
No futebol, no Carnaval, somos iguais?
Acredito que todos que me conhecem um pouco mais sabem do meu amor por futebol. Não é exagero: sou um apaixonado incurável por um clube que, desde cedo, costurou em mim valores emocionais e laços profundos com meu pai. Era o nosso idioma secreto, nossa religião doméstica.
Mas, ultimamente, confesso que ando entristecido. O clube do meu coração — assim como tantos outros — virou apenas um número numa planilha, um figurante num espetáculo midiático que escancara, sem pudor, corrupção na arbitragem e manipulação de resultados.
Diante disso, triste e meio acanhado, desvio meu hiperfoco para os estudos, leituras e o cotidiano político. Troco o barulho do estádio pelo silêncio da mesa de trabalho, onde o café esfria enquanto tento entender o mundo. Porém, quanto mais aprofundo leituras, analogias e pesquisas filosóficas, historiográficas, sociais, literárias e geopolíticas, mais percebo algo perturbador: as pessoas tratam o mundo inteiro como se estivessem torcendo por um clube de futebol.
E isso, ao menos para mim, parece impossível. Futebol é entretenimento; o restante deveria ser ciência, observação, conhecimento, lógica racional. Mas a sociedade insiste em interpretar tudo de forma passional, irracional, quase infantil.
Para tentar contextualizar — e aqui imploro aos leitores que sejam racionais, pois não é torcida, não é entretenimento e muito menos cultura — proponho uma pequena analogia. Imagine um campeonato nacional em que os times disputam sob o mesmo regulamento — pelo menos na teoria. Na prática, porém, o árbitro interpreta cada lance de forma diferente dependendo de quem está em campo.
Assim, um certo “bozo” faz um discurso no 7 de Setembro, algo natural desde o início da República, mas o TSE decide que aquele discurso cívico teve caráter eleitoral antecipado. Depois, decisões judiciais impedem o mesmo sujeito de divulgar campanhas de vacinação durante o período eleitoral, sob o argumento de que isso poderia gerar promoção pessoal.
Enquanto isso, o “tchutchuca” enfrenta processos por manifestações consideradas irregulares e até por campanha antecipada.
Mas o governo atual — aquele que demora na distribuição das vacinas contra a dengue, alegando falta de recursos mesmo diante de surtos e aumento de casos; aquele envolvido em escândalos como Mensalão e Lava Jato, com acusações anuladas por erros processuais — faz uso de recursos públicos e incentivos culturais em eventos com forte conotação política favorável ao próprio governo, inclusive em ano eleitoral.
Ou eu estou maluco, ou a sociedade adoeceu e perdeu a maturidade para perceber o caos criado por “aristocracias políticas” que se aproveitam do dinheiro público para festejar, esbanjar e investir apenas no que as manterá no poder.
Enquanto reflito, lembro de Ortega y Gasset descrevendo a ascensão do homem‑massa — não como classe social, mas como tipo psicológico que exige privilégios sem assumir responsabilidades, pressionando instituições a agir conforme seus desejos imediatos, quase sempre inúteis na prática.
“A massa crê que tem o direito de impor e de dar força de lei aos seus tópicos de café.”
É impossível ignorar a percepção de que certos atores políticos são tratados como intocáveis, enquanto outros são punidos por qualquer gesto. Isso incomoda meus pensamentos e, sinceramente, a própria realidade da sociedade.
Respiro fundo. O ar da manhã entra pela janela, trazendo um cheiro de chuva distante e um friozinho que combina com minha indignação. Lembro então da expressão “pão e circo” — panem et circenses — a velha crítica de Juvenal ao povo romano, que aceitava perder poder político em troca de entretenimento e benefícios imediatos.
Pego um pedacinho de chocolate, deixo derreter no café quente e bebo devagar, enquanto reflito: “Será mesmo que, já há muito tempo, o povo deixou de se preocupar e agora só deseja pão e circo?”
Onde foi que começou esta característica humana de não perceber que eventos culturais financiados com dinheiro público — como o Carnaval — usados para exaltar um lado político e ridicularizar outro, são no mínimo estranhos?
A distração das massas, enquanto questões sérias como corrupção, desigualdade de tratamento judicial e falhas na gestão de saúde pública se acumulam, deveria incomodar a todos.
Mas, pelo visto, o estádio está lotado, a torcida está animada, e o circo continua.
Publicado em 19/02/2026 - por Daniel Camargo Thomaz