Vidas Alteradas

A quarentena imposta à sociedade em função do combate à propagação do Covid-19 mudou a vida dos palhocenses

8cf4fbb5e94e8084081397b4a70950fa.jpg Foto: JPP

Por: Sofia Mayer*

 

Eventos cancelados, serviços fechados e contato físico restrito. Com a quarentena imposta pelas autoridades, munícipes mudaram drasticamente suas rotinas, adaptando os trabalhos aos moldes do home office, redobrando a preocupação com a higiene do corpo e da casa, e aderindo ao confinamento social. Enquanto isso, comerciantes e lojistas aproveitam o período para discutir novas medidas, embora já projetem consequências catastróficas para a economia. Nesta semana, com o primeiro caso do novo coronavírus (Covid-19) confirmado na cidade, então, a certeza é de que a vida seguirá alterada por mais um tempo.

Desde o fechamento das escolas municipais, antes mesmo do decreto do governador Carlos Moisés, divulgado no último dia 17,  professores e profissionais da educação estão lidando com uma rotina bem menos agitada do que aquela que conheciam nos corredores escolares. Fazendo boa parte do trabalho em casa, eles usam a quarentena para pensar e colocar em prática alternativas que mantenham as crianças e jovens em contato com o conhecimento. Ao mesmo tempo, sentem que precisam atingir os jovens e conscientizá-los sobre o problema crescente da Covid-19. 

A professora Juliana de Souza, que trabalha com Educação Infantil, conta que a equipe está tendo que ser criativa para não deixar nenhum estudante desamparado. “Estão sendo feitos vídeos com contação de histórias, e mediações referentes às atividades, para que as crianças, juntamente com as famílias, possam executá-las na segurança de seus lares”, conta.

Hoje, toda a equipe está trabalhando em regime de home office, e comparece a reuniões virtuais com todas as redes e corpo docente. Souza afirma, ainda, que informar as famílias sobre questões referentes ao Covid-19 tem sido uma das prioridades do time de professores. “Recebemos orientações sobre a pandemia e de como transmitir tudo com tranquilidade e de forma lúdica às famílias, sem mais alarmes”, completa. A escola, localizada na Pedra Branca, é particular e abrange turmas do Maternal ao Ensino Médio. 

A quarentena também está sendo bem recebida em um colégio municipal com 1.033 alunos, no Centro. Acompanhando o avanço da pandemia pelo Brasil e a chegada do vírus a Santa Catarina, a direção chegou a liberar estudantes com sintomas gripais ainda antes do decreto estadual. Alunos com febre, tosse e dor de garganta não tiveram prejuízos referentes a notas e faltas. “Outra medida também foi liberar funcionários que estavam dentro do grupo de risco e que poderiam ter consequências maiores”, conta o diretor Adriano Cúrcio. 

Depois da ordem de fechar as portas, a escola tem pensado em meios de garantir que a interação com os estudantes continue existindo em meio ao isolamento social. Dar um gás nos canais de comunicação foi uma das alternativas encontradas pela equipe: hoje, a escola publica informativos sobre a pandemia, orientações de livros para o vestibular e sugestões de cursos e sites para os alunos se ocuparem durante a quarentena. 


No comércio, o clima é de apreensão 

A empresária Bianca Flores abriu sua primeira loja de roupas femininas em São José, há sete anos. Hoje, com unidades também em Palhoça e Florianópolis, ela afirma estar apreensiva com as contas dos próximos meses. Durante a quarentena, a equipe está tentando intensificar o serviço de vendas online, que já era disponibilizado pela empresa, mas com estabelecimentos parados, o envio para outras regiões está limitado. “No site, as pessoas até querem comprar, mas a gente depende dos Correios, e eles não estão entregando. A gente não consegue nem calcular o frete para outros estados, e isso dificulta muito”, explica. A aposta de Flores no momento é o envio para clientes da região, através de motoboys. “(As vendas) acabam sendo poucas, porque as pessoas não têm para onde pessoas sair. É mais um presente, coisas pequenas”, relata.

Embora Flores reconheça a importância das medidas de contenção do novo coronavírus, a empresária teme as consequências de manter as portas fechadas por tanto tempo. “Quinze dias faz total diferença, e se ficar um mês assim, vai ser bem difícil permanecer em pé com tudo”, desabafa. A empresária lembra dos investimentos com mercadorias, que estão paradas dentro da loja para a coleção de outono. “Daqui a pouco não vão mais ser vendidas, porque vai começar o inverno e ninguém vai querer investir naquelas peças”, explica. 

Para tentar driblar a instabilidade causada pela pandemia, o diretor de infraestrutura da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) de Palhoça, Sidney Luchtemberg, conta que uma comissão de crise foi formada, junto à diretoria do grupo, para decidir os passos que serão tomados nos próximos dias. Dentre as pautas discutidas, estão ações com a Prefeitura e o governo estadual em relação a pagamentos de IPTU, Simples Nacional, ISS e Samae. “Estamos saindo de um ano já difícil, frente as dificuldades de uma crise nacional em todos os setores, e aí entramos em 2020 com entusiasmo para reverter essa situação. Porém, no caminho tinha uma pedra chamada Covid-19, e o que estava ruim, ficou pior”, contextualiza.

A crise causada pelo novo coronavírus se diferencia de outras por promover uma interrupção econômica. O empresário palhocense Fabiano Henrique Milian faz parte do time que acredita que manter as portas fechadas por mais tempo provocará consequências catastróficas para a economia. “Pela saúde, ficam 60 dias (parados); pela economia, voltam hoje. A função dos estadistas é ver as consequências dos dois lados e decidir pelo que trará menos problemas. É muito difícil administrar recursos, problemas e pessoas. É difícil decidir sobre a vida dos outros”, pondera.
Sidney Luchtemberg acredita que, depois da quarentena, cada lojista terá que mostrar uma capacidade singular de se reinventar: “Contamos com o governo abrindo linhas de crédito e financiamento junto aos bancos para podermos alavancar nossos negócios”. Por outro lado, o diretor prevê que a capacidade de negociação com fornecedores e clientes será essencial para sair do colapso econômico causado pela pandemia. 

Já a possibilidade de desemprego em massa é algo que preocupa a empresária Bianca Flores: “Eu creio que tem que voltar o quanto antes, porque, por exemplo, a minha empresa tem nove pessoas, a gente vai ter que demitir duas funcionárias, e isso em 15 dias. E se isso se estender, vai ser o colapso, vai ser gigantesco”.


Incerteza no turismo

O turismo é um dos setores fortes na praia da Guarda do Embaú. Com hotéis e pousadas fechados, no entanto, a previsão é de duras quedas nos negócios. Para um dos empreendedores da região, Luiz Antonio Rego, a pandemia pegou a todos de surpresa: “Já não foi um verão muito bom. Contávamos com os feriados e o mês de março, que sempre deu movimento”. Embora o clima seja de lamento, o proprietário de pousada calcularia danos maiores se a pandemia estourasse no final do ano, em período de temporada de verão. O medo do setor é a economia, que, mesmo quando o pico do vírus passar, deve demorar para se estabilizar. “Esperamos que isso passe o mais rápido possível, para que possamos voltar ao normal”, diz Rego.


Em casa, mas trabalhando

Em dias normais, Marina Neto Navarro se encontraria com clientes, daria uma volta com seus dois cachorros, brincaria com a filha, de um ano, ao ar livre. Com a orientação de isolamento social, porém, os afazeres da família viraram todos virtuais: “A minha empresa realmente aderiu à questão do isolamento social, então, todas as atividades que seriam em grupo, estão sendo por videoconferência e reuniões online”, conta. 

Ter um bebê em casa torna a adaptação à quarentena mais desafiadora. “Ela já tinha começado a ir pra escolinha, então ela já tinha uma outra rotina”, conta Navarro. Desde o momento em que o governador decretou medidas de contenção da pandemia, a vendedora não sai mais de casa com a menina. “A gente fez uma compra antes do pico (da pandemia), mas a gente está evitando sair. Estamos esperando acabar mesmo tudo que é vegetal e fruta”, explica. Até mesmo o contato da filha com a avó, de 75 anos, enquadrada no grupo de risco da Covid-19, é feito por telefone. Na casa, estão todos isolados. O marido de Navarro é professor de Inglês em três escolas e foi liberado para trabalhar de casa. Hoje, sua rotina de aulas está sendo feita exclusivamente por videochamadas. “A dinâmica está sendo bem complexa de se reinventar, com vídeos, chats e reuniões online. A vida se tornou muito virtual”, destaca.  

Thainá Torres mora no Rio Grande com o pai e a mãe. Com as aulas da faculdade suspensas, e o escritório de advocacia onde trabalha fechado, a rotina diária passou a ser toda em casa: “Trabalho durante o dia de maneira normal, tento manter o horário das 8h ao meio-dia, e das 14h às 18h, para quando voltar não apanhar muito. À noite, faço os trabalhos da faculdade que preciso, além de cursos online para poder ocupar a mente”.

A mãe é contadora em um supermercado do Centro de Palhoça e precisa trabalhar presencialmente. Para garantir a segurança da família, ela é firme nas medidas de higiene. “Ela chega em casa, lava as mãos, deixa o sapato na rua, troca de roupa. Aquela função toda”, afirma a filha. Torres afirma que, embora a mãe tenha que comparecer na empresa, todos os atendimentos com clientes estão sendo realizados por WhatsApp. 

Se os moradores de Palhoça, em geral, tem tomado cuidados com a propagação da doença, quem compreende o grupo de risco precisa de atenção redobrada. Mathias Hillesheim mora na região central da cidade e é portador da Doença de Crohn - uma doença crônica que atinge o intestino. Embora ela esteja controlada no momento, as recomendações divulgadas pelos profissionais da saúde estão sendo seguidas à risca pelo desenvolvedor de software. “Não tem nada que eu possa tomar de medicamento ou coisa do gênero que possa me ajudar nesse sentido, então o remédio é basicamente ficar em casa e tomar muito cuidado em tudo o que eu faço, tudo que eu interajo”, conta. 

Na casa de Hillesheim também moram mãe e padrasto, todos enquadrados no grupo de risco. “Ele tem mais de 80 anos, então com certeza está no grupo de risco, e a minha mãe é fumante, fuma desde a adolescência”, explica. Para blindar a família do vírus, a alternativa está sendo o isolamento coletivo. “Eu já comecei a trabalhar de casa e fiz uma campanha muito forte aqui para eles também evitarem de sair de casa”, completa.

A moradora do Passa Vinte Camila Leal também relata medidas preventivas para se manter longe do vírus. Com bronquite aguda, doença que a integra no grupo de risco, a estudante cuida para não entrar em contato com poeira, cheiros fortes e animais, potenciais geradores de crises. Busca, ainda, uma rotina de higienização da casa e uma alimentação regrada, sem abusos de derivados de leite, para turbinar o sistema imunológico: “Tô há oito dias em isolamento quase total, só tenho em contato com meu pai, que mora comigo”.


Moradores inseguros

No condomínio onde mora a primeira pessoa confirmada com o novo coronavírus em Palhoça, a rotina está permeada pela sensação de medo. Nesta quarta-feira (25), segundo moradores, a Prefeitura esteve no prédio para limpar a parte de fora dos blocos com hipoclorito de sódio. Preocupados com uma possível transmissão, os moradores estão fazendo a limpeza dos blocos. “Algumas pessoas acham que é brincadeira, deixam seus filhos ir no parque brincar”, lamenta uma residente. O condomínio possui 480 apartamentos e mais de mil pessoas. “São muitas crianças e idosos. Eu sinto que não ligam para nós aqui”, desabafa. Visitas estão proibidas nos prédios. 


E quem precisa de serviços?

Cumprindo as recomendações do Decreto Municipal nº 2562/2020, muitos serviços na Prefeitura foram suspensos para a quarentena dos funcionários. O funcionamento limitado de atividades acabou complicando a vida de alguns munícipes. É o caso de uma família da comunidade Beira-Rio. Como não estão inscritos no Bolsa Família, acabaram tendo problemas para conseguir, durante o período de isolamento social, as cestas básicas que o município disponibiliza. “O desespero é muito grande. Você ver o seu filho chorando, pedindo uma comida, e você não ter nem um arroz puro para dar”, conta a matriarca.  A orientação é que famílias que não estão inscritas no programa, mas que precisam de alimentos, procurem a Assistência Social através do número 3242-3202. A partir disso, os postulantes passam por uma triagem e, dependendo do caso, receberão o benefício.

 

* Sob a supervisão de Luciano Smanioto



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