0ac3a0835b41e5b16caff3b32ff14882.jpg Com adesão recorde, Santa Catarina encerra maior simulado de desastres do Brasil

813ef60090e1b47463a99f8adb44bc00.jpeg IMA descarta poluição como causa da morte de peixes em Palhoça

8303186e49e5e2826970710239a3acb2.jpeg Escritórios de contabilidade são surpreendidos com autuações que ultrapassam R$ 300 mil em Palhoça

b0e9adcf48fe7d543a13e5874470d0f4.jpeg Planning Comunicação completa um ano de atuação em Palhoça

608a09476df945d09c3d51a379a0f46a.jpeg Cuidado e arte: pintura gestacional é oferecida a gestantes de Palhoça

452d7b2221ac94714721c3a11b48eac6.jpeg Filme palhocense ‘Presente’ terá sessões gratuitas em diferentes pontos da cidade

8e7014fb432b9e4e96130d5d5b12af18.jpeg Palhoça tem programação para todos os públicos, em diversos pontos

77577611f48e142ca7b3afc143f1716f.jpeg Amaro Junior celebra os 98 anos de fundação do Guarani de Palhoça com festa e inauguração de quadra

3460b75d46c7d95d023ba991e14b128e.jpeg Jiu-jitsu ao alcance de todos: projeto social oferece aulas em dois núcleos em Palhoça

815e2c79201e1010aef78b887dc69bce.jpeg Marcos Túlio: atleta com história em Palhoça e carreira internacional é destaque na Gulf Magazine

a62d71eacd620a8b2ddf86663168c46f.jpeg Águas de Palhoça reforça a importância da caixa padrão para os hidrômetros

da66a669635433d02234aeb153528297.jpeg Boia da caixa d'água: um pequeno componente com grande importância

ec46f7216e9f0d1eef5ceb5cb09c583f.jpeg Alerta: “gato” na ligação de água é prática irregular

Encontos & Desencrônicas - Edição 1.010

 

Passeio ao parque: uma aula de realidade

 

Por: Daniel Camargo Thomaz*

A escola organizou uma saída de campo. Um momento de reconexão com a natureza, disseram. As crianças iriam correr livres, respirar o ar puro e brincar entre árvores, flores e brinquedos coloridos. Um cenário quase bucólico — se ignorarmos que estamos no século XXI, onde até o verde parece pedir licença para existir.
Ao chegarem à praça, os professores se depararam com uma placa recém-instalada pela prefeitura. Um aviso, digamos, cordial:
“AVISO! Senhores usuários de drogas, POR FAVOR, respeitem a presença das crianças e dos idosos!”
Sim, você leu certo. Não era uma campanha de prevenção, nem uma ação educativa. Era um pedido gentil, quase um convite à civilidade entre tragadas. A distopia de Huxley, com seu “soma” distribuído pelo Estado, parece brincadeira de criança perto da nossa realidade — onde o uso de drogas é tão normalizado que até ganha etiqueta de boas maneiras.
Enquanto os professores tentavam manter a ordem, um cheiro peculiar invadia o ar. 
Um aroma de açúcar queimado e vencido, misturado ao azedo de fruta passada e folhas úmidas esquecidas num canto escuro. As crianças franziram o nariz. Os adultos se entreolharam e perceberam que logo ao lado, nos bancos da praça, um grupo de adolescentes e dois adultos fumavam com a tranquilidade de quem ignora avisos e leis com igual desdém. 
— Junta as crianças, rápido! — disse uma professora mais experiente, já prevendo o escândalo que os pais fariam.
— Ah, que vontade que dá! — murmurou uma jovem educadora, talvez infectada pelos personagens de Gibson no livro “O Preço da Vida”, onde drogas moldam comportamento e percepção num futuro hiperconectado — muito parecido com o nosso. Um futuro em que o vício é pano de fundo da rotina — e a alienação, uma escolha estilizada.
Futuro? Talvez já estejamos lá. Afinal, não muito longe dali, em Brasília, um casal foi preso por vender drogas a menores de idade. E como se não bastasse, ofereciam brindes temáticos: Esqueleto de peixe para cocaína, Raios para ecstasy e lindos Flocos de neve para haxixe e lança-perfume. Uma espécie de fidelização do cliente — porque até o tráfico, veja só, aderiu ao marketing afetivo.
O passeio, que deveria ser uma aula de ecologia, virou uma aula de sociologia urbana. As professoras tentavam dispersar as perguntas das crianças:
— Tia, que cheiro é esse?
— Deve ser da grama molhada, meu amor.
— Parece peixe podre...
— É... o parque tem muitos bichinhos.
Foi então que uma menina, de olhos arregalados e voz curiosa, perguntou:
— Tia, se isso faz mal, por que os adultos fazem?
A pergunta pairou no ar como o cheiro — incômoda, persistente, impossível de ignorar. As professoras se entreolharam, mas nenhuma resposta parecia suficiente. Afinal, como explicar que o mundo ensina uma coisa e pratica outra?
Hipocrisia? Talvez. Ou apenas sobrevivência pedagógica. Afinal, como explicar que o Estado pede “por favor” aos usuários, enquanto a escola tenta ensinar respeito, saúde e cidadania?
No caminho de volta, o silêncio era mais pedagógico que qualquer palestra. E a pergunta que ficou no ar — junto com o cheiro — era: até que ponto já não vivemos em uma distopia?

* Professor e escritor, membro da Academia de Letras de Palhoça, atua nas áreas de Língua Portuguesa, Literatura e História. Autor de livros como "Fábulas para o século XXI", "La Befana – um conto de Natal", "Caco em busca da felicidade", "Não se Iluda" e "Uma escolha, um destino"



Publicado em 11/09/2025 - por Palhocense

btn_google.png btn_twitter.png btn_facebook.png








Autor deste artigo


Mais vistos

Publicidade

  • ae88195db362a5f2fa3c3494f8eb7923.jpg