
O templo e o palanque
O fim de semana sempre me provoca um entusiasmo quase infantil. Há algo de sagrado nesse intervalo da rotina: a possibilidade de desfrutar, sem culpa, do tempo de qualidade com meu filho, de namorar minha esposa sem a pressa dos dias úteis e de me perder, legitimamente, nas páginas dos meus livros favoritos.Cheguei ao centro cultural e, como sempre, fui impactado pela beleza do espaço. O prédio, com sua arquitetura acolhedora e seus ecos suaves de passos e vozes, parecia convidar não apenas ao aprendizado, mas também à contemplação. Havia um cheiro leve de café no ar, misturado ao silêncio respeitoso típico dos lugares onde a cultura ainda é levada a sério ou, pelo menos, fingimos muito bem que é.
Entretanto, como toda construção humana, o fim de semana também está sujeito às fissuras da realidade. Nem sempre ele se apresenta como esse oásis de tranquilidade. Há ocasiões em que somos arrastados para conversas que preferiríamos evitar e, curiosamente, essas conversas costumam surgir justamente quando menos desejamos. E, pior: quase sempre são inegociáveis.
O episódio em questão ocorreu no Centro Espírita que frequento. Convém esclarecer: sou membro de um grupo cristão que estuda o Evangelho à luz da filosofia desenvolvida no século XIX por Hippolyte Léon Denizard Rivail. Um ambiente que, em tese, deveria ser um refúgio de serenidade, um laboratório de virtudes, um território onde a elevação moral sobrepõe-se às paixões terrenas.
Digo “em tese” porque, ao adentrar o recinto naquela tarde, deparei-me com uma cena que lembrava menos um espaço de oração e mais um debate televisivo em horário nobre, só que sem mediador e com muito menos civilidade.
Dois amigos discutiam política.
E não era uma conversa qualquer. Era daquelas em que o tom de voz sobe na mesma proporção em que a razão se retira discretamente do ambiente. Um deles, com o semblante rígido e os olhos semicerrados, típico de quem acredita estar travando uma batalha moral, declarou:
— Olha só, eu não tenho político de estimação. Errou, cometeu ato ilícito, eu deixo de apoiar. Agora tu vem com esse papo de luta democrática, de fake...
O outro, já visivelmente irritado, interrompeu com um riso nervoso, desses que antecedem o colapso argumentativo:
— Ah, para, né? Acusar de corrupção o governo por causa de alguns voos com um tripulante?!
Ali estava: o clássico embate entre o indignado seletivo e o relativizador profissional. Dois arquétipos modernos, ambos convictos, ambos imunes a qualquer possibilidade de dúvida.
Confesso que fiz algo que raramente faço: interrompi.
Com a delicadeza que o ambiente exigia, e que eles haviam abandonado, pedi que cessassem a discussão. Argumentei que aquele era um espaço de oração, de reflexão, não um ringue ideológico improvisado.
Ambos me olharam com aquele constrangimento típico de quem é flagrado sendo incoerente em um local onde a coerência deveria ser regra. Silenciaram.
Mas o estrago já estava feito.
Meu hiperfoco, traidor habitual da minha paz mental, entrou em ação. A curiosidade, essa força muitas vezes mais poderosa que a prudência, passou a me atormentar. Eu precisava entender do que se tratava.
Dirigi-me à sala de atendimento. Um espaço simples, silencioso, quase ascético. Faltava apenas um detalhe essencial para qualquer investigação séria: café. E, por que não dizer, um chocolate para amenizar a dureza da realidade. Mas segui mesmo assim, em condições adversas.
Iniciei a pesquisa.
Rapidamente encontrei dados de uma auditoria sobre voos da FAB. Os números eram, no mínimo, desconfortáveis: 111 voos com apenas um passageiro. Outros 1.585 voos transportaram até cinco pessoas, cerca de 21% do total analisado. Um pequeno detalhe técnico tornava tudo ainda mais interessante: a menor aeronave utilizada comportava pelo menos oito ocupantes.
Ou seja, eficiência administrativa definitivamente não era o protagonista dessa história.
Pensei. Instintivamente, procurei minha xícara de café que, como já mencionei, não estava ali. Talvez tenha sido melhor assim; algumas conclusões são mais amargas do que qualquer bebida poderia suavizar.
Refleti sobre o curioso hábito humano de defender o indefensável. Não por ignorância, mas por conveniência emocional. Afinal, admitir o erro de quem admiramos exige uma maturidade que nem sempre estamos dispostos a exercitar.
Sim, o local não era adequado para aquele tipo de debate. Mas o tema, por si só, é inevitável. Afinal, discutir o uso, ou desperdício, do dinheiro público não é apenas um direito; é um dever. Especialmente em um país onde o básico, ironicamente, ainda é luxo para muitos.
Desliguei o celular e retornei à sala de palestras.
Sentei-me.
O expositor iniciou sua fala. Tema: Desigualdade das riquezas.
Confesso que sorri internamente. A realidade tem um senso de humor peculiar — quase sarcástico.
Segundo a exposição, à luz da filosofia espírita, a igualdade absoluta de riquezas é inviável. A diversidade das faculdades humanas, capacidades, esforços, escolhas, naturalmente produz resultados distintos. Até aí, nenhuma novidade para quem observa o mundo sem filtros ideológicos.
No entanto, resolvi provocar.
Perguntei sobre as correntes de pensamento que defendem a igualdade como única forma de justiça.
A resposta foi direta, quase cirúrgica: segundo os ensinamentos espirituais, aqueles que pregam a igualdade absoluta tendem a ser ou sistemáticos, presos a ideias rígidas, ou movidos por ambições e, não raramente, por inveja.
Uma afirmação incômoda. E, por isso mesmo, digna de reflexão.
O expositor prosseguiu: ainda que se tentasse impor tal igualdade, ela seria rapidamente desfeita pela própria dinâmica da vida. Uns trabalham mais, outros menos; uns constroem, outros consomem. A equação se reorganiza inevitavelmente.
Ao final, apresentou o ponto central:
— O verdadeiro problema não é a desigualdade, mas o egoísmo. Essa é a nossa chaga social.
Silêncio.
E ali, naquele instante, tudo se encaixou com uma clareza desconcertante. Porque, de fato, se o egoísmo não fosse a força dominante em tantas decisões humanas, talvez não estivéssemos discutindo corrupção com tanta frequência. Talvez não houvesse desperdício travestido de necessidade. Talvez o interesse coletivo não fosse sistematicamente subordinado ao conforto de pequenas elites, muitas vezes disfarçadas de representantes do povo. Saí dali com uma constatação incômoda, porém inevitável:
Entre o sagrado e o palanque, o ser humano ainda oscila e, não raramente, escolhe o palanque.
Publicado em 23/04/2026 - por Daniel Camargo Thomaz