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Projeto estudantil ganha prêmio nacional

Estudantes do Caminho Novo reproduzem experiências de vítimas do nazismo com fotografias

dce3ad78933dc722dd10d64a393215a5.JPG Foto: NORBERTO MACHADO E DIVULGAÇÃO

Texto: Elaine Manini

“Lembrar as coisas que a sociedade quer esquecer.” Para o professor de História Robson Fernandes, esta é uma das razões que o levaram a conduzir o projeto “Foto-semelhança”, premiado nacionalmente pelo Museu do Holocausto de Curitiba, com a temática “O trabalho infantil: do Gueto de Lodz aos dias de hoje”. O projeto foi realizado por 34 alunos das turmas de 9º ano da escola Ursulina de Senna Castro, no Caminho Novo. “Saber que havíamos ganhado um prêmio nacional foi uma alegria imensa, por ver nosso trabalho sendo valorizado”, diz a estudante Brenda Costick, de 14 anos. “Isso mostra que mesmo sendo alunos do nono ano de uma escola pública, conseguimos nos esforçar e mostrar nosso trabalho”, completa a colega Aline Eger.

A prática pedagógica começou na metade de março e resultou na exposição das fotos nos murais da escola nesta segunda-feira (20). O professor fala que a ideia foi incentivar a leitura da história através de fotos reais e “fazer dos alunos pesquisadores, trabalhando em conjunto com diversas áreas, valorizando o conhecimento de mundo deles e práticas do seu cotidiano”. “A foto é um elemento presente em suas vidas”, diz. Sobre o significado da fotografia para a história, ele explica: “Quando a fotografia nasceu, ela representava a dimensão de uma perspectiva de vida em que as pessoas são os próprios sujeitos do processo. Na história, ela traz um sentido muito forte, porque é um retrato final. Aprender a lê-las ajuda a compreender melhor a história e o modo como o conhecimento foi produzido ao longo dos tempos, por exemplo, como ela influenciava durante a Segunda Guerra, trazendo presente a figura do “führer”, e também ajuda a reconhecer o nosso lugar no mundo e o nosso papel como sujeitos da história”.

Na proposta apresentada, os alunos tiveram que pesquisar uma foto com legenda do Gueto de Lodz e reproduzi-la, aproximando-se ao máximo da fotografia original. Lodz foi o segundo maior gueto de judeus sob domínio nazista depois de Varsóvia, e importante centro industrial para a guerra da Alemanha, pela alta produtividade, com trabalho escravo e infantil. No primeiro momento, para contextualizar a atividade, as aulas expositivas abordaram o conteúdo programático da Segunda Guerra Mundial; a emergência do fascismo e a consolidação dos estados totalitários; o Gueto de Lodz, cenários e atividades de quem lá estava; o holocausto e as práticas de extermínio; questões sobre o trabalho infantil, o pós-guerra, a criação da ONU e dos direitos humanos e direitos das crianças e dos jovens. 

Na segunda parte do projeto, os alunos tinham que observar com detalhes as cenas e substituírem pelos seus os rostos das crianças e adolescentes que viveram este período, dando-lhes novas caras. Um questionário orientou a investigação, com o objetivo de ler a história contida nas fotografias, através de perguntas sobre os “traços visíveis e invisíveis” das personagens estampadas; a postura das personagens diante da câmera, para onde ela olha e a expressão; diferenças e semelhanças com outros retratos; o cenário e os significados desse “pano de fundo”. 

Por fim, os estudantes apresentaram o trabalho e relataram seus aprendizados e experiência. Para a aluna Giselly Sipriano, de 15 anos, o que mais chamou a atenção foi o que eles passaram naquela época e como tudo isso aconteceu, e como as pessoas poderiam fazer outras pessoas passarem por esse tipo de coisa? “O que mais me marcou foi o resultado na fotografia impressa”, expressou. Para o aluno Phillipe Caraça, de 14 anos, o que mais marcou foi o fato de que as crianças eram obrigadas a trabalhar e que eram “mortas por tão pouco”. “Como o ser humano é tão terrível que não pensa no sentimento do próximo? Isso é de partir o coração, pois pessoas que não tinham nada a ver com o erro dos outros sofrem e isso ocorre até nos dias de hoje”, refletiu.

Com o trabalho, Robson diz notar que os alunos ficaram mais participativos. Para Giselly, “a dificuldade maior foi achar as pessoas parecidas com os personagens”. Já Phillipe achou mais difícil fazer o cenário, pois tinha que achar algo que deixasse parecido com a foto original. Os alunos são unânimes em dizer que a atividade prendeu a atenção e ajudou no aprendizado. “Foi complexo, porque precisávamos utilizar muito da nossa criatividade, mas foi bastante interessante, pois nunca tínhamos feito algo assim”, diz Aline. Brenda acrescenta: “É importante que as aulas não sejam sempre iguais, para que não fiquem chatas e tenhamos vontade de saber mais sobre o assunto. Eu, particularmente, sou uma pessoa que me disperso muito rápido, e neste trabalho, por ser algo que desafiasse a minha criatividade, me concentrei mais. Curto fotografia e acho um trabalho interessantíssimo”.

O professor diz que também percebeu os alunos mais críticos, conseguindo relacionar as situações históricas com os dias atuais: “A partir dessa análise, eles passaram a pensar como pesquisadores. Quando questionei sobre os dias de hoje, eles falaram que o que a gente mais vê são as crianças vendendo balas no semáforo e levantaram problemas da questão. O impacto maior do projeto é refletir para que isso não venha a se repetir”.

Eleito duas vezes “professor nota dez” pelo governo federal, Robson já acumula alguns prêmios na educação. Todo ano, em seu planejamento pedagógico, inclui uma atividade que traz uma nova abordagem sobre os temas curriculares e transversais. “Atuar, pensar e participar faz com que o mundo se torne mais tolerante, respeitoso, investigador e contestador”, pondera. O professor também fala que sempre que tem a oportunidade participa desses concursos e prêmios: “É um reconhecimento de que esses projetos estão indo pelo caminho certo e uma forma de valorização dos professores que conseguem atingir os alunos. Isso vem a fazer que eu continue lutando pela educação. Não é questão de se sentir ‘o melhor’. Muito mais do que um reconhecimento pessoal, é um reconhecimento de que a educação pública ganha”, completa.

 

O Gueto de Lodz

Tropas alemãs ocuparam Lodz em setembro de 1939. A cidade possuía a segunda maior população judaica da Polônia no período anterior à Segunda Guerra.

No início de fevereiro de 1940, os alemães criaram um gueto no local, e nele concentraram mais de 150 mil judeus em uma área de apenas 3,8 quilômetros quadrados.

Entre os anos de 1941 e 1942, mais de 40 mil judeus da Europa central e 5 mil ciganos também foram forçados a viver no gueto, já superlotado.

Entre os meses de janeiro e setembro de 1942, mais de 75 mil judeus daquele local foram deportados para o campo de extermínio de Chelmno. As chances de sobrevivência imediata dos adolescentes, judeus e não-judeus, entre 13 e 18 anos, eram maiores, porque podiam ser enviados para o trabalho escravo.

Lodz transformou-se em expressivo centro industrial para a guerra da Alemanha. Pela alta produtividade, existiu, até agosto de 1944, quando os remanescentes foram levados a Auschwitz, último campo de concentração liquidado.



Galeria de fotos: 3 fotos
Créditos: NORBERTO MACHADO E DIVULGAÇÃO NORBERTO MACHADO E DIVULGAÇÃO NORBERTO MACHADO E DIVULGAÇÃO
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