
Xeque-mate invisível
Resolvi ir até o Centro Cultural Laudelino Augusto Weiss para jogar xadrez com meu amigo Renato. Na verdade, “jogar” talvez seja um termo otimista demais, afinal meu objetivo real era aprender, já que, até então, eu apenas movimentava as peças numa tentativa quase heroica, e frequentemente frustrada, de evitar uma derrota inevitável. Mas, no fundo, pouco importava o resultado. O que me atraía era a conversa, o aprendizado e aquela máxima simples e irrefutável: se não jogar, não aprende. Ainda que, no meu caso, aprender parecesse um processo dolorosamente lento… e publicamente humilhante.
Cheguei ao centro cultural e, como sempre, fui impactado pela beleza do espaço. O prédio, com sua arquitetura acolhedora e seus ecos suaves de passos e vozes, parecia convidar não apenas ao aprendizado, mas também à contemplação. Havia um cheiro leve de café no ar, misturado ao silêncio respeitoso típico dos lugares onde a cultura ainda é levada a sério ou, pelo menos, fingimos muito bem que é.
Mal atravessei a porta, Renato já veio com sua habitual ironia afetuosa:
— Finalmente criou coragem de “apanhar” um pouquinho...
Sorri. Era o tipo de acolhimento que só um amigo verdadeiro oferece, pois amizade sincera é direta, levemente cruel e, em alguns casos, profeticamente precisa.
Como de costume, antes mesmo de sentar, pedi um cafezinho. Não por necessidade fisiológica, mas por estratégia afinal, qualquer possibilidade de concentração extra seria bem-vinda diante do massacre que se anunciava. Embora, conhecendo meu histórico, talvez nem a cafeína estivesse disposta a me ajudar.
Sentamos, e as peças estavam organizadas com uma disciplina que eu claramente não possuía. A aula começou. Com as peças brancas, fiz meu primeiro movimento: um avanço tímido, quase hesitante. Um peão que parecia refletir perfeitamente seu comandante: teimoso, mas sem muita noção de onde queria chegar o que, pensando bem, também descreve boa parte das minhas decisões fora do tabuleiro.
Renato observou e comentou:
— Esse início está mais para um gambito…, mas não dos bons.
Foi o suficiente.
A palavra “gambito” acionou em mim um gatilho. De repente, já não estava mais ali. Minha mente, como costuma fazer sem pedir autorização e sem considerar o contexto social da situação mergulhou em reflexões mais profundas. Gambito, no xadrez, é perder algo agora na esperança de ganhar depois, sem garantia alguma.
E foi aí que o termo deixou de ser apenas uma técnica do tabuleiro e virou espelho. Há palavras que, ditas de um certo jeito, abrem uma fresta no dia e por ela entra um vento antigo, trazendo de volta tudo o que tentamos organizar em silêncio. Porque um gambito não é apenas perder uma peça; é aceitar que, às vezes, a vida cobra um pedaço da gente como entrada… e não entrega recibo. Nem explicação.
E, quando percebi, já não estava mais diante do tabuleiro. Estava diante de algo que sempre me incomoda; que é perceber que, em certos momentos, entender demais não ajuda em absolutamente nada.
Pensei em Noelia Castillo Ramos. Não como quem lembra, mas como quem é atravessado.
Enquanto Renato aguardava minha jogada, provavelmente reconsiderando suas escolhas de amizade, minha mente já estava em outro lugar. Como estudioso das escolhas humanas, há momentos em que compreender os padrões não traz alívio… só aumenta a sensação de impotência.
Noelia, uma jovem espanhola, teve sua vida marcada por episódios de violência brutal. Em 2022, sofreu um estupro coletivo durante uma de suas tentativas de encontrar aquilo que todos buscamos: pertencimento, felicidade, inclusão.
— O ideal é que você não demore tanto entre as jogadas! — interrompeu Renato, trazendo-me de volta à realidade.
Assenti, um pouco constrangido. Tentei então uma diagonal longa, com a sensação, talvez ilusória, de que havia ali alguma estratégia. Uma tentativa honesta… ainda que taticamente duvidosa.
Mas minha mente insistia em retornar. Pensei em como, assim como aquele movimento no tabuleiro, as escolhas de Noelia também pareciam seguir caminhos silenciosos e profundos, carregados de intenções legítimas, mas que, tragicamente, não levaram aos melhores resultados. E, nesse ponto, algo me incomodou de forma mais direta. Não era apenas sobre ela. Era sobre a facilidade com que nós, de fora, organizamos a dor alheia em narrativas compreensíveis, quase didáticas, como se entender fosse, de alguma forma, suficiente.
Mas não é. Nunca é.
Ela já havia sido violentada outras vezes. Ainda assim, continuava frequentando os mesmos ambientes, em busca de algo que lhe faltava. Não por imprudência simples, mas por uma necessidade profundamente humana de aceitação. E eu ali, tentando encontrar lógica, quase como quem analisa uma partida… quando, na verdade, não havia jogo algum a ser vencido. Só perdas acumuladas. Lembrei-me, inevitavelmente, do meu próprio livro, Uma Escolha, Um Destino. E, pela primeira vez, o título me pareceu menos uma afirmação… e mais uma pergunta incômoda.
Após o episódio de violência, Noelia lançou-se do quinto andar de um prédio.
Sobreviveu. Mas a vida que restou não era mais a mesma. A queda a deixou paraplégica. As dores tornaram-se constantes. Dormir virou um desafio. Existir, um esforço diário, daqueles que não aparecem em estatísticas, mas pesam em cada minuto vivido.
— Parece que foi um ataque descoberto! — disse Renato, apontando para o tabuleiro.
Olhei. E, de fato, algo escapara à minha percepção. Uma ameaça silenciosa havia surgido. Assim como na vida de Noelia. Seu movimento, o salto, a tentativa de fuga, tudo revelou uma nova condição ainda mais limitante. Sua existência, que já fora ferida, agora estava aprisionada em um corpo que não respondia.
As peças no tabuleiro começavam a desaparecer. As minhas, principalmente o que, convenhamos, já não era exatamente uma surpresa estratégica.
E então lembrei de uma frase dela, em uma entrevista: “Só quero descansar e deixar de sofrer.”
Ali, compreendi que o jogo dela havia tomado um rumo irreversível. Na Espanha, a eutanásia é legal. E Noelia decidiu encerrar sua partida.
E, pela primeira vez naquela tarde, senti um desconforto diferente. Não era sobre perder no xadrez. Era sobre perceber que, diante de certas dores, todo o meu repertório de leituras, teorias e reflexões não servia para absolutamente nada. Era só… insuficiente.
— Xeque! — anunciou Renato.
Tentei reagir. Fiz um roque quase instintivo, mais por desespero do que por estratégia, uma jogada que, se fosse uma metáfora da minha vida, infelizmente faria bastante sentido.
Naquele momento, senti-me em verdadeiro zugzwang: qualquer movimento parecia piorar a situação. No tabuleiro… e, de forma desconfortavelmente honesta, também dentro de mim.
— Xeque-mate! — disse Renato, com a serenidade de quem já esperava por aquilo desde o primeiro lance.
Olhei para o tabuleiro. Minhas peças estavam dispersas, desorganizadas, vencidas. Como um exército que nunca entendeu a guerra que estava travando, ou pior, que achou que entender seria suficiente para vencê-la. E, inevitavelmente, pensei em Noelia.
Sua vida não terminou por falta de movimentos, mas porque todas as peças que poderiam protegê-la já haviam sido derrubadas.
Fiquei em silêncio por alguns segundos. E, dessa vez, não era distração. Era incapacidade mesmo.
Depois, quase sem perceber, murmurei:
— Parece que a vida é como um jogo de xadrez…, mas a maioria de nós só move as peças… sem realmente entender a partida.
Renato me olhou, levantou a sobrancelha e disse:
— Ou então… sem saber jogar mesmo.
Sorri.
Talvez ele estivesse certo.
Ou talvez entender e saber jogar sejam coisas bem menos úteis do que gostaríamos de acreditar.
E, naquele momento, pela primeira vez, perder uma partida pareceu, com alguma folga, o menor dos problemas.
Publicado em 16/04/2026 - por Daniel Camargo Thomaz