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Com a sabedoria dos ancestrais

Confirmada no Grupo Especial de Florianópolis, escola de samba Nação Guarani se prepara para o Carnaval de 2020

8e8039cc82ba66af21497d13f89e8f9b.jpg Foto: JANA SCATOLA/ESPECIAL

Aliviada depois que a Liga das Escolas de Samba de Florianópolis (Liesf) confirmou a presença da escola no desfile do Grupo Especial do melhor Carnaval de passarela do estado em 2020, a Nação Guarani dá sequência aos trabalhos de preparação para, mais uma vez, representar Palhoça na Nego Quirido. A turma, comandada pelo presidente Lui Vandré da Rosa, vem trabalhando há sete meses e já realizou inúmeras ações junto à comunidade. No dia 29 de setembro, foi escolhido o samba-enredo e a musa da escola, em evento realizado na sede da Associação de Moradores do Madri (Amma); e neste domingo (13), tem um bingo da bateria Puro Swing, no ginásio do Caminho Novo, com início às 15h.

Não foi uma batalha fácil de vencer, a da permanência entre as grandes escolas do Carnaval da Capital. Desde 2015, quando chegou ao Grupo Especial, a escola sofre com a desconfiança alheia. Este ano, dirigentes da Liesf estavam decididos a tirar a Nação Guarani do desfile, mas o estatuto garantiu a presença da escola na Nego Quirido. Um dos argumentos contrários à participação da entidade palhocense é a diferença de orçamento: enquanto as agremiações da Capital recebem uma verba inicial de R$ 450 mil da Prefeitura, a Nação faz o que é possível com uma verba bem mais modesta - este ano, a escola saiu com investimento de R$ 73 mil; para 2020, deve ficar entre R$ 120 mil e R$ 150 mil. "A gente não tem condição de competir com eles, a gente precisa ser realista. A diferença é grande", lamenta Lui Vandré.
Mas os "ventos da reciclagem" estão soprando a favor nesta temporada. "É um ano bem diferente. A gente está tendo muito apoio", comemora o presidente. Ele assumiu a presidência da escola há poucos meses, mas está trabalhando desde o início do projeto 2020, que começou assim que terminou o Carnaval de 2019. "Acabou o Carnaval deste ano, a gente se reuniu e falou: agora a gente começa a trabalhar para o Carnaval de 2020, para não ser igual foi neste ano, quando a gente teve que fazer tudo em uma semana. Se for para fazer deste jeito, a gente não quer, porque sobrecarrega, não saiu bonito, a gente fez loucura. Não dá pra ser assim", sentencia.
Em 2019, a escola levou 900 componentes para a avenida; seriam 1.200, mas até o trânsito atrapalhou (a Nação foi a primeira a desfilar e muitos integrantes não conseguiram chegar a tempo). Para 2020, a direção projeta um desfile com 17 alas, abrigadas sob o enredo "Sabedoria Ancestral: O Ecoar de uma Nação Transforma Lixo em Criação". Os adereços e alegorias serão produzidos com resíduos sólidos, como lacres de alumínio, tampas e garrafas plásticas, caixas tetrapack, cápsulas de café, embalagens, sacolas plásticas, copos, canudos, talheres descartáveis, resíduos têxteis e da construção civil, entre outros. "Vamos promover um alerta, ecoando a sabedoria ancestral dos povos indígenas, africanos e europeus, através da arte de reutilizar os resíduos, finalizando com os ensinamento do mestre Cacae e sua sabedoria de transformar 'lixo' em arte", observa a carnavalesca Kika Rosa. Mestre Cacae, grande conhecedor do Carnaval, ex-presidente de escola de samba, pai de Lui Vandré, já faleceu, mas seu legado inquestionável será levado à Nego Quirido. Ele tinha criado um enredo falando sobre reciclagem, do "lixo ao luxo", algo que ele trabalhava muito nas fantasias de originalidade. "Meu sogro tinha um enredo semipronto e a gente foi elaborando ele nos conceitos atuais e criando em cima", diz Kika (que é esposa de Lui).
O casal destaca o planejamento para o Carnaval 2020, com reuniões semanais e a realização de vários eventos ao longo de 2019, como ações sociais, campanha do agasalho, sopas comunitárias, festejos para crianças e adultos. "É um trabalho de um ano inteiro até chegar na avenida", afirma Lui. No do dia 29, a escola elegeu Ynara Idiná de Assis como musa e apresentou o samba-enredo dos compositores Barão, Cleber Amaral, Jean Leiria, Nellipe Costa, Tabajara Ortiz, Vinydacor, Wagner Amaral, Wilson Silva e Willian Tadeu. "Prometeu um novo dia / Era o mundo que sonhei / Mas feriu a ecologia / E coroou um novo rei", versa o refrão, que tem tudo para cair no gosto da galera.
Aliás, por falar em galera, a comunidade do Caminho Novo, mais uma vez, abraçou a causa, mas os carnavalescos da escola estão firmes no propósito de agregar foliões de todos os bairros, afinal, a Nação Guarani representa todo o município de Palhoça no maior Carnaval do estado. "A instituição é dos palhocenses", reflete Kika. 
Quem quiser conhecer as fantasias para decidir em qual ala gostaria de sair na avenida vai ter que esperar um pouco mais. Os croquis devem ser apresentados em novembro. E para quem prefere desfilar na bateria, os ensaios acontecem às segundas-feiras, das 19h30 às 22h, no Campo do Grecea, de forma gratuita - e há vagas para novos integrantes. Aliás, atividade é o que não falta, é só escolher. "Desenvolvemos oficinas de origami, macramê e adereçamento em vários bairros, organizados nos centros comunitários. E para novembro, retornaremos com o projeto Araté, que em guarani significa 'dia de festa', desenvolvendo os ensaios da bateria nas praças de Palhoça", projeta Kika.
A confecção das fantasias só vai começar depois que os desenhos ficarem prontos, mas a direção da escola já está recolhendo material reciclado para a confecção das roupas e adereços. Uma empresa doou caixas de pedrarias, que com certeza vão dar um toque todo especial nas fantasias. Enfim, se depender do empenho da comunidade e do otimismo da direção, a Nação Guarani vai desfilar com muita energia e qualidade em 2020. 
"Desfilar em Florianópolis é a cereja do bolo. Nós temos que difundir a cultura de todo o movimento Carnaval em Palhoça, mas a finalização do projeto é desfilar na Capital, todo mundo espera para desfilar lá", observa Kika, informando que a Nação Guarani pretende fazer um desfile oficial também em Palhoça. O local está sendo avaliado. A ideia é utilizar a estrutura de festas tradicionais como a Stammtisch e chamar os blocos da cidade para integrar a apresentação. São planos para um Carnaval diferente, com o mesmo entusiasmo de sempre.



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Créditos: JANA SCATOLA/ESPECIAL JANA SCATOLA/ESPECIAL JANA SCATOLA/ESPECIAL
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