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Café, Giz e Controvérsias - Edição 1.023

 

Fim de ano, o contrato social e o Leviatã

 

Esta semana está incrível na escola! Fico muito feliz em observar estudantes que orientei com tanto esmero apresentando desempenhos tão satisfatórios nas redações dos vestibulares deste imenso mundão. Totalmente entusiasmado, penso que meu trabalho foi realmente bem-sucedido.
Claro, parte dessa empolgação também vem do fato de que não tenho aulas efetivamente: estamos na última semana do ano letivo, e a prioridade dos estudantes é o Interclasses. Ou seja, o clima na escola mistura cansaço, eco de bolas quicando na quadra, gritos abafados no corredor e aquele cheiro eterno de café requentado que parece habitar todas as salas dos professores do planeta.
Com essa alegria meio inocente — ou talvez meio delirante — pego minha bolsa com vários livros sobre o Iluminismo e sigo para a sala dos professores. Já imagino o que me espera: conversar fora, rir dos times dos colegas que foram rebaixados, criticar a arbitragem brasileira ou falar bobagens desconexas que não servem para nada. Certo?
Sinto dizer: errado.
Não sei por qual motivo professores acreditam que precisam sinalizar virtudes ideológicas e políticas dando indiretas dentro da sala dos professores. Alguém responde!? Parece uma regra silenciosa: se há café, alguém precisa criticar o governo — não importa qual.
Entro sedento por uma xícara de café e, antes mesmo de alcançar a garrafa térmica, ouço:
— O Bozo indicou o filho, que coisa ridícula!
— Viram que a tal paralisação dos caminhoneiros não deu em nada? Chupa, fascista!
E outro rebate:
— Pior é o roubo escancarado do INSS! E ainda há quem defenda esse governo!
E o terceiro devolve, esbravejando:
— Para aí, militante de golpista!
O quê? Militante de golpista?
Refletindo bem, penso: mensalão, petrolão, INSS e Banco Master! Quanta santidade…
No instante seguinte, talvez por falta de café, de cacau e de açúcar, dei uma pequena surtada. Quando percebi, chamei a atenção de todos com um:
— Até parece que tem santo na política!
Todos me olharam. E, num ato que só pode ser descrito como um desvio de rota absolutamente típico — ou atípico, como está na moda — soltei:
— Vocês viram que o Bernardo entregou o trabalho de recuperação? Por que ele não fez isso o ano inteiro?
Sim, sei exatamente o que todos pensaram: “Só pode ser o Daniel mesmo… não fala nada com nada.” Mas, curiosamente, funcionou. A conversa tomou outro rumo. Em poucos minutos, todos estavam reclamando de alunos. Ah, vitória!
Mas meu cérebro, com seu hiperfoco em problemas, insistia em voltar ao assunto inicial. As discussões inflamadas, os dedos apontados, as acusações de “golpista”, “militante”, “fascista” ecoavam como ruído de fundo, mesmo depois que a sala se encheu do cheiro de café e do tilintar das xícaras.
Então sentei, abri o computador, peguei um dos vários chocolates que ganhei dos alunos e, com o café quentinho, iniciei minha pesquisa. Ora, precisava entender o que estava de fato acontecendo.
Pesquisei sobre o escândalo do INSS e ele foi gigantesco — impossível não criticar. A Polícia Federal abriu centenas de inquéritos e prisões, revelando fraudes milionárias que atingiram aposentados em todo o país. O presidente do INSS foi demitido, servidores afastados, e o Congresso corre para criar leis que protejam os mais vulneráveis.
Descobriu-se um esquema de lavagem de dinheiro, empresas de fachada e enriquecimento ilícito, tudo com ramificações políticas e empresariais. Entre os envolvidos, Maurício Camisotti e Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, movimentaram milhões em fraudes e enriqueceram rapidamente usando empresas de fachada. Parte do dinheiro foi recuperada, mas o esquema mostrou como o sistema pode ser facilmente burlado.
Olhei para meus livros sobre a mesa e pensei em Jean-Jacques Rousseau e Thomas Hobbes, que defenderam arduamente o Estado como o único capaz de cuidar da população em seus escritos sobre O Contrato Social. Mas será mesmo que não estamos dando poderes demais ao Leviatã estatal?
Mordi o chocolate, sorvi um gole do café amargo e devo ter feito uma expressão bem estranha, porque um dos colegas perguntou, rindo:
— Está pensando nas contas para pagar, Daniel?
Se soubessem…

 



Publicado em 11/12/2025 - por Daniel Camargo Thomaz

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