
Relato de um professor em estado de metamorfose
Finalmente, estou de férias.
O relógio não me desperta. Não há sinal de entrada, nem vozes apressadas ecoando pelos corredores. Ainda assim, há algo estranho em casa.
Leio livros, assisto a documentários, séries e filmes, caminho pela sala inundada pela luz mansa do sol da manhã… e, apesar disso, algo falta. É uma ausência difusa, sem nome, mas persistente.
Todos os dias saio com meu amado filho. Vamos à praia, onde o vento traz o cheiro salgado da maresia e as ondas parecem brincar conosco. Corremos pelo parquinho, rimos sem pressa, mergulhamos no mar gelado. Nesses momentos, tudo está bem. O mundo se reduz ao brilho nos olhos dele, e nada mais parece importar.
Voltamos para casa. Minha esposa me espera com atenção e carinho. Assamos uma carne, conversamos sobre coisas simples, visitamos um amigo e, depois… novamente a praia. A rotina é leve, quase idílica.
À noite, deito para dormir depois de um dia alegre e festivo. Abro um livro psicografado — tenho especial apreço por essas narrativas, pois me acalmam —, mas, ainda assim, algo persiste. O quê? Não sei. Tudo parece perfeito: acordo sem despertador, almoço sem pressa, treino todos os dias, cuido do corpo. É incrível… e, no entanto, há um incômodo silencioso, uma sombra discreta que me acompanha.
Olho para a pilha de livros que separei: Orgulho e Preconceito, Vítimas Algozes, O Negro na Literatura Brasileira, O Morro dos Ventos Uivantes, O Idiota, Frankenstein. Lembro-me de que preciso organizar resumos e preparar atividades de produção textual para 2026. Nesse instante, paro. Penso demoradamente.
Será que sinto falta do trabalho?
Não pode ser.
Levanto os olhos e percebo onde estou: no meu escritório. Estou rodeado por livros, cadernos, anotações. Escrevo. Planejo. O monitor do computador acende como um farol discreto em meio ao silêncio. Por alguns segundos, vejo-me metamorfoseado — jaleco imaginário, pilhas de papéis, textos para corrigir.
Não escolhi A Metamorfose, de Kafka. Mas parece que ela me escolheu.
Sinto-me como Gregor Samsa: não pelo grotesco do corpo, mas pela inutilidade repentina da função. Parece que acordei e descobri que, sem sua engrenagem cotidiana, já não sabe exatamente quem é. Estou isolado, sem colegas militantes, sem alunos performáticos, sem ninguém que dependa de mim naquele instante. Estaria eu aliviado ou solitário? O silêncio, sem a gritaria dos estudantes, é libertador… ou opressor?
Quando não estou dando aulas, perco parte da minha identidade? Quem sou eu sem a função de professor?
Ah, que absurdo kafkiano.
Talvez eu planeje uma aula ou duas… ou três. Depois, volto à tranquilidade das minhas férias —ou ao que resta delas.
Publicado em 08/01/2026 - por Daniel Camargo Thomaz