8303186e49e5e2826970710239a3acb2.jpeg Escritórios de contabilidade são surpreendidos com autuações que ultrapassam R$ 300 mil em Palhoça

b0e9adcf48fe7d543a13e5874470d0f4.jpeg Planning Comunicação completa um ano de atuação em Palhoça

258c0d6f9b1a3c347f62d8b35a5113df.jpeg Alagamentos mobilizam equipes da Prefeitura e dos Bombeiros

6c71bc211e287a2f5ab766b5feab88fb.jpg Jean Negão defende subsídio ao transporte, mas exige renovação da frota como contrapartida

608a09476df945d09c3d51a379a0f46a.jpeg Cuidado e arte: pintura gestacional é oferecida a gestantes de Palhoça

452d7b2221ac94714721c3a11b48eac6.jpeg Filme palhocense ‘Presente’ terá sessões gratuitas em diferentes pontos da cidade

8e7014fb432b9e4e96130d5d5b12af18.jpeg Palhoça tem programação para todos os públicos, em diversos pontos

77577611f48e142ca7b3afc143f1716f.jpeg Amaro Junior celebra os 98 anos de fundação do Guarani de Palhoça com festa e inauguração de quadra

3460b75d46c7d95d023ba991e14b128e.jpeg Jiu-jitsu ao alcance de todos: projeto social oferece aulas em dois núcleos em Palhoça

815e2c79201e1010aef78b887dc69bce.jpeg Marcos Túlio: atleta com história em Palhoça e carreira internacional é destaque na Gulf Magazine

Café, Giz e Controvérsias - Edição 1.018

 

O retrato que não queremos ver


Pensei, sinceramente, que depois de uma semana cheia de atividades excelentes na escola e na vida pessoal — momentos de satisfação, emoção e até de sucesso — o mundo estivesse um pouco diferente. Mas as redes sociais e o convívio com pessoas não nos deixam esquecer a realidade da nossa humanidade.

Enquanto sorvia meu café amargo e mordiscava um chocolate igualmente amargo e delicioso, ouvia as conversas na sala dos professores. O ambiente exalava as tardes de escola: o relógio com tic-tac seco; o ar condicionado que reclamava; papéis empilhados no canto; o cheiro de borracha de apagador misturado ao aroma de café. Havia um ruído de fundo de risos contidos e cadeiras sendo arrastadas, e as vozes dos colegas recortavam-se no espaço como lâminas.

— Vocês viram só a “chacina” que aconteceu ontem no Rio de Janeiro? — começou alguém, e a discussão ardeu. Uns proclamavam que não havia chacina, afinal os mortos eram criminosos. Outros, em tom militante, diziam que fora uma tentativa de exterminar a população negra das favelas. Um terceiro defendia que eram apenas quatro vítimas, como se números tornassem menos humanas as vidas perdidas.

O botão do meu hiperfoco acendeu-se como sempre: sem aviso, sem alarde. Tentei parecer imerso em meu mundo subterrâneo — o café, o chocolate, o livro do momento, O Retrato de Dorian Gray — enquanto, secretamente, abria o navegador no computador. Li quatro, cinco, seis matérias. Coloquei um fone e ouvi depoimentos. Fiquei assustado. O que me perturbou não foi apenas o fato noticiado, mas a articulação do discurso que celebrou, silenciosa ou ruidosamente, aquela tragédia.

Já critiquei antes a perversidade humana quando aconteceu o assassinato de Charlie Kirk, e não consigo evitar as reflexões: mortes são mortes. Há diferenças de contexto, é claro. Um debatia publicamente; outros escolheram o crime como caminho. Ainda assim, celebrar mortes é uma tristeza que corrói a civilização aos poucos.

Observem: penso que a vida é feita de escolhas. Se alguém escolhe a violência como projeto de vida, colherá violência. Não estou defendendo criminosos; estou assombrado pela festa que alguns fazem quando seus antagonistas morrem. Como no retrato de Dorian Gray, que vai acumulando a feiúra da culpa enquanto o rosto que exibimos ao mundo permanece imaculado, essa alegria é um espelho quebrado que reflete outra face: a incapacidade de compaixão.

Continuei pesquisando e achei contradições que doíam de tão óbvias. O Governo Federal, dizem as notícias, não teria apoiado a operação com equipamentos que auxiliariam no combate ao crime organizado. O Presidente declarou que não haveria GLO em seu governo, mas autorizou o uso das Forças Armadas na COP30. O Ministro da Justiça, por sua vez, cedeu blindados para combater o tráfico de animais silvestres; resgataram 49 aves em maus-tratos. As manchetes pulavam de escândalo em escândalo, e eu sentia a dissonância como um ruído grave: prioridade declarada aqui, omissão ali; febre de moralidade seletiva.

Nesse instante, um grito trouxe-me de volta à sala. Retirei o fone. Alguém — com voz trêmula e um ódio que não cabia no corpo — explodiu:

— Pra mim chega, vocês não veem que isso é puro racismo? Um genocídio fascista!

Olhei ao redor. A maioria ali era branca. Mantive silêncio. Voltei ao meu fone, escolhi música calma, e pensei no retrato de Wilde: que retratos escondemos em nossas casas? Cada professor ali talvez guardasse uma tela deformada por segredos, por hipocrisias, por pequenas concessões morais que, acumuladas, tornam o rosto irreconhecível.

A sinalização de virtudes não passa de fachada quando desejamos o mal do outro. A vida de todos importa, não apenas a de grupos que nos convém ver como vítimas ou vilões. Enquanto persistirmos no egoísmo que exalta “o eu” e estigmatiza “o outro” como sujo, podre e corrupto, a razão seguirá sendo impotente diante das mesquinharias que silenciarão qualquer esforço coletivo.

Peço, com veemência e sem teatralidade, que reflitam: não vivemos isolados. Somos responsáveis pelas escolhas que fazemos e pelos gestos — grandes ou ínfimos — que legitimam ou condenam. Como mudar isso? Começa quando deixamos de ver nos outros apenas erros e começamos, de verdade, a corrigir os nossos.

E, por favor, antes de apontar dedos e carimbar alguém como opressor, perguntem-se: será que não somos nós, com nossas justificativas e absolvições, que ajudamos a manter a máquina de violência funcionando? Quando entendermos que a empatia não tem lado, talvez consigamos arrancar os retratos deformados que insistimos em esconder.

 



Publicado em 06/11/2025 - por Daniel Camargo Thomaz

btn_google.png btn_twitter.png btn_facebook.png








Autor deste artigo


Mais vistos

Publicidade

  • ae88195db362a5f2fa3c3494f8eb7923.jpg