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Café, Giz e Controvérsias - Edição 1.014

 

Adaptação ao sistema

 

Lembro de quando trabalhei em uma escola pública e precisei me adaptar a todas as condições que a docência pública exigia. Eram situações naturais — na verdade, nada demais. Ou seja, nada que desmoronasse meu ego ou fizesse cair meus dedos. Ah, sempre achei interessante julgar os outros, então não tem nada de errado me julgar, certo?
Então, voltando às adaptações. Primeiramente, eu tinha que comprar as tintas caso desejasse usar "mais do que o necessário" — não sei exatamente o que seria o necessário — no quadro para dar explicações, visto que os alunos tinham os livros didáticos para usar. O que ninguém considerava é que os livros são utilizados por quatro anos e, nesse período, obviamente todas as atividades já estão completas, pois foram feitas no primeiro ano em que os livros foram entregues na escola. Com isso, como não usar o quadro e passar atividades para que os alunos possam aprender os conteúdos?
Bom, mas isso é tranquilo, certamente não ficarei mais pobre por comprar tintas para recarregar minhas canetas. Mas existia uma coordenação pedagógica na escola e a "chefinha" — como eu a chamava — resolveu que estava na hora de orientar o meu trabalho.
Agora sim, temos uma situação cansativa. O momento em que a coordenação te chama para alinhar a prática pedagógica. Nunca esqueci esse dia. Estava no meio de uma explicação sobre as orações subordinadas substantivas, na sala do 9º ano — o que já é, por si só, um desafio digno de uma medalha.
Hehehehe, era até engraçado, pois muitos alunos sequer sabiam o que era uma oração e, em tons irônicos, com aquele clima super infantilóide de adolescentes, diziam:
— Ô, professor, oração tem mais do que Pai-Nosso e Ave-Maria, né?
Pronto. Bem nesse momento, a coordenadora adentra a sala com um sorriso institucional, daqueles que você já sabe que vai dar problema.
— Profeee, posso falar com você um minutinho? — perguntou com uma doçura tão falsa que quase me deu cárie.
Com meu humor corriqueiro, avisei aos alunos que fizessem as atividades que estavam no quadro, que logo voltaria. Claro que ninguém fez nada.
A sala da coordenação era um cubículo abafado, com um ventilador velho girando preguiçosamente no teto, produzindo um rangido irritante — parecia que estava morrendo a cada volta. Os móveis, bem... já tinham visto dias melhores. A mesa da coordenadora tinha algumas pilhas de papel desalinhadas, um copo de café frio manchando a madeira e uma caneta mordida — provavelmente efeito de estresse acumulado. As paredes eram adornadas por cartazes motivacionais desbotados, com frases como "Educar é um ato de amor" (óbvio que quem escreveu isso não era professor). O cheiro de café requentado pairava no ar, misturado ao perfume cítrico da coordenadora, que invadia minhas narinas sem pedir licença.
Foi nesse cenário que ouvi:
— Profeeeee, o senhor passa muitas atividades no quadro. O senhor não sabe que estes alunos têm muitos problemas em casa e não conseguem aprender normalmente? — Tentei argumentar, mas quando iniciei a tentativa com um "é...", fui rapidamente interrompido.
A coordenadora continuou gesticulando como se estivesse regendo uma orquestra imaginária:
— Olha só, estou te orientando, depois você fala! Então, Profeee, aliás, temos o livro didático que deve ser utilizado em aula. Olha só, ninguém mais copia no quadro ou escreve, Profeee. Por favor?!?!?!
Agora é preciso uma pausa. Todos sabem que os livros estão riscados, completos e muitos até rasgados. Mas ninguém vê? Claro que enxergam! Mas não é a realidade que importa, e sim o discurso, a narrativa.
Neste momento, respirei fundo e interrompi a "madre superiora" com um tom calculadamente educado:
— Entendi, mas os livros didáticos já estão com todas as atividades prontas, pois foram feitas nos anos anteriores. Então, quem sabe eu envio para a escola um planejamento das atividades que pretendo realizar e a instituição imprime para que eu não use "de forma exagerada" — sim, neste momento fui bem irônico — o quadro e os canetões.
A coordenadora levantou-se da cadeira, colocou as mãos na cintura — numa postura típica de quem está prestes a lançar um sermão — e disse:
— Meu Deus... ai, me desculpe citar esta palavra, pois a instituição é laica, mas o senhor pensa que temos recursos para tanto? Por favor, Profeeee. O senhor precisa se adequar e saber que o seu método é totalmente ultrapassado!
Eu olhava para ela com um sorriso congelado, aquele típico de quem está a um fio de explodir internamente. Neste instante, refleti e concordei com a moça — mesmo discordando do fundo da minha alma — e disse:
— Tudo bem, vou fazer como a senhora me orientou.
Levantei-me da cadeira e voltei para a sala de aula. Os corredores da escola estavam um tanto desbotados, com paredes descascando aqui e ali, enquanto um grupo de alunos corria barulhentamente, ignorando solenemente o "Por favor, silêncio" escrito em letras grandes ao lado da porta da biblioteca. Um aluno chutava uma bola de papel e outro gritava "GOOOOL!!!" — na escola pública, qualquer corredor vira campo de futebol.
Minha vontade era a de fingir que dava aula, mas segui meu caminho dizendo o que a direção queria ouvir e procurando fazer o que considerava correto. Afinal, a sobrevivência no mundo da educação pública é uma arte — uma mistura de teatro, improvisação e fé.
Ah, foi um ano difícil — mesmo que a escola pública e o Estado proporcionem educação de qualidade e gratuita para todos. Só que não

 



Publicado em 09/10/2025 - por Daniel Camargo Thomaz

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