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Café, Giz e Controvérsias - Edição 1.015

 

Notificações, café e um Prêmio Nobel

 

Certamente não sei explicar o que está ocorrendo, pois ultimamente tenho passado muito tempo em frente ao computador escrevendo e pouco na sala dos professores lendo, sorvendo o néctar repleto de cafeína e ouvindo as maluquices que acontecem nas escolas da região. A sala, com cadeiras que rangem como se conspirassem, a cafeteira sempre no limite e o quadro de avisos onde nada se resolve, seria o cenário ideal para me manter ancorado na realidade. No entanto, há um problema que, como bom procrastinador, deixo para depois: meu computador traz notícias no cantinho da tela e muitas delas chamam muito a minha atenção.
Estou terminando um romance, diagramando e corrigindo três antologias, fazendo planejamentos, corrigindo redações — são 200 estudantes — e diagramando meu livro de crônicas. Porém, como se nada tivesse para fazer, surgem notificações sem parar e algumas despertam muito a minha curiosidade. Por exemplo, Donald Trump é indicado e quase ganha o Prêmio Nobel da Paz. Não tem como; preciso parar tudo o que faço e ler, afinal, em um mundo de fake news, será mesmo verdade ou é um vírus tentando se instalar no meu PC para roubar meus dados? AAAAAAAAA, preciso ler, então paro tudo e vou até a página de um jornal digital.
Extremamente concentrado, leio e percebo que a indicação é honrosa e festejada por muitos, pois os conflitos em Gaza entre Israel e Palestina chegaram ao fim devido a um acordo costurado por Donald Trump. Ah, como gostaria de ser normal: ler a notícia e voltar ao trabalho. Mas percebo que o Prêmio já tem um vencedor e não foi Trump, e sim María Corina Machado, que, segundo mais um tempinho de leitura e pesquisa, é uma das principais líderes da oposição contra a ditadura chavista na Venezuela. Acusada de golpista em 2014, quando ainda era deputada, María promoveu um movimento de protesto para retirar o chavismo do poder. Isso lhe custou a perda do mandato devido a uma acusação de “conspiração golpista”. No ano seguinte, foi impedida de concorrer a quaisquer novos cargos públicos.
Após a leitura, entrei em um estado de epifania literária, buscando no subconsciente algo que explicasse os acontecimentos — e encontrei. Sim, encontrei um livro que li recentemente de Arthur Koestler. Koestler, escritor nascido em Budapeste em 1905, ex‑militante comunista que mais tarde se desiludiu com o bolchevismo, escreveu Darkness at Noon, cujo personagem principal, Nicholas Salmanovitch Rubashov, é preso; toda a narrativa desperta a reflexão de que a humanidade precisa rever abusos de determinados dogmas ideológicos que prejudicam principalmente os mais vulneráveis, em detrimento da manutenção do poder e de convicções.
Voltando à realidade, penso que tanto a indicação de Donald Trump quanto a premiação a María Corina são sinais de que parte dos intelectuais está revendo um consenso que até então parecia intransponível — o de que ideias conservadoras, capitalistas ou contrárias a determinadas vertentes socialistas jamais seriam associadas a um Prêmio Nobel da Paz. Mas reflito, baseado no livro que li recentemente, pois é para isso que serve a literatura: Arthur Koestler não foi o único a alertar sobre os desmandos de regimes e aparelhos que se dizem democráticos. Quando observamos — sem dogmas ideológicos — vemos a manutenção de apenas uma ideia nos governos tidos como democráticos; assistimos a atos de cancelamento de opiniões contrárias e o aniquilamento de reputações, o que sinceramente não parece nem democrático nem libertário. Esta é uma reflexão que uma notícia trouxe em meio a tantos trabalhos e projetos que tenho.
Será que a lógica de determinados partidos em converter erros individuais em meros ajustes táticos, eliminando a obrigação ética da responsabilidade pessoal, faz sentido? Será que revoluções e lutas são verdadeiramente o caminho para uma sociedade justa, ou podemos encontrar esse caminho justamente com diferentes ideias trabalhando juntas? Parece que muitos não refletem sobre ética e moral quando não percebem que a paz é traçada apenas quando todos unem esforços e não quando fragmentamos e lutamos uns contra os outros.
Bom, preciso voltar ao trabalho. Minha esposa diz que existe uma forma de silenciar as notificações, mas será mesmo que desejo me isolar? Enquanto penso nisso, a luz do monitor lança um clarão amigável sobre a minha xícara de café, e o quadro de avisos continua lá, imperturbável, como um juiz que já decidiu que o drama humano rende melhores crônicas quando interrompido por um sinal sonoro.

 



Publicado em 16/10/2025 - por Daniel Camargo Thomaz

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