
Manual breve da incoerência adulta
Era domingo, esse curioso intervalo semanal em que a vida parece nos conceder uma trégua, ainda que breve, do implacável cotidiano. Eu brincava com meu filho, consciente, talvez até excessivamente consciente, de que certos momentos são irrepetíveis. Há instantes que passam como um sopro e, quando percebemos, já pertencem ao território da memória, esse lugar onde tudo é mais bonito e, ironicamente, inalcançável.
Após o almoço, rompemos com a tradição quase sagrada da “sesta dominical”, geralmente estendida até as quinze horas, como se o tempo, obediente, também resolvesse cochilar conosco. Em vez disso, levantamo-nos da mesa e partimos para uma missão científica, ao menos aos olhos de uma criança de cinco anos, fomos catar jornais e papéis velhos para criar miniaturas dos planetas do sistema solar.
Confesso que para alguns e, em certos momentos, para mim mesmo a atividade poderia parecer entediante, até cansativa. Mas havia ali um detalhe que subvertia qualquer argumento racional, pois meu filho teria cinco anos apenas uma vez. E, mais raro ainda, desejaria construir planetas de papel comigo pouquíssimas vezes na vida. Era, portanto, uma oportunidade que não admitia adiamento.
Saímos empolgados. O quintal, aquecido pelo sol preguiçoso da tarde, transformou-se em nosso laboratório improvisado. Recortes de jornal espalhavam-se pelo chão, a cola exalava seu cheiro característico, e pequenas mãos, ainda desajeitadas, moldavam esferas que, em nossa imaginação, rivalizavam com a grandiosidade do universo. Após algum tempo, concluímos a tarefa inicial e as miniaturas estavam prontas, mas dependiam agora de algo mais poderoso do que nossa vontade, o tempo de secagem.
Colocamos todos os planetinhas ao sol, inclusive o nosso “Sol”, que, ironicamente, precisava de ajuda para cumprir sua função. E assim, diante daquele sistema solar em miniatura, suspenso entre a fragilidade do papel e a grandiosidade da ideia, fomos obrigados a fazer uma pausa.
Foi nesse hiato, sempre perigosos esses intervalos vazios, que cometi um erro estratégico e decidi acessar uma plataforma de notícias.
— Não sei por que insisto nessas ideias absurdas de tentar me manter informado neste país levemente... desorganizado — murmurei, já antecipando o desgaste.
A primeira manchete surgiu diante de mim como um convite ao desalento:
“STF barra prorrogação da CPMI do INSS e devolve decisão ao Congresso.”
Fiquei perplexo. Milhões de reais desviados de aposentados, pessoas que já pagaram, com juros e correção moral, o preço de uma vida inteira de trabalho e, ainda assim, a investigação parecia tropeçar em obstáculos curiosamente bem posicionados. Um roubo dessa magnitude exigiria rigor, transparência e continuidade investigativa. Ou, ao menos, seria o que se esperaria em um universo minimamente lógico.
Movido por uma mistura de indignação e teimosia, combinação perigosa, continuei minha “investigação” em outros portais. E então encontrei algo que não apenas me intrigou, mas me arrepiou:
“Parlamentares do PT e de partidos do Centrão atuaram em conjunto para chegar a um acordo que resultasse no fim da CPI do INSS nesta semana.”
Pensei que já era o suficiente, mas o roteiro parecia determinado a superar a si mesmo:
“Governo atribui a Bolsonaro consolidação de fraudes no INSS em voto paralelo da CPMI.”
Nesse ponto, a lógica, essa velha senhora exigente, já havia se retirado discretamente da sala. Imagino que qualquer leitor minimamente atento compreenderia minha crescente irritação. Havia ali uma incoerência argumentativa digna de severo desconto em qualquer redação dissertativa e eu digo isso com a autoridade de quem já corrigiu muitas. Como é possível, afinal, responsabilizar gestões anteriores e, simultaneamente, criar um ambiente hostil à continuidade das investigações? Ou eu havia me tornado intelectualmente limitado, ou as narrativas, de fato, não se sustentavam. Confesso que considerei, por um breve e humilde instante, a primeira hipótese.
Foi então que um grito, vindo de uma distância que só a imaginação infantil é capaz de criar, rompeu minha espiral de análise:
— Paaaaiiiii! Já secaram os nossos planetas?
Voltei o olhar para meu filho, que me observava com a impaciência típica de quem ainda acredita que o tempo deveria obedecer aos nossos desejos.
— Ainda não — respondi, tentando equilibrar frustração e ternura.
Mas, como todo adulto moderno bem treinado na arte da autossabotagem, voltei à tela e outra notícia me aguardava:
“A CPI do INSS encerrou seus trabalhos com um relatório de 4.340 páginas e um pedido de indiciamento de 216 pessoas. Entre elas estão Lulinha, filho do presidente Lula, e o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.”
Nesse momento, fechei a aba do navegador. Não por resolução, mas por exaustão intelectual. Levantei os olhos e os direcionei à estante de minha biblioteca pessoal, visto que a considero um refúgio silencioso onde autores de séculos passados continuam tentando, com admirável insistência, explicar os mesmos vícios humanos. Orgulho, ganância, sede de poder... características que são verdadeiras patologias da humanidade.
Lembrei-me de As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, onde já se percebia que, quando os homens se organizam em torno do poder, a lógica costuma ser a primeira a pedir licença e raramente retorna.
Logo depois, minha atenção recaiu sobre Elogio da Loucura, de Erasmo de Rotterdam. E então me ocorreu que talvez Erasmo estivesse absolutamente correto ao delegar à Loucura a tarefa de explicar o mundo afinal, só ela parece capaz de justificar discursos que se anulam com a tranquilidade de quem nunca foi apresentado ao conceito de contradição.
Foi nesse instante que senti um leve puxão na camiseta. Era o meu filho.
Ali, diante de mim, não havia incoerência, nem disputas narrativas, nem jogos de poder. Havia apenas um pequeno ser humano, em formação, esperando algo infinitamente mais relevante do que minhas análises políticas: presença.
Percebi, então, com a clareza que só os momentos simples proporcionam, que meu verdadeiro campo de atuação não estava nas manchetes, mas naquele quintal ensolarado.
Levantei-me e fomos, juntos, terminar nosso pequeno sistema solar; frágil, imperfeito, mas, ao menos, coerente. E, naquele universo de papel, tudo finalmente fazia sentido.
Publicado em 03/04/2026 - por Daniel Camargo Thomaz