Entre cartazes de amor e aplausos à violência
Por: Daniel Camargo Thomaz*
Caminhava pelos corredores da escola como quem atravessa um museu de contradições. Nas paredes, dois cartazes de sociologia disputavam minha atenção. O primeiro, Paulo Freire, em letras quase sagradas: “Enquanto a violência dos opressores faz dos oprimidos homens proibidos de ser, a resposta destes à violência daqueles se encontra infundida do anseio de busca do direito de ser”.
Logo abaixo, Lima Barreto, com a sutileza de um soco: “Só com a violência os oprimidos têm podido se libertar de uma minoria opressora, ávida e cínica; e ainda, infelizmente, não se fechou o ciclo das violências”.
Dois gigantes da literatura e do pensamento; ambos, curiosamente, com um pezinho na justificativa da violência. Contradição? Para mim, sim. Afinal, Freire também dizia que educar é um ato de amor — e, até onde sei, amor não costuma vir acompanhado de violência justificada. Mas vá lá… não vou discutir com cartazes.
Segui meu caminho, carregando uma dor de cabeça que parecia ter feito pós-graduação em persistência. Ao final do corredor, o oásis: café amargo e meu chocolatinho, prontos para me salvar do cansaço mental. Quem sabe até conseguisse terminar a leitura da semana.
Entrei na sala dos professores. Lotada, parecia que tinham distribuído ingressos gratuitos para um show de fofocas. Não havia cadeira livre. Peguei minha xícara, o chocolate e o livro. Tentei ler, mas a dor de cabeça e o burburinho me venceram. Foi então que, sem querer — juro —, ouvi uma conversa que faria qualquer roteirista de série policial fazer anotações para a criação de personagens.
— Olha só que máximo — dizia uma colega, com o entusiasmo de quem anuncia um sorteio de carro zero. — Na escola onde trabalho de manhã, tinha um garoto incomodando, roubando e arranhando os carros dos professores. A diretora chamou o “disciplina” da comunidade. Foi mais rápido que qualquer remédio pra dor de cabeça. O menino sumiu por uma semana e, quando voltou, estava pianinho, mal respirava. Acho tão importante a função dos “disciplinas”... afinal, o Estado nem dá bola pra eles.
Sorri por fora, gritei por dentro. “Disciplinas” — eufemismo para capangas do tráfico —, cuja função é manter a “ordem” para que nada atrapalhe os negócios. Saí da sala e minha mente de neurodivergente surtou, queria gritar, chamar a atenção dos colegas que praticamente aplaudiram a violência de um poder paralelo.
Fui para uma sala de aula vazia. Os alunos estavam no intervalo, e o silêncio era quase um milagre. Liguei o notebook. Primeira notícia na tela, em letras gritantes: “Comerciante é assassinado após pagar R$ 400 para facção”.
Li atentamente e o rapaz tinha um ponto de venda de espetinhos no bairro, que é controlado pela facção, e ele foi morto porque o Comando Vermelho aumentou a mensalidade de R$ 400 para R$ 1.000.
Meu sangue ferveu. Quis voltar à sala dos professores, arrancar os cartazes de sociologia e jogar o notebook sobre a mesa, com a foto do rapaz estampada, gritando para mostrar que esse “estado paralelo” não protege ninguém — ele extorque, domina e mata. Mas não o fiz. Viva os remedinhos para controlar a impulsividade.
Ainda assim, a indignação queimava. Já não basta a burocracia e a carga tributária que sufocam o pequeno empreendedor; ainda temos que assistir aos mais humildes sendo explorados por traficantes e milicianos. E o pior: sempre há quem justifique, desde que a “paz” aparente seja mantida.
Pensei na sociedade que aplaude autores que defendem “a lógica do assalto” ou que declaram ódio à classe média — justamente quem paga os impostos que financiam pesquisas e a educação. O que esperar? Talvez um reality show sobre ética, apresentado por milicianos e patrocinado pelo crime organizado.
Respirei fundo. Mordi o chocolate, sorvi o café amargo. Peguei o livro da semana: “A rebelião das massas”, de José Ortega y Gasset. Li alguns minutos e refleti: as massas aceitam o discurso de “ordem” como máscara. Por isso, tanto milícias quanto certos abusos estatais se justificam com a retórica de “proteger o cidadão” ou “restaurar a paz”. Ortega adverte: a massa aceita slogans prontos, sem questionar quem define essa “ordem” e a que custo.
Mais um gole de café, mais uma mordida no chocolate. Ortega também diz que muitos usam ideias como trincheiras para se proteger da vida, afastando a realidade. Fechei o livro. Nada como uma boa leitura para perdoar e compreender a visão distorcida da maioria — que nem sabe por que luta, mas insiste em lutar. E, claro, sempre com um cartaz bonito na parede.
* Professor e escritor, membro da Academia de Letras de Palhoça, atua nas áreas de Língua Portuguesa, Literatura e História. Autor de livros como "Fábulas para o século XXI", "La Befana – um conto de Natal", "Caco em busca da felicidade", "Não se Iluda" e "Uma escolha, um destino"
Publicado em 28/08/2025 - por Palhocense