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Aula inaugural com distopias e café amargo


Material didático não autorizado pelo Ministério do Conforto

 

Preparado para a volta às aulas — afinal, estou descansado… ou, para ser honesto, já um tanto entediado de ficar tanto tempo em casa — começo o ano com aquela inquietação típica de quem vive do pensamento e da palavra. Não há mais despertador, nem sinal de entrada, mas há um incômodo persistente: a sensação de que a mente, quando não provocada, começa a reclamar.

Acompanho as notícias logo cedo, café em mãos, - já planejando as aulas - e percebo que temas para redações, artigos de opinião e até cartas a líderes políticos não faltam. Veja só: começamos o ano com a prisão do ditador Nicolás Maduro, acusado de perseguições políticas, fraudes eleitorais, mortes e até envolvimento com tráfico de drogas. O curioso — e aqui confesso um misto de espanto e ironia — é que muitos ainda escreverão em defesa do “líder revolucionário”, mesmo com parte significativa do povo venezuelano comemorando sua prisão. Pelo menos, já no início do ano letivo, terei material farto para provocar meus alunos a pensarem fora da caixa. Eles odeiam quando digo isso. No entanto, eu continuo dizendo. Questão de coerência pedagógica… e um pouco de teimosia também.

O mundo está mudando — ou fingindo que muda. Dietas antes consideradas nocivas agora ganham selo de saúde; regimes autoritários caem enquanto seus defensores seguem proclamando liberdade em letras garrafais; e democracias que mais se assemelham a oligarquias continuam sendo defendidas com unhas, dentes e narrativas cuidadosamente editadas. Tudo bem: cada um tem direito à própria opinião. Mas, como repito exaustivamente em sala de aula, opinião é bem diferente de fato. Hoje, admito, estou particularmente impossível.

É nesse estado de espírito — entre o ceticismo e a esperança didática — que recorro aos clássicos. Afinal, se o presente insiste em se repetir, certamente o passado ainda tem algo a nos ensinar.

A literatura sempre nos alertou sobre os perigos do poder concentrado e da perseguição às individualidades que ousam pensar diferente. Em 1984, George Orwell demonstra que controlar a linguagem é, em essência, controlar o pensamento: quando as palavras desaparecem, a capacidade de discordar também se extingue. Já em A Revolução dos Bichos, a promessa de igualdade se dissolve rapidamente quando o poder muda de mãos, revelando que nem toda revolução liberta — algumas apenas substituem os donos do chicote, mantendo intacta a lógica da opressão.

Em Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley antecipa um mundo em que a dominação dispensa a violência: basta o prazer constante, a distração permanente e a anestesia do pensamento crítico. Em Fahrenheit 451, Ray Bradbury nos lembra de que não é preciso queimar livros quando as pessoas deixam de lê-los por vontade própria — a ignorância voluntária pode ser tão eficaz quanto a censura explícita. E O Processo, de Kafka, talvez seja o mais perturbador de todos: nele, o indivíduo é esmagado por uma máquina burocrática sem rosto, acusado sem saber por que, punido sem compreender como — algo assustadoramente familiar em sociedades onde o sistema se torna mais importante do que o ser humano.

Mesmo quando recorremos a não ficção, o impacto não diminui — ao contrário, se intensifica. Em O Arquipélago Gulag, Aleksandr Soljenítsin escancara como um regime que se dizia libertador construiu um sistema de opressão sustentado pelo medo, pela delação e pela normalização da crueldade. Já Hannah Arendt, em A Condição Humana, ajuda-nos a compreender que o totalitarismo não se sustenta apenas por tiranos declarados, mas pela abdicação da responsabilidade individual — quando pensar se torna perigoso e obedecer passa a ser confortável.

Essas leituras, ficcionais ou não, convergem para a mesma advertência incômoda: sistemas que sufocam a liberdade e a consciência individual tendem, inevitavelmente, a repetir os mesmos padrões de opressão, ainda que mudem os discursos, os símbolos ou os slogans cuidadosamente embalados para consumo público.

Com tudo isso em mente, observo os eventos atuais. Não são exatamente ideais para um pacifista confesso como eu, mas revelam tanto a insatisfação dos oprimidos ao redor do mundo quanto a habilidade de opositores políticos que, muitas vezes mais interessados no poder econômico do que na justiça, aproveitam o caos para derrubar seus rivais. Se a ciência afirma que o caos é um agente criador, fico me perguntando — com certo receio acadêmico — o que exatamente está sendo gestado.

O noticiário, por sua vez, não colabora com o otimismo. Em meio a protestos, um líder autoritário afirma que sua República Islâmica não tolerará “vandalismo” e acusa Estados Unidos e Israel de estarem por trás das manifestações. Em outra declaração, acusa o governo Trump de ter as mãos “manchadas de sangue” após ataques aéreos do ano anterior. Ao mesmo tempo, promotores do regime islâmico anunciam pena de morte para manifestantes, enquanto os Estados Unidos, com apoio de aliados, realizam ataques “em larga escala” contra alvos do Estado Islâmico na Síria. Até decisões administrativas revelam tensões geopolíticas: o governo dos Emirados Árabes Unidos exclui o Reino Unido de seu programa de bolsas por temer a radicalização de jovens — justificando, segundo uma fonte britânica, que “não querem que seus filhos sejam radicalizados no campus”.

E assim seguimos: entre distopias literárias e manchetes que parecem saídas diretamente delas, tentando ensinar jovens a pensar criticamente enquanto o mundo, generoso, insiste em nos oferecer material de sobra. Indubitavelmente, será um grande ano letivo!



Publicado em 14/01/2026 - por Daniel Camargo Thomaz

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