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Grandes empresas improvisam em meio à crise

Com baixas nas vendas em função da Covid-19, momento é de apreensão nas grandes empregadoras do município; enquanto isso, Jotur participa de reunião, na quinta (14), que definirá os rumos do transporte coletivo

5a009fe8c6d2f32a7df388daf7287fd5.jpeg Foto: DIVULGAÇÃO/SINASC

Por: Sofia Mayer*

 

Uma reunião, marcada para a manhã desta quinta-feira (14), deve definir a retomada do transporte coletivo no estado. Um alívio para a palhocense Jotur, uma empresa que abriga cerca de 700 funcionários e está com as atividades paralisadas desde o dia 19 de março. Uma situação delicada, assim como a de outras gigantes do município, que estão precisando inovar para continuar de pé durante a crise do novo coronavírus (Covid-19).

O encontro para tratar da circulação dos ônibus no estado está marcado para as 10h, na sede da Defesa Civil, em Florianópolis. A reunião vai contar com a participação de representantes da categoria, incluindo profissionais da Jotur, e os secretários de Estado da Saúde, André Motta Ribeiro, e da Infraestrutura, Thiago Vieira. De acordo com o governador Carlos Moisés, esse é um assunto que está sendo debatido há mais de 30 dias com o setor.


Preocupação na indústria

De acordo com decreto publicado pelo governador Carlos Moisés, quando regras de isolamento social mais rígidas começaram a valer em Santa Catarina, as indústrias precisaram reduzir em, pelo menos, 50% o número de trabalhadores por turno. Desde então, a fábrica de cosméticos Extratos da Terra, que emprega 36 funcionários, reformulou todo o planejamento estratégico traçado no começo do ano, e passou a tomar decisões diárias, pautadas nas novas informações que surgiam da Covid-19. “Nosso foco principal, no início, não foi manter vendas, nada iria adiantar diante de um mercado parado. Então, dispensamos as equipes de produção e mantivemos o marketing em home office, com foco em manter os distribuidores ativos, e sem perder totalmente as esperanças”, lembra Joel Aterino de Souza, proprietário da empresa. 

Mesmo com a autorização, desde 27 de abril, para as indústrias voltarem a operar com 100% dos funcionários, a Extratos da Terra segue trabalhando com capacidade reduzida. “Não temos produção suficiente, todos os dias, para manter toda a equipe, porque não estamos conseguindo vender. As vendas caíram muito e (agora) estão crescendo muito devagar”, explica Souza. Para manter os funcionários, a empresa optou por trabalhar em dias intercalados: “Poderíamos ter demitido pelo menos 30% da equipe, mas decidimos manter”.

A fábrica não é a única do setor a colher os impactos negativos: estudos indicam que, durante a pandemia, já houve uma retração de R$ 5,5 bilhões na produção industrial em Santa Catarina, com diminuição de R$ 5,1 bilhões nas vendas no mercado interno e R$ 428 milhões nas exportações industriais.
Uma das grandes preocupações das empresas é em relação à falta de auxílio do governo federal e suas medidas insuficientes para conter a crise. “As linhas de crédito, somente para folha de pagamento, não resolvem, porque há outros custos na operação”, afirma Souza. Na Extratos da Terra, a ideia é explorar, ao máximo, os canais digitais, que têm sido a maior fonte de receita no momento. “O governo não ajudou em nada, ainda, o setor produtivo, e, por isso, o número alto de demissões. Isso vai continuar se não agir com linhas de crédito com prazo de carência e juros subsidiados para as empresas, urgente”, declara o empreendedor.

Uma nota, divulgada nesta quarta-feira (13), pela Caravela Soluções, vai ao encontro desse cenário de prejuízos: segundo a pesquisa, a arrecadação de ICMS em Santa Catarina em abril de 2020 foi 18,9% inferior ao mesmo período em 2019, o que se traduz em baixas de R$ 350 milhões. Em comparação com março, a redução foi de 22,7%. 


Adaptação na rotina de produção

Já a Sinasc, indústria de engenharia de tráfego, com sede no Jardim Eldorado, também precisou adaptar toda a sua rotina de produção. Com mais de 800 funcionários e atuação em território nacional, a empresa se viu obrigada a adotar o regime de serviço remoto. Para aqueles que precisam trabalhar presencialmente, a estratégia de segurança da empresa foi abrir mão de rendimentos, reduzindo carga horária dos funcionários e implementando turnos diferenciados. “Apesar das dificuldades, a Sinasc não pensa em demissão neste momento”, garante o diretor institucional da empresa, Luiz Henrique Moreira. Revelando otimismo, a projeção é a de que mais funcionários sejam contratados quando a crise do novo coronavírus passar.

As restrições de funcionamento na Sinasc e na Extratos da Terra podem exemplificar o estudo “Impacto do Coronavírus nos negócios de SC”, divulgado pela Fecomércio, Fiesc e Sebrae nesta terça-feira (12), que concluiu que sete em cada 10 indústrias no estado seguem com produção reduzida. O posicionamento de não demissão das empresas, contudo, vai contra a tendência verificada no período: segundo a pesquisa, a porcentagem de estabelecimentos que cortaram profissionais já chega a 41,4%. 

Segundo os dirigentes da Sinasc, o esquema de home office tem dado certo. Com acesso remoto aos computadores da sede, e comunicação interna a partir de um sistema próprio da empresa, a parte administrativa, que conta com 70 funcionários, está se virando sem sair de casa. A falta de ônibus circulando no município também não tem sido um grande limitador para aqueles que não escaparam do trabalho presencial. “Alguns funcionários têm seus próprios veículos; outros, bem poucos, nós damos um jeito de ir buscar e levar”, afirmam. A orientação de advogados trabalhistas é a de que, caso o funcionário não tenha meio de locomoção próprio, o transporte dos trabalhadores, bem como seu custeio, deve ser de responsabilidade da empresa.

Já a Ventisol, com duas fábricas em Palhoça no setor de climatização e ventilação, possui uma característica sazonal de vendas e, historicamente, produz menos com a proximidade do inverno. A pandemia do novo coronavírus, no entanto, não deixa de ser uma preocupação para a empresa, que costuma intensificar as fabricações no segundo semestre. “Não estamos arriscando em produtos que acreditamos que possam ser mais difíceis de vender, porque já está um ano difícil, então, a gente postergou alguns para o ano que vem”, explica a gerente de Novos Negócios, Natacha Tcholakian. O adiamento das feiras de exposição, onde os lançamentos são apresentados, é outro fator determinante para a decisão.

Embora acreditem que o plano de vendas para 2020 possa ser alterado, a equipe está otimista para os próximos meses. “Estamos esperançosos de que o verão será bom, e que a temporada possa ser salva”, afirma Tcholakian. A gerente de novos negócios conta que a Ventisol está aproveitando o período para reorganizar as estratégias da empresa e melhorar suas operações, “para que quando tudo isso acabar - e vai acabar - nós possamos nos recuperar rápido”. As unidades de Palhoça têm, hoje, cerca de 180 funcionários.


Com cuidados, serviços não param

Desde o início das medidas de contenção da Covid-19 no estado, divulgadas em 17 de março, as empresas de call center faziam parte do grupo de serviços essenciais com permissão para funcionamento, desde que apresentassem equipes em números mínimos. Empregadora de mais de 940 trabalhadores, a Flex BPO, na Pedra Branca, não interrompeu as atividades durante a crise, mas criou um comitê para implementar ações em comunicação, prevenção e contingência da Covid-19. “Todas as medidas que tomamos foram mais do que bem recebidas pelos nossos profissionais, que se sentiram mais seguros para continuar seu trabalho”, afirma Marina Martins Teixeira de Miranda, superintendente operacional da Flex Continente. Iniciativas como a aquisição de 18 mil máscaras para profissionais da corporação e peças educacionais através de um canal 0800 também foram desenvolvidas.

Com ônibus suspensos há quase dois meses, muitos funcionários ficariam sem conseguir chegar ao trabalho, inviabilizando a continuidade dos serviços. “Em Palhoça, também disponibilizamos transporte para os profissionais, e, desta forma, conseguimos reduzir o impacto do isolamento social para todos”, contextualiza a superintendente operacional. Além disso, o home office foi adotado para algumas operações. A solicitação de férias, mesmo sem período aquisitivo, para profissionais que moram junto com pessoas do grupo de risco, também foi disponibilizada.
O estudo divulgado pela Fecomércio, Fiesc e Sebrae afirma que as grandes empresas são as menos afetadas pela epidemia no estado. Uma prova disso é a expansão da Flex BPO, em meio à crise econômica e sanitária: segundo a superintendente, no período, a empresa abriu 15 novos postos de atendimento e contratou mais 110 pessoas para a unidade Continente.


Minimercados com saldo positivo

No ramo alimentício, minimercados e armazéns tiveram aumento de movimentação em Santa Catarina, em abril, de acordo com a pesquisa divulgada pela Caravela Soluções nesta quarta-feira (13). Os supermercados, por outro, lado, tiveram quedas de 5% no estado. 

Embora o Combo Atacadista, da Rede Giassi, com uma unidade no Jardim Eldorado, não divulgue desempenhos de vendas, admite que precisou se adequar à nova realidade de consumo. “Sendo serviço essencial, tínhamos a responsabilidade de manter a segurança para as pessoas nas lojas”, explica o head de atacado do Combo, Aliandre Avanzo. Para isso, investiram na higienização de ambientes e equipamentos, na orientação aos colaboradores e na sinalização de distância social mínima. “Ao mesmo tempo, trabalhamos intensivamente para garantir que o abastecimento continuasse regular e o consumidor não enfrentasse falta de produtos ou aumentos desnecessários nos preços”, conclui.

Já em março, ao analisar o setor supermercadista, o presidente da Associação Catarinense de Supermercados (Acats), Paulo Cesar Lopes, afirmou que o saldo foi positivo: “Os varejos permaneceram abastecidos e em pleno atendimento, dentro das restrições impostas pelo governo; todas as recomendações sanitárias foram respeitadas com extremo zelo; as equipes de profissionais tiveram e estão tendo comportamento exemplar, porque estão diariamente expostas aos riscos de possíveis contágios; lideranças do setor se posicionaram em relação a situações de reajustes não justificados de preços e em defesa dos consumidores”.


Auxílio às empresas de pequeno porte

O Projeto de Lei Complementar 0094/2020, de autoria do poder Executivo, foi aprovado em sessão extraordinária ocorrida nesta terça-feira (12) na Câmara de Vereadores. A lei autoriza a criação de um fundo de risco, com valor de até R$ 1,5 milhão, para ampliação do acesso de crédito das microempresas, empresas de pequeno porte, microempreendedores individuais, profissionais autônomos e empreendedores populares. O projeto foi aprovado por unanimidade e segue para a sanção do prefeito Camilo Martins.


* Sob a supervisão de Luciano Smanioto


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