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Diário de um músico

“Matéria Solúvel”, EP de estreia de Murilo Salazar, leva o cotidiano às letras de canções com arranjos em tons de MPB

251a0e682566f785d8253f1b779cb1fa.jpg Foto: NORBERTO MACHADO

A ideia era transformar as experiências de vida em um álbum. Tanto que o nome do projeto original era “Diário”. No decorrer do processo de produção, o conjunto de cinco músicas acabou se transformando no EP “Matéria Solúvel”. A denominação pode ter mudado, mas a essência foi mantida. “Matéria Solúvel” é a cara, a voz e a vida do músico Murilo Salazar, que mora no Aririú e tem raízes profundas com Palhoça.

Tão profundas que o nome do avô materno, Arcendino Antônio Cerino, batiza uma das ruas do bairro, bem perto da casa que abriga o quarto transformado em estúdio. É ali, entre cama, cabides e um quadro que relembra a passagem do Beatle Paul McCartney pelo Brasil, que ele transforma as memórias em música. As composições costumam ser feitas no violão (que ele toca desde os 14 anos) e depois são renderizadas em um controlador. Geralmente, compõe um riff no violão e depois faz a linha vocal no controlador, que tem possibilidade de tons muito maior. “Com isso aqui, tu faz o que tu quiser”, ensina.

Desde novo, Murilo faz o que quer com a música. Tentou ter aulas com professor, mas não se adaptou. A liberdade do estudo autodidata se adapta melhor ao seu perfil criativo. Ele se interessa, busca informações e aprende. O “alvo” da vez é um ukulele, recém-comprado, e que vai influenciar, provavelmente, no novo trabalho, que já está a caminho (deve ser lançado em janeiro de 2019).

“Matéria Solúvel” foi o primeiro, a estreia no universo fonográfico, lançado ainda no primeiro semestre, depois de nove meses de gestação. O EP contou com a produção, mixagem e masterização de Felipe Melo (OPA! Music). As cinco músicas foram gravadas no estúdio ValveState, no Rio Tavares, que já recebeu estrelas da música nacional como Dazaranha e Lenine.

O projeto solo foi libertador, depois de anos tocando em banda, como a Ratclif, que chegou a gravar dois CDs e um videoclipe, com seu funk rock. “Tinha coisa que não se encaixava com o som da banda”, argumenta o músico do Aririú, que imprime uma levada mais folk e MPB em suas músicas. Até pelas referências, como o folk dos anos 1970, com a maestria de Neil Young, e a musicalidade brasileira, em fontes como Nando Reis. “Era uma coisa que eu não podia fazer antes com a Ratclif, que não se encaixava, porque eram coisas bastante pessoais. A música é legal por causa disso, é preencher com conteúdo a forma que existe na cabeça das pessoas. É pessoal, mas as pessoas vão se identificar com alguma coisa da vida delas. Meu objetivo é sempre fazer diversas formas para as pessoas depositarem seus bolos”, completa.

Murilo não vive da música - ele trabalha no setor comercial de uma empresa do ramo de tecnologia há quatro anos. Até porque a cena autoral na Grande Florianópolis, apesar de muito rica em conteúdo, não costuma ser muito agitada em termos de “palcos possíveis”. O jeito é apostar nas redes sociais, que costumam ser muito mais democráticas. As cinco músicas de “Matéria Solúvel” estão nos principais aplicativos e redes sociais, como YouTube, Spotify e Apple Music. Um meio de divulgação mais viável, ainda mais para quem está há oito anos na “canseira”. “Já fui pra São Paulo tocar pra 300 pessoas, e já fui pra tocar pra três. Então, passei a fazer a divulgação do meu trabalho na internet, até que um dia eu saia para fazer um show marcado fora e não precise fazer divulgação e vai ter pessoas lá para me escutar”, projeta.

Por enquanto, a música é um hobby levado a sério; uma válvula de escape do estresse do dia a dia, mas com a coragem e a disposição de projetar um caminho no concorrido mercado fonográfico. O ponto de partida foi o “diário”. “Sempre fiz assim: ao invés de escrever um diário, eu escrevia música sobre o que eu estava passando e algumas delas viraram um álbum”, destaca. Há, no EP, inclusive, uma música chamada “Diário”. “É igual uma pessoa que faz ioga, ou faz meditação, outras pessoas desenham. É uma válvula de escape mesmo, o mundo está cada vez mais doido, muita correria”, reflete o músico. “Até porque, minha vida é uma bagunça: eu fiz Pedagogia na Udesc, trabalho na área comercial e faço música”, diverte-se.

 

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