
A janela fechada: redação com porta entreaberta
Quando voltei ao trabalho, a escola parecia exatamente a mesma: paredes amareladas pelo sol que insistia em invadir as janelas, carteiras desalinhadas como soldados cansados e um corredor tão silencioso que até Sêneca, se ali estivesse, teria perguntado se todos já haviam alcançado a vida útil ou apenas estavam adiando a existência.
Eu, por outro lado, voltava cheio daquela empolgação meio suspeita que nos dá quando acreditamos, ainda, que é possível ser útil no mundo. Entrei na sala com o entusiasmo de quem reencontra o palco. Respirei fundo e murmurei para mim mesmo:
— Que maravilha!
A maravilha durou até a coordenação me chamar para “uma conversa”. E, veja bem, a palavra conversa sempre carrega um aroma de possibilidade. Mas naquele dia, confesso, senti um cheiro sutil de encrenca misturado ao cafezinho requentado que repousava na mesa.
A sala da coordenação estava fria. Não fria de temperatura — fria de intenção. Sentaram se diante de mim com aquele ar cerimonioso que geralmente antecede as coronárias pedagógicas. E foi então que o pedido veio, delicado como papel lixa:
— Seria interessante evitar certos assuntos nas aulas de redação… História, política, sociedade, religião, economia… sabe como é.
Pensei: “O difícil é que a lucidez pesa e o saber, às vezes, cobra um tributo silencioso.”
Distraí-me, o que é comum, e enquanto eles falavam, observei uma mosquinha que tentava escapar pela janela fechada. Ela esbarrava, insistente, na mesma superfície invisível. E juro: senti que estávamos conectados por um destino comum.
Meu cérebro, rebelde, começou a narrar a situação como se eu fosse personagem de um romance renascentista. Enquanto a mosca lutava do lado de cá, eu recordava Leonardo, aquele senhor que tinha a ousadia de estudar pintura, hidráulica, anatomia e o que mais lhe atravessasse o caminho. Se ele vivesse hoje, talvez tivesse de assinar um termo de compromisso prometendo não ofender fronteiras disciplinares.
— Só precisamos evitar que suas aulas invadam outras áreas — repetiram, com um sorriso quase terapêutico.
Eu pensei em perguntar se escrever sobre nuvens ofenderia a meteorologia, ou se mencionar o amor poderia gerar um incidente diplomático com a filosofia. Mas respirei. Sêneca aparecia em uma nuvem sobre a minha cabeça, sussurrando que perder tempo com tolices é viver como morto.
Então sorri. Daquele sorriso que só os professores que já viram tudo conseguem dar. E concordei balançando a cabeça, como quem aceita a existência da gravidade, mas ainda assim tenta voar.
Ao sair, a mosquinha finalmente encontrou a fresta e escapou. Acompanhei seu voo torto e pensei: talvez ela tenha mais liberdade intelectual que eu naquele momento.
Voltei para a sala de aula decidido: não seria mártir, nem rebelde, nem monge copista refugiado em catacumbas. E foi caminhando de volta para minha sala que uma ideia me atravessou — dessas que chegam devagar, mas estalam como trovão. Pensei que talvez estivéssemos precisando de um novo Renascimento, um desses que devolvem cor às paredes e musculatura às ideias. Ultimamente, ando abrindo certos livros didáticos com a mesma sensação de quem abre a geladeira em dia de tempestade: só encontro friagem, desgraça e uma coleção de azedos.
Falta luz, falta grandeza, falta aquele sopro antigo de gramática, retórica, poesia e filosofia moral que os clássicos sopravam com naturalidade, como quem acende lamparinas nas mentes distraídas. Tenho a impressão de que trocamos as grandes questões da humanidade por textos que apenas ensinam a cultivar rancores frescos — agora embalados a vácuo e com data de validade pedagógica.
Nessas horas, lembro sempre de Sêneca, que insistia que o tempo é curto demais para gastarmos energia colecionando ofensas. Ele diria, com sua elegância estoica, que é melhor dedicar a vida ao que é útil — e raramente a utilidade se encontra nos rituais de evitar temas para não ferir susceptibilidades acadêmicas. Talvez a utilidade consista em plantar uma pergunta silenciosa dentro da mente dos alunos.
Afinal, se não posso falar claramente sobre certas coisas, posso pelo menos ensinar a fazer perguntas.
E, no fim das contas, perguntas são animais selvagens e escapam por qualquer fresta.
Publicado em 05/02/2026 - por Daniel Camargo Thomaz