meu filho como se fosse um adolescente, rindo e dizendo em alto e bom som:
— “Quem é o queridão do vovô?”
...as lágrimas vieram sem que eu pudesse conter. Pensei que já não houvesse mais lágrimas para chorar. Engano. O choro se tornou um visitante constante, daqueles que não pedem licença para entrar.
Esfreguei os olhos e tentei me recompor. Precisava terminar o serviço. Fui encher o balde com desinfetante para limpar o canil. Mas aí, como uma projeção viva da memória, vi meu pai novamente. Lá estava ele, como um holograma afetivo, chutando a bola para o Thales, vestindo com orgulho a camisa do Grêmio que o vovô havia presenteado. Os dois corriam, braços abertos, imitando aviões, comemorando um gol que só os netos e os avôs sabem celebrar.
Será que essa saudade não vai dar trégua? Tudo — absolutamente tudo — fazia lembrar as visitas de verão, quando vinham comemorar meu aniversário e o do Thales, que acontecem com um mês e poucos dias de diferença. Era uma tradição silenciosa, mas profundamente significativa.
Terminei as tarefas e decidi honrar um dos maiores legados que meu pai deixou: o cuidado com a saúde. Aos 78 anos, ele fazia exercícios físicos diariamente. Sempre me inspirou. Fui até a garagem, pulei corda, levantei pesos, simulei corrida no step. Fazia tudo quase no automático, mas com o coração pesado. Sentia falta daquela ligação de vídeo no meio dos exercícios — um hábito nosso. Era o momento em que eu mostrava, orgulhoso, que seu filho de 51 anos seguia seus passos, que estava cuidando do corpo como ele ensinou.
Mas agora, não haveria mais ligação. Nem no sábado, nem nunca mais.
Chorei novamente. Um choro calado, profundo, um choro que nasce do fundo da alma. Desses que não precisam de som para doer.
E por isso escrevo. Para mim, para quem me lê, para quem já perdeu ou teme perder alguém que é extremamente caro.
Pois a vida física se apaga com um simples sopro. O convívio, as palavras, o carinho que deixamos de oferecer aos que amamos... tudo isso pode se transformar em arrependimento se deixarmos para depois.
Ame hoje. Perdoe agora. Diga o que precisa ser dito enquanto há tempo. Porque todos erramos, todos ferimos em algum momento, mas todos também desejamos o perdão. E, acima de tudo, todos desejamos ser amados.
Aproveite cada oportunidade da vida física como se fosse a última — porque um dia será.
Publicado em 19/03/2026 - por Daniel Camargo Thomaz