Em busca do salto perfeito

Gaúcha Jaki Valente, de 33 anos, integrante do circuito feminino do Red Bull Cliff Diving, está morando e treinando em Palhoça

b5c015314c94d3c5c657ef66d39591fe.jpg Foto: DIVULGAÇÃO/RedBull

Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, a editoria de Esportes do Palhocense não poderia deixar de prestar uma homenagem às mulheres esportistas, que trazem um colorido todo especial a este universo de superação física, perfeição técnica e foco mental. São características que representam com propriedade a grande maioria das modalidades esportivas, inclusive o mergulho de penhascos. Acrescente aí uma bela dose de coragem, afinal, saltar de uma altura de 20 metros não é para qualquer um. É para pessoas especiais. 

E nada melhor do que homenagear essas mulheres incríveis contando a história de uma incrível ginasta que esteve perto de participar de uma Olimpíada, ganhou o mundo como artista circense e nos últimos cinco anos vem se destacando como competidora de high diving (salto em altura), modalidade chancelada pela Federação Internacional de Natação (Fina) desde 2014 e que atualmente integra o rol de competições do Mundial de Desportos Aquáticos. Desde fevereiro, a gaúcha Jaki Valente, de 33 anos, está morando e treinando em Palhoça para a temporada 2019 do famoso circuito internacional de mergulho em penhascos Red Bull Cliff Diving, que começa no dia 13 de abril, na paradisíaca El Nido, em Palawan, nas Filipinas, considerada como uma das praias mais lindas do mundo.

É lá que esta cidadã do mundo vai iniciar uma temporada especial. “Decidi ser atleta. Larguei minha vida de circo e estou sendo atleta pela primeira vez”, observa a gaúcha, que ainda criança escolheu o esporte que lhe abriria as portas para o mundo: a ginástica olímpica.
O acaso costuma ser o fiel mensageiro do destino. Jaki conheceu o esporte que seguiria como profissão assim: a mãe a levou para ver a irmã mais velha treinar ginástica rítmica, mas ela se encantou por outra ginástica. Nada de corda, arco, bola, fita... Os olhos da pequena Jacqueline brilharam ao observar as barras assimétricas, o cavalo com alça, a trave de equilíbrio. Foi amor à primeira vista, plenamente correspondido. Bastou uma semana de treinos para um caça-talentos convocá-la para treinar no poderoso Grêmio Náutico União, clube de Porto Alegre (RS) que é referência em vários esportes no Rio Grande do Sul e no país.

No União, Jaki foi colega de equipe de Daiane dos Santos, uma das principais atletas da história da ginástica olímpica brasileira, e estava cotada para disputar a Olimpíada de 2000, em Sydney, na Austrália, mas machucou o cotovelo e não conseguiu se recuperar a tempo de integrar a delegação brasileira. “Fiquei triste, porque era ginasta de ponta, de elite, e é o sonho de qualquer pessoa, mas aí não deu certo”, relembra.

Na verdade, deu certo. O futuro provaria isso. Jaki Valente entrou para a faculdade de Educação Física e seguiu dedicada à ginástica, quando uma oportunidade de ouro bateu à porta: uma menina que participaria do espetáculo artístico Hopi Daga, na Alemanha, desistiu pouco tempo antes do contrato iniciar e ela foi convidada a substituí-la. Depois que a família se certificou de que se tratava de uma oportunidade real, embarcou para a primeira aventura internacional. Tinha 18 anos. Foram 10 meses de trabalho, que renderam novos contratos. Quando percebeu, havia se transformado, definitivamente, em uma artista de circo. Fez testes no aclamado Cirque du Soleil e decidiu integrar a equipe de Franco Dragone, ex-produtor do próprio Cirque de Soleil que decidiu montar sua própria companhia. “A experiência que eu tinha de artista de circo no Brasil era a de pessoas trabalhando na sinaleira. Ninguém valoriza. Nunca passou pela minha cabeça, mas acabei virando artista circense”, comenta, ressaltando que lá fora o reconhecimento é completamente diferente.

Foi em um espetáculo da Dragone que Jaki conheceu o high diving, em 2012. A companhia realizava o maior show aquático do mundo, o “The House of Dancing Water”, em Macau, na China. A gaúcha era especialista na maca russa, número aéreo em que um artista é lançado de uma espécie de gangorra. A ginasta atingia uma altura superior a 10 metros e caía na água. Quase um high diving - a Fina estabelece 20 metros para as competições femininas de salto em altura e 27 metros para as masculinas. Os amigos sempre a incentivaram a fazer saltos de plataformas mais altas, mas ela achava “loucura” saltar daquela altura. Até que perdeu uma aposta para um amigo brasileiro e precisou encarar aquela “loucura”. Encarou, saltou e foi paixão ao primeiro mergulho. “Pensei: por que eu não fiz isso antes?”, diverte-se.

A partir dali, entregou-se à nova “loucura” da carreira de ginasta circense. Vídeos com seus saltos se espalharam pela internet e chamaram a atenção da organização do Red Bull Cliff Diving, que já ganhava notoriedade com a competição masculina e estava prestes a iniciar a categoria feminina. Jaki foi convidada não só a competir, mas a estrelar o comercial que apresentaria a competição feminina na Noruega. Ela vinha de uma lesão no joelho, que exigiu uma cirurgia para reparar o ligamento cruzado anterior, e não saltava há mais de um ano, mas topou o desafio, que era ainda mais “louco” do que seu trabalho no circo. No comercial, Jaki precisava saltar do alto de um fiorde norueguês, mergulhando na água gelada da Escandinávia. Eram 40 minutos subindo de rapel até o alto de um penhasco onde o gelo derrete, formando uma cascata, apenas durante duas semanas por ano. Era um salto em dupla, ou seja, precisava fazer os movimentos em sincronia com um atleta do high diving masculino. Nunca tinha feito isso, não treinava desde a cirurgia no joelho e mesmo assim encarou a tarefa. O primeiro salto após quase dois anos de inatividade foi justamente o salto exibido no comercial.

O mergulho no gelo ártico foi um batismo de fogo. Ela estava preparada para o Red Bull Cliff Diving. A primeira apresentação no circuito foi no Possum Kingdom Lake, no Texas, nos Estados Unidos, em 2014. Naquele ano, fez parte da equipe permanente do circuito. Teve que se adaptar ao esporte, como a rotina de criação de um número para apresentar na competição. Isto é: não basta saltar, o atleta precisa informar aos jurados como vai ser o salto e fazer os movimentos conforme indicado. Chegou a viver uma experiência frustrante, em que indicou um salto ao jurado, que pensou ter entendido errado o que ela faria e modificou a sequência ao incluir o salto na planilha dos jurados. 

“Na minha primeira competição, eu disse que ia fazer um salto esticado e ele pensou: ‘Não, ela não vai fazer isso, ela vai carpar no final, porque é impossível controlar o tempo todo esticado’. Então ele escreveu no papel que seria carpado, e eu fiz esticado”, recorda. Surgiu discussão, chamaram o árbitro, ele admitiu que ela ia fazer daquela forma e ele colocou “carpado” porque “todo mundo carpa”. Como ela assinou o documento oficial, não teve como mudar o resultado, apesar de não ter sido sua culpa. “Isso me tirou de estar no pódio na minha primeira competição. Eu poderia ter ficado em terceiro lugar”, destaca.

Mas o pódio viria. Jaki foi segunda colocada na etapa italiana de Polignano a Mare, em 2017, feito inédito para o Brasil. Um resultado empolgante e que ajudaria a estabelecer mais um divisor de águas na carreira. A gaúcha decidiu acabar com a rotina de organizar o calendário para não coincidirem as datas do trabalho de artista circense com as competições de saltos de penhascos. Agora, vai focar na carreira de atleta de high diving. Por isso veio a Palhoça.

Jaki sentiu que precisava treinar. Até então, não treinava sistematicamente, só uma semana antes da competição; isso se houvesse estrutura para treino no local do evento. Pela primeira vez, vai treinar especificamente para o salto em altura. “Vou me preparar pela primeira vez, nunca fiz isso, acho que é o momento”, reflete. E escolheu treinar em Palhoça. A sugestão partiu de uma ex-competidora e árbitra de saltos ornamentais, Violeta Reis, que recentemente trocou o Rio de Janeiro pela Praia do Campeche, em Florianópolis. Violeta conhecia a estrutura de saltos (com direito a uma plataforma oficial de saltos ornamentais, de 10 metros de altura) do complexo aquático da Unisul, na Pedra Branca. 

No início de fevereiro, a gaúcha veio conhecer a estrutura da Unisul e encontrou muito mais do que procurava. “Eu vim só com uma mochila para conhecer o Carlão (Carlos Camargo, consagrado técnico de natação e administrador do complexo aquático), porque estava muito difícil de treinar em qualquer lugar”. Carlão disse que ela podia começar a treinar imediatamente e disponibilizou toda a estrutura da Unisul para a atleta, com piscina, musculação, massagem... Até o professor Roberto Bacchi, que dá aulas de saltos ornamentais na Unisul, se disponibilizou a ajudar nos treinamentos. Jaki logo avisou à família: “Vou morar em Palhoça”. Diz que está tão feliz com todo o ambiente positivo encontrado por aqui que não quer mais ir embora. 

“Eu vim com a expectativa de arrumar uma piscina para treinar e ganho um kit completo? Isso não existe. Estou amando, está muito bom, muito legal mesmo, quero voltar pra ficar”, afirma a ginasta, que morava em Seattle, nos Estados Unidos, e decidiu voltar a morar no Brasil. Ela alugou um apartamento próximo à Unisul e já recebeu o convite da Red Bull para participar da estreia da temporada 2019, nas Filipinas. Um convite mais do que justificado. “Eu revolucionei um pouco o esporte. Continuo sendo a mulher que faz os dois saltos mais difíceis do mudo entre as mulheres”, revela. 
Se Jaki já conseguia tamanha façanha sem treinamento, imaginem o que ela pode alcançar com a preparação adequada! A musculação ajuda a dar mais explosão e a ganhar altura no salto; a técnica é ajustada com o treinador de saltos, e hoje já consegue enxergar melhor a água com os treinos no trampolim, o que é importante para ajustar o salto. “Já estou sentindo toda a diferença. É bem divertido”, comemora. 

“Na plataforma, sei que sou só eu saltando, mas por trás de todo atleta, sempre soube que existia uma equipe, e eu nunca tive uma equipe. Sei que cada pessoa aqui (em Palhoça) que cruzou comigo e que vai estar comigo lá naquele momento, cada conversa, tudo está me acrescentando na bagagem de atleta”, pondera a competidora, que não vê a hora de voltar a competir e aplicar tudo o que desenvolveu em Palhoça. “Estou louca para ir para as Filipinas para ver como vai ser. Se eu já achava muito bom, agora vou achar sensacional”, projeta. Que Palhoça dê sorte e um novo pódio a espere em Palawan!



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Créditos: Foto:Victor Garcia Feldman DIVULGAÇÃO/RedBull DIVULGAÇÃO/RedBull DIVULGAÇÃO/RedBull
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