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Carreteiro solidário para o músico Cidão

O evento acontece neste sábado (5) e busca angariar recursos para o tratamento fonoaudiológico do artista palhocense, que sofreu um AVC isquêmico

65b8ebf708890992aad1a0828785723f.jpeg Foto: Flávio Lengruber/Especial - Jornal Palhocense

Por: Sofia Mayer*

Está chegando o dia de contribuir para o tratamento do músico e compositor radicado em Palhoça Cidão França, que há pouco mais de dois meses sofreu uma embolia cerebral, seguida de um AVC isquêmico. No sábado (5), das 11h30 às 13h30, um carreteiro solidário, no valor antecipado de R$ 25, será ofertado no ginásio Palhoção, em um sistema drive thru, para evitar aglomerações. Na hora, o vale custa R$ 30. 

Em decorrência do acidente vascular, diagnosticado em 23 de setembro, Cidão perdeu a voz e precisou suspender as cantorias, que há anos embalavam palhocenses com seu timbre à la Raul Seixas - não é à toa que o artista é conhecido pelos tributos ao pai do rock brasileiro. Agora, ele se dedica a sessões de fonoaudiologia para voltar a encantar. 

Aos 70 anos, Cidão coleciona uma série de trabalhos que envolvem, sobretudo, músicas e poemas. A arte reflete até nas escolhas em família: o nome da filha mais velha vem da canção “Aline”, do cantor francês Christophe, que apresentou  quando foi premiado pela primeira vez, em um festival na cidade natal de Campos Novos; a filha 11 meses mais nova foi batizada de Michele, em homenagem ao clássico dos Beatles. 


Casa de músico 
Das principais lembranças de infância, Aline Martins, de 46 anos, conta que amanhecer ao som do pai tocando violão está entre as mais marcantes. À época, ela até pensava em reivindicar o direito de dormir um pouco mais, mas se rendia a simplesmente aproveitar a trilha sonora matutina. “Pode ser que um dia eu não escute mais isso”, pensava. Sem preconceitos, ela lembra que foi com Cidão que aprendeu a respeitar a todos, independente de sexo, idade ou raça.

Filha de músico, os privilégios artísticos, claro, foram muitos. “Quando nasci, meu pai fez uma música pra mim”, lembra Aline. Cidão integrou, ainda, a lista de artistas participantes do icônico evento palhocense Snoopy Festival, que embalou as noites musicais no Alto Aririú nos anos 1980. “Pessoa querida por todos os palhocenses”, comenta a filha. 

Michele Martins também lembra os luxos e desafios de ser filha de um dos compositores mais prestigiados de Palhoça. “Em minha adolescência, acompanhei sua trajetória em festivais, ganhava muitos na região. Sempre ouvia a frase: ‘Deve ser muito massa ser filha do Cidão’. Algumas vezes, pensava que nem tanto... Ser acordada às 2h ou às 4h para ouvir uma nova música que ele fez, nem sempre era agradável”, brinca. 

Aos 45 anos, ela tem orgulho de todo o empenho e carinho que o pai deposita na sua produção: “Hoje, sei que a música é o alimento da alma de meu pai, e a música, mais uma vez, vai fazer a diferença em sua vida”.


Perda na família
Em 2003, a família sofreu a morte prematura do caçula, Matheus, de 22 anos, em um acidente de moto. “A maior tristeza em sua vida até hoje, com certeza”, lamenta Michele. O nome bíblico foi uma promessa da mãe, já que Cidão queria muito ter um filho homem. 


Do rock ao futebol e ao AutoCAD
Arquiteto autodidata, Cidão também se dedica a esboçar linhas através do AutoCAD, um software para criação de projetos arquitetônicos. Desenhou até a casa do amigo de longa data e parceiro de empreitadas musicais André Luiz Luchi, que conhece há mais de 40 anos, desde a época do drive de lanches, o Cidão Lanches, no Centro de Palhoça. Era o point da cidade. 

Juntos, eles participaram do Snoopy Festival e de outros eventos que fizeram história na Grande Florianópolis. “Ele é um gênio. Ele é um guru, é o maior compositor que Palhoça já teve”, afirma André, que é advogado e músico. São mais de 150 composições feitas, segundo o amigo. “Deveria ser feita até uma compilação”, sugere.

O amor que nutre pelo Avaí, e que passou para toda a família, é um caso à parte. “Sempre me diz que, quando chegou à Grande Florianópolis, se encantou com um time de moleques que jogava com um uniforme azul, o Avaí, e passou essa paixão para seus filhos. Sempre íamos assistir aos jogos do Avaí na Ressacada”, recorda a filha Michele. 

Plantas e animais também têm lugar especial no coração do avaiano mais musical das terras palhocenses. Segundo Michele Martins, sua voz é capaz de fazer milagres. “Toda planta com que ele conversava ou cantava para ela, florescia... Às vezes, alguns parentes chamavam ele pra conversar com alguma árvore frutífera, pois não estava dando fruto, e depois de ouvir sua voz, suas canções, as frutas apareciam... Era algo mágico”, observa a filha.
“Ele me salvou” 

Foi Cidão França que acolheu André Luiz Luchi em um de seus momentos de maior instabilidade emocional, em 2013, quando se encontraram, por acaso, na rua. “Ele deu uma buzinada e um sorrisinho - eram seis horas da tarde do dia 24 dezembro de 2013. Ele me chamou e me mostrou uma música, poesia dele, que eu até já conhecia. Mas nós cantamos muito ela. A partir daí, comecei a ir muito à casa dele, quase diariamente, pegar uma dosezinha de alegria. Na verdade, eu digo que ele me salvou nessa época”, recorda.

A dupla chegou a gravar um CD, onde há duas músicas de Cidão: um tributo ao Raul Seixas e uma composição intitulada “Verdades”. 


Esperança
Há mais de 10 anos, Cidão teve uma isquemia leve. Nessa época, ele desaprendeu a mexer no AutoCAD da noite para o dia. “Mas aí voltou, e voltou a trabalhar”, lembra André. A esperança, então, é a de que a situação se repita desta vez. “Esta é um pouco mais grave, mas eu acredito, pelo que eu vi dele no hospital e pelo que eu vi no último laudo dele, ele cantando, balbuciando”, manifesta o amigo.

Uma das certezas é a de que a arte será crucial para o êxito do tratamento, assim como tem sido em todos os seus 70 anos de vida. “A música, o ouvir, o tentar cantar, para ele vai ser melhor”, diz o amigo. A filha Michele concorda: “Com a música, ele está superando esse momento difícil”. 

 

Como comprar

O vale antecipado para o carreteiro pode ser adquirido, pelo valor de R$ 25, através do telefone 99954-4827 (Aline) ou na loja Confecções Santa Rita, no Centro.
O evento é apoiado pelo jornal Palavra Palhocense, Gráfica Canal, Coloninha Futebol Club, Gorete Moda íntima, Cristiane Hillesheim, Confecções Santa Rita, vereador Luciano Pereira e Estefano Broering.

 

* Sob a supervisão de Alexandre Bonfim

 

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