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EUA e Brasil a partir de obra de Walt Disney

Livro lançado pela pesquisadora palhocense Nayara Franz aborda a trajetória do filme Fantasia (1940) como parte para compreensão da relação entre os dois países

ff927aabd01d5266d46e4111f47a97b8.jpg Foto: Divulgação

Por: Sofia Mayer*

Um diálogo entre o período da Segunda Guerra Mundial e a história das relações entre os Estados Unidos e o Brasil - isso, a partir de uma análise profunda da trajetória do filme “Fantasia” (1940), um clássico de Walt Disney. Assim pode ser definido o recém lançado livro “Fantasia: do Cinema de Animação à Política de Boa Vizinhança”, da pesquisadora Nayara Franz, moradora do bairro Pagani. A obra é resultado de sua dissertação de mestrado em História, na Universidade Federal de Santa Catarina, e foi publicada pela editora CRV neste mês de setembro.

A autora vem estudando o tema desde 2013, ano em que começou a pesquisar sobre uma visita de Walt Disney, em 1941, ao Brasil. “Esse assunto é bastante conhecido pela historiografia nacional, e sabemos que o personagem Zé Carioca foi criado pelo cineasta mediante o contexto da política de boa vizinhança”, comenta. Além das relações entre os dois países, o livro traz aspectos interessantes para quem se interessa por história do cinema, animação, Disney, Segunda Guerra Mundial, propaganda e mídia no Brasil.

Franz pesquisou arduamente, em materiais de imprensa até então pouco explorados, sobre as percepções dos brasileiros em relação ao cinema de animação daquele período: “Encontrei uma gama bastante ampla de notícias sobre Fantasia, que me levaram a descobrir a participação dessa animação nos acordos políticos entre o Brasil e os Estados Unidos, que são anteriores ao Zé Carioca. Ou seja: eles são o começo dessa história! Deparei-me com uma lacuna que estava faltando”, contextualiza.

Há sete anos, quando a pesquisa começou, a autora não tinha ideia das proporções que o trabalho tomaria. Ao entrar no mestrado, em 2016, o tema passou a ser aprofundado por Franz, que seguiu em um longo processo de escrita, que só terminaria em 2019. Por enquanto, a obra está sendo vendida apenas no site da editora, mas logo deve ser disponibilizada também na Amazon e Estante Virtual.


Relação com a atualidade 

A pesquisadora, que foca seus estudos na área de história do cinema, defende que o audiovisual é também um produto industrial, podendo ser tomado como fonte de debate para compreensão de relações sociais, políticas e econômicas internacionais. 

No livro de Nayara Franz, o leitor consegue visualizar, a partir da descrição da trajetória do filme Fantasia e do contexto histórico o qual foi inserido, por que os Estados Unidos ainda detém tanta influência na sociedade brasileira: “Foi a partir da política de boa vizinhança, no mesmo período da Segunda Guerra Mundial, que os brasileiros passaram a vestir o jeans, a falar o ok e outras palavras de origem da língua inglesa, a comer o hambúrguer, a tomar a Coca-Cola”, exemplifica a autora.

A estreia de “Fantasia” no Brasil, em 1941, ocorreu como um evento político, e contrariando o lançamento estadunidense, transformou-se em um significativo sucesso. Segundo a autora, esse cenário revela objetivos do governo daquele momento para a relação internacional: “Estou me referindo ao governo conhecido como Estado Novo – um governo autoritário, que aplicava a repressão e a censura nos meios de comunicação e cultura. O sucesso de Fantasia foi construído a partir de muita censura e manipulação de dados oficiais, que atenderam tanto a objetivos estadunidenses quanto brasileiros”, revela. 


Falta de apoio à pesquisa

Todo o processo de criação, marcado por uma série de obstáculos, objetiva também “abrir os olhos” do cidadãos quanto aos problemas enfrentados pelos pesquisadores brasileiros: “Recursos escassos ou inexistentes, falta de valorização da ciência nacional, falta de políticas públicas, e, infelizmente, também a falta de reconhecimento por boa parte da população”, a autora exemplifica. Sem investimento à pesquisa, ela afirma, todos saem perdendo. 

* Sob a supervisão de Alexandre João Bonfim da Silva

 

 

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