
Virtudes em estado de emergência: a elegância da parcialidade
A proximidade da Páscoa sempre traz consigo um tipo curioso de agitação — quase litúrgica, quase comercial, quase… contraditória. É o tempo em que renovamos esperanças, trocamos presentes e, ao menos em teoria, celebramos a ressurreição de Jesus Cristo. Na prática, porém, a ressurreição mais evidente é a da inflação galopante.
Enquanto isso, na escola, especialmente entre as equipes do Fundamental I e da Educação Infantil, o clima é de verdadeiro estado de emergência decorativa. Papéis coloridos, coelhos recortados, ovos de isopor e purpurina — muita purpurina — tomam conta dos corredores. Há uma espécie de fé pedagógica de que quanto mais enfeite, mais significativo será o aprendizado. Eu observo tudo com uma certa ternura… e uma discreta desconfiança.
Mas é na sala dos professores que o verdadeiro espetáculo acontece.
O ambiente, que deveria ser um refúgio de lucidez, assemelha-se mais a uma panela de pressão emocional. O café, sempre requentado, exala um aroma que mistura cansaço e resignação. As cadeiras rangem como se protestassem contra o peso não apenas dos corpos, mas das frustrações acumuladas. Sobre a mesa, pilhas de provas, canecas com frases motivacionais já desgastadas e olhares que alternam entre o vazio e a indignação.
O motivo da inquietação? O velho conhecido: dinheiro. Ou melhor, a falta dele. Os preços sobem com uma elegância cruel, enquanto o poder de compra desce como uma folha seca em outono. O salário, que no papel até parece respeitável, evapora com uma eficiência quase científica.
E, como não poderia deixar de ser em ano eleitoral, a conversa inevitavelmente degenera para a política.
— Ei, você fala desse escândalo do Banco Master, INSS…, mas a culpa de tudo isso é do Bozo! — dispara o professor de Inglês, com aquele ar de quem acredita ter encerrado o debate antes mesmo de iniciá-lo.
Do outro lado, quase imediatamente, vem a réplica, carregada de ironia defensiva:
— Claro, a culpa de tudo nos últimos três anos é do Bozo…, mas quem governou 90% do tempo foi o Molusco!
Respiro fundo. Não por paciência, mas por necessidade fisiológica. O ar parece mais denso, como se as palavras carregassem partículas invisíveis de ressentimento.
A discussão, evidentemente, escala.
— Não dá pra esperar nada de quem segue essa família de genocidas! Venderam o país! Esse rombo aí tem dedo deles, sim! Acorda!
Nesse momento, o silêncio não vem como solução, mas como explosão contida. O outro professor simplesmente se levanta e sai. Sem resposta. Sem despedida. Apenas o som da porta, que bate com uma precisão simbólica quase poética.
Eu, fiel ao meu papel de observador, ou talvez covarde intelectual, dependendo do ponto de vista, abro uma nova aba no computador. Não suporto informação incompleta. Nem debates que se alimentam mais de paixão do que de dados.
Leio uma notícia: a Polícia Federal extraiu do celular de Daniel Vorcaro uma lista de contatos com autoridades dos três poderes. Nomes surgem como peças de um quebra-cabeça que talvez nunca seja montado: Alexandre de Moraes, Ricardo Lewandowski, Henrique Lewandowski, José Dirceu, Joesley Batista…
Penso com frieza, pois nomes em um celular não são provas. São, no máximo, indícios de proximidade, ou de agenda cheia.
Curiosamente, não encontro o nome de Jair. Sigo lendo. Descubro decisões controversas de Dias Toffoli com sigilos elevados, escolha de peritos, cronogramas questionáveis. Resultado? Afastamento do caso.
Fecho o computador.
E, de forma quase involuntária, lembro-me de Stevenson. De O Médico e o Monstro. De Jekyll… e Hyde.
Jekyll não é mau. Esse é o ponto. Ele é, na verdade, excessivamente comprometido com a aparência do bem. Um homem tão obcecado pela virtude que acaba reprimindo tudo aquilo que considera indigno. E Hyde… bem, Hyde é o preço dessa repressão. A manifestação crua, desorganizada e violenta de tudo aquilo que foi empurrado para o porão da consciência.
Fico pensando: será que não somos exatamente assim?
Uma sociedade que grita virtudes, ostenta moralidade e exibe indignação, mas que, no fundo, apenas reorganiza suas conveniências conforme o lado do poder? Quanto mais tentamos parecer corretos, mais feroz se torna aquilo que escondemos.
Ou talvez a explicação seja mais simples. E mais incômoda.
Talvez não haja dualidade sofisticada alguma. Talvez sejamos apenas… parciais. Defensores apaixonados de nossas próprias contradições. Advogados do indefensável, desde que esteja do “nosso lado”.
Preciso de um café.
Levanto-me, sirvo uma xícara. O líquido escuro desce como um pequeno consolo existencial. Abro um chocolate meio amargo, coerente com o humor do dia e, por alguns instantes, permito-me fugir da realidade.
Não por ignorância.
Mas por sobrevivência.
Publicado em 26/03/2026 - por Daniel Camargo Thomaz