
Como debater injustiças sem olhar para elas
Como amo os encontros com professores em momentos de formação continuada, quando debatemos soluções educacionais, técnicas de aprimoramento e estratégias para melhorar o desempenho dos alunos… só que não. Para surpresa de absolutamente ninguém, os temas do encontro — claro, na informalidade, porque a programação oficial até era interessante, com direito a “IA na educação” e “como não virar um professauro” — evaporaram em segundos. Bastou o primeiro gole de café para que meus caros colegas mergulhassem no cardápio habitual: feminicídios, homens brancos, policiais abusivos, donos de escola exploradores. Era como assistir a um coral afinadíssimo de indignações seletivas, cada um disputando quem sofria mais com a sociedade, as injustiças sociais e a opressão do capitalismo.
Eu, como sempre, ouço com paciência — virtude ou condenação, ainda não sei — e tento ser útil, seja acalmando ânimos, seja trazendo contrapontos. Mas naquele dia, preferi me isolar. Caminhei até a copa — sim, o evento tinha uma copa, com cheiro de café requentado e esperança morna — e comprei um. O aroma quente me deu um breve alívio, como se dissesse: “coragem, vai passar”. Voltei para perto do grupo, que continuava firme nas lamentações, sentei e sorvi o café devagar, tentando dissolver no líquido a verborragia ao redor.
Peguei o celular para ver notícias. A primeira: no início do mês, uma menina de 13 anos sofreu um estupro coletivo. Motivo? Ninguém sabe. Apenas se sabe que os autores eram de uma facção criminosa e que a menina não era da comunidade. Horrorizado, mudei de aplicativo. Outra notícia: no primeiro dia do mesmo mês, Sophia, de 10 anos, foi morta dentro do carro do pai por ter cometido o mesmo “erro” — entrar na comunidade errada.
Pensei nas reclamações dos colegas. Em um dos debates, criticavam ações policiais em comunidades de Santa Catarina. Mas, curiosamente, não ouvi uma única crítica às facções criminosas que violentam, matam e aterrorizam menores, mulheres e pessoas negras. A indignação parecia ter manual de instruções e cláusulas de exceção.
Inevitavelmente, lembrei de O Alienista. Simão Bacamarte começa internando os “loucos”. A população apoia. Depois amplia os critérios. A população se revolta. Depois muda de novo. A população apoia outra vez. Não há princípio fixo — há conveniência. Como na narrativa, a sociedade parece preferir aderir ao discurso dominante do momento a sustentar coerência. É mais confortável ser levado pela maré do que admitir que ela muda conforme o vento.
Revirei os olhos, tomei mais um gole de café — já frio, como a esperança de um debate equilibrado — e me veio à mente Memórias Póstumas de Brás Cubas. Prudêncio, antigo escravo de Brás, que quando menino servia de “cavalo umano” nas brincadeiras cruéis do senhor. Anos depois, já alforriado, Brás o encontra na rua — agora ele é quem açoita violentamente o próprio escravo. A moral, percebi mais uma vez, raramente é universal; ela costuma seguir a lógica da hierarquia, não de princípios absolutos. A roda gira, mas o chicote permanece.
Observei meus colegas novamente. Preferi ficar calado. Normalmente, não compreendem as críticas que faço. O problema é que nunca sei se é por seletividade, ignorância ou simples falta de caráter. Talvez um pouco de cada — como um coquetel moral servido sem moderação.
Publicado em 12/02/2026 - por Daniel Camargo Thomaz