
Entre Sêneca e as ruas: o que estamos fazendo com o nosso tempo?
No silêncio do meu escritório, cercado por livros e papéis, reflito sobre o mundo que pulsa lá fora. Enquanto leio e penso, percebo como tantas pessoas deixam a felicidade para trás, trocando-a por revoltas, prazeres fugazes ou por uma busca incessante de sentido em meio ao caos. É nesse ambiente de introspecção que me debruço sobre os acontecimentos recentes e sobre o papel das manifestações ao longo da história e na sociedade contemporânea.
Reflito, em especial, sobre os acontecimentos do último fim de semana: clássicos do futebol, shows, pessoas na praia ou em baladas; outros trabalhando arduamente para enriquecer; alguns apenas tentando pagar as contas e aproveitar a vida da melhor maneira possível; enquanto há aqueles desesperados por uma oportunidade mínima, até mesmo para conseguir algo para comer. Como professor e escritor, vejo-me como um filósofo no sentido primeiro da palavra: aquele que busca compreender a vida a partir dos acontecimentos cotidianos, da literatura e da própria existência. A verdade, mesmo que inalcançável em sua totalidade, é universal; o que nos limita é nossa incapacidade de compreender o todo.
Inspirado pela leitura de Sobre a Brevidade da Vida, de Sêneca, percebo que a reflexão sobre as discussões travadas nas redes sociais tornou-se urgente. Recentemente, um deputado federal decidiu utilizar suas férias para caminhar pelo país, protestando contra a corrupção, os rombos históricos no INSS, as fraudes envolvendo autoridades e parentes de autoridades, além do que muitos consideram injustiças jurídicas cometidas contra manifestantes do 8 de janeiro. Sim, escrevi injustiças no sentido de como parte da sociedade percebe o tratamento dado a esses casos, pois traficantes ou autores de latrocínio são frequentemente soltos em audiências de custódia sob o argumento de justiça, enquanto manifestantes daquele dia permanecem presos sob a alegação de extrema periculosidade.
Sua manifestação, inicialmente solitária, transformou-se em um protesto com milhares de pessoas, impulsionado pelas redes sociais. Contudo, assim como recebeu apoio, também foi alvo de críticas severas e acusações diversas, mesmo sem ter agredido ninguém, apenas buscando aquilo que considera a verdade — e faço questão de frisar: a verdade dele.
Diante disso, emerge uma questão fundamental: a verdade, nos pensamentos individuais, depende do nível intelectual, moral e da consciência coletiva. Por essa razão, se alguém acredita que opositores devem ser eliminados em nome do coletivo, essa consciência não pode ser considerada verdadeiramente coletiva. Não desejo entrar no mérito da veracidade das ideias do deputado, mas considero essencial questionar os leitores: o que você está fazendo para melhorar o mundo? Apenas ofendendo quem pensa diferente, sem ter lido um livro ao longo do ano, fixado em bolhas ideológicas? Ou buscando felicidade em prazeres fugazes, enlameados em vícios?
Segundo Sêneca, a vida não é curta; o problema é que a maioria acredita precisar dedicar-se exclusivamente à busca de riquezas e prazeres, sem se importar com os prejuízos causados aos outros. O egoísmo e as falsas virtudes cegam a humanidade. A felicidade individual, muitas vezes, é confundida com a busca desenfreada pelo prazer, enquanto a violência e a corrupção são normalizadas, vistas como meras engrenagens do cotidiano.
Independentemente de concordar ou não com o deputado, é inegável que ele utilizou seu tempo livre para uma ação pacífica, com o objetivo de modificar aquilo que percebe como um cenário de corrupção e autoritarismo judicial. Ainda assim, muitos o veem como o problema. Retomo, então, a pergunta: o que VOCÊ está fazendo?
Para compreender esse fenômeno, é necessário recorrer ao conhecimento histórico. A caminhada do deputado Nicolas pode ser interpretada como uma manifestação pacífica, baseada na força das ideias e na mobilização coletiva. Ao refletir sobre esse ato, torna-se inevitável compará-lo a outros momentos históricos marcantes. A marcha tenentista, por exemplo, foi um movimento revolucionário brasileiro da década de 1920, caracterizado pelo uso da força armada e pela busca de profundas mudanças políticas. Muitos consideraram legítima a violência empregada, acreditando ser necessária para romper estruturas injustas — e, curiosamente, esses mesmos consideram inaceitável o ato pacífico de Nicolas.
Há ainda outros exemplos históricos. As caminhadas lideradas por Martin Luther King Jr. nos Estados Unidos, como a Marcha de Selma a Montgomery, em 1965, e as mobilizações conduzidas por Gandhi na Índia, como a Marcha do Sal, em 1930, foram pautadas pela resistência pacífica e pela força das ideias. King conduziu multidões contra a segregação racial, sempre defendendo a não violência e a união como princípios fundamentais. Gandhi, por sua vez, inspirou milhões a desafiar o domínio britânico sem recorrer à agressão física, demonstrando que persistência e diálogo podem transformar sociedades.
Esses exemplos revelam que, enquanto algumas manifestações se apoiam na violência como meio de alcançar mudanças, outras apostam na resistência pacífica e na mobilização ética. A legitimidade de cada movimento é julgada pelo contexto histórico e pelo olhar da sociedade, mas é fundamental refletir sobre o impacto das ideias que os sustentam. A história demonstra que a persistência, o diálogo e o trabalho constroem transformações duradouras, enquanto a violência e a divisão apenas oprimem.
A filosofia de Sêneca nos convida a viver com consciência, sabedoria e propósito, aproveitando o tempo de forma plena e significativa. Em tempos em que a violência e a corrupção são normalizadas, talvez o ato mais revolucionário seja dedicar nosso tempo à reflexão, ao autoconhecimento e à busca sincera da verdade — sem nos deixarmos dominar por prazeres imediatos, egoístas, ou por lutas que silenciam antagonistas, mas não resolvem os problemas de fundo.
Qual é o seu propósito?
Publicado em 29/01/2026 - por Daniel Camargo Thomaz