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Café, Giz e Controvérsias - Edição 1.021

 

O banquete de novembro

 

É muito bom estarmos no mês de novembro, pois esse período nos aproxima do Natal — essa época mágica em que todos, como por encanto, passam a exalar esperança, bondade e frases prontas para postar no Instagram. Os eventos de final de ano, então, são um espetáculo à parte: um desfile de paz, amor, harmonia e justiça social… desde que tudo seja dito com filtro, iluminação suave e uma xícara de cappuccino na mão.
Curiosamente, a mensagem do Cristo — o aniversariante do mês —, aquela sobre amor ao próximo e reforma íntima, costuma ser lembrada com grande entusiasmo… até a entrada do buffet. Para quem eventualmente esqueceu, recordo uma passagem discreta dos Evangelhos:
“Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem (…)” — Mateus 5:44. Simples, direto, indigesto para alguns.
Mas sigamos ao evento. Chegamos — eu e minha linda e estonteante esposa — e fomos recebidos por rostos conhecidos e um clima tão maravilhoso que parecia anunciar a aurora da regeneração planetária. Abraços calorosos, beijinhos de bochecha cuidadosamente calculados, votos de paz em cada aperto de mão… se aquilo fosse sincero, eu teria testemunhado ali a revolução moral da humanidade. Fiquei até emocionado — o que, no meu caso, não quer dizer muito; eu choro até com palhaço de circo.
A recepção nos levou à mesa. Ao observar quem estava ali — líderes da OAB, dirigentes de Centros Espíritas, palestrantes renomados — senti minha alma vibrar. Pensei, quase em voz alta:
— Hoje o assunto será renovador e edificante!
Quase. Minha esposa, porém, ouviu:
— O quê?
Acontece que meu cérebro às vezes acha que é rádio comunitária: transmite sem aviso.
O começo da noite foi impecável. Conversas sobre projetos, cursos de oratória, ideias transformadoras. Tudo caminhava para um banquete filosófico — até o jantar chegar.
Aparentemente, há algo na comida que desperta o cavalo interior das pessoas. Bastou servirem as primeiras porções e um senhor, elegante até então, pegou uma coxa de frango com as mãos e lambeu os dedos com a dedicação de um recém-nascido descobrindo o próprio pé.
Logo depois, outro convidado proclamou — e posso afirmar que quase subiu num palanque:
— Vocês viram as redes sociais? O genocida foi preso!
Outro, sem perder o timing:
— Tomara que morra na prisão, aquele monstro!
Fiquei perplexo. Será que a paz, a harmonia e o amor do feed tinham validade de três horas? Minha esposa me cutucou:
— Vê se não opina sobre nada.
Obedeci. Fui ao buffet. Voltei. A conversa estava ainda mais acesa.
— Certamente estás feliz — disse outro —, porque o teu ladrãozinho está na presidência!
Levantei-me novamente, agora para buscar a sobremesa — que virou meu escudo emocional.
As rusgas persistiam. Eu permanecia mudo, incógnito, tentando comer sem ser convocado como mediador da ONU, quando um dos presentes virou para mim:
— Tu és professor, não é? Então diz o que pensas da Princesa Isabel.
Eu só queria comer meu arroz doce.
Mas larguei os talheres, respirei fundo e dei minha resposta fundamentada — afinal, sou professor de História, não dá para fingir Alzheimer moral nessas horas. Metade discordou, metade aplaudiu, e minha esposa me olhava como quem avalia a distância até a saída de emergência.
Foi então que busquei meu refúgio seguro, a literatura, mais precisamente: O Banquete, de Platão. Num instante, já não estava naquela mesa; estava entre Fedro, Pausânias, Aristófanes, Agatão, Sócrates e Alcibíades, todos disputando retoricamente quem entende mais sobre amor. Sócrates, claro, elevando tudo à esfera da Beleza e da Verdade — enquanto os outros brigavam para ver quem tinha razão. Senti-me em casa.
De repente, a retórica inflamável se dissolveu quando a música ambiente tocou Roupa Nova. Acordei do meu transe bem no refrão:
“Só o amor muda o que já se fez
E a força da paz junta todos outra vez (…)”
Foi como milagre. O grupo inteiro, que dois minutos antes planejava a guerra civil, agora sorria e falava sobre projetos para 2026.
Ah… como seria bom se todos os dias fossem assim: um milagre musical salvando a humanidade do próprio temperamento.



Publicado em 27/11/2025 - por Daniel Camargo Thomaz

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