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Beltrano - Edição 794

Uma história de amor e de hemorroida

 


Foi o Antônho do Bidunga
Quem me contou esta história
De um sinhozinho da Barra
Que vivia fazendo farra
E ficou sem escapatória.

O pobre do seu Anacleto 
Sempre se via na praça,
Ficava lá num banco, sentado 
Com o seu terninho apertado 
Todo comido de traça. 

Passava horas inteiras 
Sem muito ânimo, levantava 
Ajeitava o paletó puído
E com o semblante doído 
Em passos curtos se mandava. 

Até que um dia o Antônho 
Vencido pela curiosidade 
Aproximou-se do velhinho
E sorrindo com carinho 
Perguntou com humildade: 

“Desculpe-me a intromissão, 
Uma dúvida me apavora
O senhor não tem aonde ir 
O que o senhor faz por aqui 
Todo dia, nesta mesma hora?!”

O Anacleto falou para o Antônho:
“Preste muito bem atenção
Que sirva como conselho
Para que nunca olhes no espelho
E fiques com depressão”. 

“Vou contar pra você como é triste ver a velhice chegar 
Ver os cabelos caindo e a vista encurtar 
Ver as pernas tropicando, com preguiça de andar
Ver o coração com preguiça, sem vontade de amar 
Ver o pinto amolecendo, sem força pra levantar.” 

“As carnes vão sumindo, vão aparecendo as veias, 
As vistas vão diminuindo e vão crescendo as sobrancelhas 
As coisas vão encurtando, vão aumentando as orelhas 
Os ovos dependurados e o pinto sempre arqueia.” 

“No tempo em que eu era moço, o sol pra mim brilhava 
Eu tinha mil namoradas, tudo de bom me sobrava 
As meninas mais bonitas da cidade, eu namorava 
Eu fazia sexo todo dia, meu pinto não descansava.” 

“Mas tudo isso passou, faz tempo, ficou pra trás 
Das coisas que eu fazia, hoje já não sou capaz 
O tempo me roubou tudo, de uma maneira sagaz 
E pra falar a verdade, nem em árvore eu trepo mais.” 

E com voz cansada e emocionada, 
Seu Anacleto deu a resposta sugerida: 
“Com você, vou ser franco
É que há 40 anos, neste banco
Conheci o único amor da minha vida!” 

E, lacrimejando, completou: 
“Apaixonei-me naquele momento
Quase que o coração eu arranco 
E depois, neste mesmo banco 
Me acovardei e não a pedi em casamento”. 

O Antônho tentou adivinhar 
Enternecido pela dor do velhinho. 
“Já sei, o senhor perdeu a chance
Agora não tem mais o amor ao alcance
E anda com medo de morrer sozinho!” 

E seu Anacleto balançou a cabeça 
Simplesmente começou a soluçar.
“Me vejo agora sem mulher e sem filhos
Estou no fim do meu trilho
E sem ninguém para me amar!”

O Antônho, então, disse pra ele:
“Foi Deus que criou o casamento
Embora pareça inconveniente
Ter unido seres tão diferentes
Está no amor o entendimento”.

Então, Deus, que a tudo espiava
Deu ouvido ao seu segundo coração:
“Vou te fazer uma companheira
Da costela, farei uma joia de primeira
Pra acabar com a tua solidão”.

Daquele dia em diante, o Anacleto
Eu tenho visto no banco da praça
O Antônho o levou num clube de idoso
Agora, ele vive feliz, belo e formoso
Namorando a dona Maria das Graças!

Como por ironia do destino
Seu Anacleto encontrou seu abrigo
Num segundo olhar se apaixonou
A Maria das Graças reencontrou
A mulher que foi seu amor antigo.

Uma coisa ninguém me disse
Nem explicou uma parada
Não sei se a dona Maria 
Vive hoje em bigamia
Se é solteira, viúva ou casada!



Publicado em 04/06/2021 - por Beltrano

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