Manifestação política em escola provoca polêmica

Aluno grava fala de professora e divulgação do áudio causa rebuliço nas redes sociais

a669a2951483c89b6a5770f69f0f6ca8.jpeg Foto: DIVULGAÇÃO

Texto: Isonyane Iris

Não precisou de muitos minutos para que uma publicação feita no Instagram do jornal Palhocense nesta segunda-feira (1) mexesse com os internautas - e dividisse opiniões. A postagem falava sobre um áudio gravado em sala de aula por um aluno do Colégio Visão, na Pedra Branca, mostrando uma professora se posicionado contra o candidato à presidência da República pelo PSL Jair Bolsonaro. A atitude da professora gerou polêmica, fazendo com que pais procurassem a instituição pedindo explicações e também o afastamento da docente; em contrapartida, alunos fizeram ato de protesto pedindo que a professora não fosse afastada. A equipe do Palhocense tentou entrar em contato com a professora, mas até o fechamento da edição, nenhuma resposta havia sido enviada. Por este motivo, omitiremos seu nome nesta reportagem.

O áudio foi gravado por um aluno do 8º Ano. Na gravação, aparece parte de uma fala da professora, onde ela expõe sua opinião política. Segundo relatos de uma aluna também do 8º Ano à equipe de reportagem do Palhocense, esse tipo de manifestação política dentro da sala de aula acontecia há algum tempo. “Já faziam algumas aulas que ela só falava sobre política e o pior é que ela não nos ouvia, só queria falar sobre a opinião dela. A professora entrou, fez a chamada e perguntou se estávamos com a apostila nova. Todos disseram que não tinha chegado ainda. Então, ela disse: vamos falar sobre política. Alguns alunos pediram para fazer Karrut (revisão da matéria, num jogo), mas ela disse que não, que queria falar sobre um fato histórico que aconteceu contra o Bolsonaro no sábado (29)”, conta uma das alunas que estava na sala de aula quando tudo começou, destacando que a professora teria falado por cerca de 40 minutos, sendo que apenas cinco foram gravados. 

A mãe da aluna confirmou a situação e inclusive lembrou que por muitas vezes a filha chegou em casa reclamando das aulas. “Na segunda-feira, minha filha chegou a pensar em sair da sala de aula, por não aguentar mais a professora falando de política. Ao ouvir o áudio, eu percebi que não foi um debate, foi uma imposição da opinião política dela, colocando o que ela acha e o que não acha, só que a forma que ela colocou para essas crianças foi absurda”, avalia a mãe, preocupada.

Alguns pais contaram que a insistência da professora em falar de política na sala de aula já tinha sido levada à coordenação. “Alguns alunos foram reclamar do que estava acontecendo nas aulas dela e pais também foram tirar satisfação, mas, sem provas, os alunos acabaram ficando como mentirosos. Diante disso, um dos alunos conseguiu gravar e provar como a professora estava sendo insistente no assunto e em dar sua opinião política”, relata uma das mães.

No mesmo dia, vários pais procuraram a instituição para pedir explicações e providências. “Quando eu cheguei à escola, a direção nem sabia ainda o que estava acontecendo, então levei o áudio e pedi que ouvissem. Quando ouviram, acharam um absurdo. Eu achei que o colégio tomaria uma providência, mas apenas enviaram uma nota informando que iriam verificar os fatos e que teria consequências, mas até agora a informação que temos pelos alunos é que a professora dará aula normalmente. Isso é um absurdo”, contesta uma mãe.

No áudio gravado pelo aluno, a professora fala de como ficou emocionada no ato #Elenão, realizado no sábado (29), em Florianópolis. “Por que é que tem tanta gente manifestando contra uma única pessoa, por que isso nunca aconteceu no Brasil? Então o que aconteceu sábado foi um fato histórico, foi emocionante, sábado teve uma passeata nacional contra o Jair Bolsonaro, porque domingo que vem são as eleições, e vai pro segundo turno, isso é certo. (...) Então, a manifestação foi contra um cara ou pessoas de forma geral, que apoiam ele, que adotam posturas fascistas, racistas, homofóbicas (...)”, diz a professora, em um trecho do áudio.

Alguns alunos teriam afirmado que o áudio gravado era apenas uma reposta da professora, pois ela teria sido questionada pelos alunos sobre sua posição política. Mas uma aluna da sala em que aconteceu a situação garantiu que em nenhum momento os alunos teriam perguntando sobre isso. “Não foi perguntado nada e nem questionado. Pelo contrário, queríamos jogar um jogo para revisão da matéria e a professora não quis, ela disse que queria falar de politica”, explicou a aluna.

Em outra parte do áudio, a professora conta sobre como reagiu quando soube que seu pai a criticava por sua posição política. “Conversei com minha mãe, ela me disse que meu pai, se souber que participei de um negócio desses, vai morrer do coração. Eu disse: então, infelizmente, vai morrer do coração. Porque meu pai tem que aprender a me respeitar pela adulta que sou, pela mulher que sou. (...) Sinto muito, temos opiniões divergentes. Então vocês estão nessa idade, a gente não é obrigado a concordar com os pais (...)”, fala a professora no áudio gravado. “Achei um absurdo o que e como a professora falou em sala de aula. São crianças, ainda, estão em formação. Falar para irem contra os pais, usar o termo ‘então ele vai morrer’ (se referindo ao pai), que tipo de educadora é essa? Já foi discutido política em outras turmas, mas de uma forma mais sensata, expondo todas as propostas de todos os candidatos e debatendo em sala, não impondo, fazendo uma lavagem cerebral nos alunos”, relata a mãe de outro aluno, reforçando que não é a questão de candidato “A” ou “B” e sim, a forma como a professora teria passando as informações.
Outros pais perceberam que os filhos começaram a ter um discurso ofensivo contra o candidato Jair Bolsonaro há alguns dias e isso teria chamado a atenção. “Não gostei, porque alguns dias antes do acontecido meu filho já tinha chegado em casa agredindo o candidato à presidência e falando palavras ofensivas, que não é do costume dele. Quando soube do ocorrido em sala de aula, logo liguei os pontos. O que está em questão não é o fato dela defender a esquerda, a opinião política dela tenho que respeitar. O que não aceito é o modo como ela colocou as coisas em sala de aula com alunos de 13 anos que ainda nem votam, incitando o confronto com os pais. Isso é inadmissível”, critica outra mãe, reforçando que os filhos precisam saber respeitar o voto do próximo sem agredir.

Outro pai de aluno, que é advogado, entende que a professora infringiu várias leis. “A começar pela Constituição da República, Código de Defesa do Consumir e Estatuto da Criança e do Adolescente, pelo menos dois artigos foram infringidos; e a Lei de Diretrizes e Bases do Ensino Nacional. Isso ela cometeu na sala de aula no dia em que tentou doutrinar os alunos em relação à manifestação do último sábado. Isso é doutrinamento político. Ela não poderia ter feito isso. Se até agora ninguém foi visitar o promotor público de Palhoça, isso tem que ser feito. Sou advogado, trabalho na área da família e estou estarrecido com o que está acontecendo. A professora fez errado e o aluno não cometeu crime nenhum em gravar a aula, a menos que estejamos num regime nazista, que eu acredito que não estamos ainda. Tirar filho de escola não adianta, porque logo essa professora vai estar dando aula em outro lugar”, declarou o pai, indignado com a situação.

 

Escola sem partido

Os pais pedem que a escola não tenha partido político, e que por isso tome as devidas providências diante da atitude da professora. “Quero que ela saia, é o mínimo que eu espero. Sabemos que errar é humano, mas também sabemos o quanto é importante ter uma escola sem partido. Não concordo que um professor possa se aproveitar dos alunos para dar suas opiniões, ela não está ali para isso. Está para ensinar Geografia, então que faça isso e não que tente influenciá-los”, exige um dos pais.

“Queremos uma escola sem partido. Professores não podem e não têm o direito de falar sobre suas opiniões políticas dentro da sala de aula. Uma coisa é ensinar, outra coisa bem diferente é fazer lavagem cerebral em alunos de 12 e 13 anos, crianças que ainda nem votam”, enfatiza outra mãe, reforçando que a atitude da professora precisa ser penalizada para que os demais docentes vejam a gravidade de uma atitude impensada.

 

#ElaSim

No mesmo dia em que ocorreu a divulgação do áudio, alguns alunos se manifestaram a favor da professora usando a #ElaSim, explicando nas redes sociais que a professora era uma excelente profissional e que não queriam que ela fosse afastada por conta da sua opinião política.

“A professora dá aula de Geografia, como profissional é excelente, traz para a sala de aula inúmeros meios de aprendizagem, músicas, slides, segue a apostila, sempre buscando atender todas as dúvidas e aplicando o melhor jeito de todos entenderem. Sobre política, como estamos no segundo ano do ensino médio, sempre foi um assunto polêmico, o qual falamos toda vez que possível. Afinal, nossa turma é constituída de opiniões totalmente opostas, e nunca houve caso de desrespeito partindo de alunos, muito menos de professores”, conta um grupo de alunas do 2º Ano que formalizou uma campanha #Elasim no site avazz.org. Até o momento do fechamento da edição, já eram mais de 1.140 assinaturas pedindo que a professora não fosse afastada do colégio.

“A professora sempre nos tratou de igual para igual, trata todos seus alunos como adolescentes formadores de opinião, e isso sempre fez com que ela fosse totalmente aberta conosco. Em nossa turma, ela nos dá liberdade para falar sobre tudo, escutando sempre todos os lados. Acreditamos que, por um meio emocional dela, acabou se alterando e falando um pouco a mais, mas vale lembrar que antes de professora, ela é humana, e todos erram. Acredito que ela já tenha aprendido, e se tocado do erro que cometeu”, afirma outra aluna.

“Realmente, minha filha fala o mesmo da professora. Eu não sou uma pessoa que quero destruir os outros, só acho que deveria ter um pedido de desculpa da professora para os pais. Uma fala diferenciada com relação ao respeito aos pais. Eu confesso que tenho medo do que ela fala em sala. Mas já está no colégio há quatro anos, realmente tenho pena desses alunos, pois realmente a professora deve ser muito boa”, comentou outra mãe, em um grupo de pais.

Outra aluna contou que seus pais são contrários à opinião da professora e que acharam que o discurso dela teve poder “influenciador” sobre os alunos, porém, concordam com a filha no seguinte quesito: “Prefiro escutar na escola opiniões políticas de professores, pessoas estudadas, cultas e que sabem o que estão falando, do que me basear em fake news, da qual nossa internet é cheia. Além do fato de não valer a pena perder uma professora maravilhosa como profissional por erro pessoal na área política”.

No dia seguinte ao ocorrido, pela manhã, alunos sentaram pelos corredores do colégio em forma de protesto a favor da professora. “A professora estava presente na escola por conta de uma reunião com o diretor e coordenador, não estava ciente sobre o protesto. Contamos com alunos do oitavo ao terceiro ano do ensino médio, todos a favor da professora como pessoa e profissional. Afinal, errar é humano, e faço a vocês, leitores, a seguinte pergunta: quem nunca errou? Exato. Ela errou e reconheceu. Não queremos perder ela como professora por questões políticas. Ela ficou na coordenação durante todo o protesto, estava muito abalada. Não comentou nada conosco! Mas esperamos por sua volta, todos nós a amamos”, declara uma das alunas que participou da manifestação.

“Sou mãe de uma aluna do ensino médio e também sou professora. Acredito que a educação tem o papel na formação integral dos estudantes e conforme a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, 9394/1996, a educação tem o objetivo de formação para a cidadania e exercício da criticidade. Esses princípios só serão alcançados a partir do debate e da construção de argumentos e posicionamentos. Por isso, a atitude da professora em sala, pautada na LDB, foi coerente e é o que espero para a educação da minha filha, tendo em vista que ela trouxe para o debate com os estudantes uma discussão de um movimento social ocorrido na Grande Florianópolis no fim de semana. Isso é o exercício da cidadania. Não espero menos da escola como espaço educativo”, explicou a mãe de uma aluna do Ensino Médio.

 

Ameaças

A mãe do aluno que gravou a fala da professora ficou preocupada com o filho, que tem sofrido ameaças de outros alunos, inclusive nas redes sociais, e o acompanhou até a escola nesta quarta-feira (3). Ela foi até a secretaria para cobrar uma posição da escola e dizer que se acontecesse alguma coisa com seu filho, a escola iria se responsabilizar. “Me garantiram que dentro do colégio ele estaria protegido, mas que da calçada para fora eles não poderiam se responsabilizar. Falaram ainda que tinham conversado com as turmas e que nada aconteceria com alunos e nem com a professora, porque todo mundo erra. E que a professora teria sido infeliz nas palavras, mas que é uma excelente profissional e que por isso não deve ser mandada embora ou afastada por uma atitude dessa.  Ainda disse que ela nunca teve uma reclamação e que não vai ser isso que vai fazer afastar a professora”, contou a mãe, decepcionada com a posição da escola diante do ocorrido.

Na mesma manhã, o aluno teria sido chamado até a coordenação para que um pedido de desculpas fosse feito à professora. “Pediram que ele pedisse desculpas para a professora, que dissesse que errou em gravar a aula dela, que fez um ato sem pensar. Meu filho fez isso e ainda disse que não gravou para prejudicar ela, e que gravou porque eu tinha pedido para ver o que estava sendo debatido dentro da sala de aula”, contou a mãe. 

Segundo relatos de alguns alunos, a professora voltou a lecionar suas aulas normalmente nesta quarta-feira, uma atitude que fez com que muitos pais pedissem uma explicação ao colégio sobre os pedidos para que ela fosse afastada. Em nota oficial, o Colégio Visão respondeu: “O Colégio Visão afirma que acredita no espaço para o debate saudável e democrático nas salas de aula. Da mesma maneira, reafirma seu compromisso em prezar pela neutralidade ideológica no ambiente escolar. O Colégio também acredita no reconhecimento do erro como forma de aprendizado, uma vez que houve esse reconhecimento dos excessos por parte da professora, decidimos pela manutenção dela no quadro de professores da escola. A instituição reforça que está sempre aberta ao diálogo com pais e alunos, e mantém seu compromisso de garantir a todos os seus alunos no presente o conhecimento e a formação para vida futura”.



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